Mapeamento eternamente em construção – Bate-papo com Cia Dezequilibrados

Bate-Papos   |       |    3 de novembro de 2009    |    0 comentários

Cia Dezequilibrados – Rio de Janeiro – RJ
Representante: Letícia Isnard

Na Bacante:

Críticas:
Vida, o Filme

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

O financiamento não funciona. Na verdade a companhia foi fundada em 1998 e de lá pra cá nosso maior parceiro sempre foi o SESC, que é um recurso muito baixo pra montagem, mais complicado até do que pra circulação, que tem o Palco Giratório, que a gente já participou três vezes e foram experiências maravilhosas, mas patrocínio a gente só teve… Uma vez a gente ganhou o FAT, que é o Fundo de Amparo ao Teatro, que é municipal, a gente ganhou 60 mil pra montar o espetáculo, e ano passado a gente teve nosso primeiro patrocínio de uma empresa privada, que foi o Oi Futuro, e a gente ganhou o Myriam Muniz. Esse ano não ganhamos nada, inclusive foi um ano em que a gente não conseguiu nem circular com repertório, nem fazer coisa nova, porque também ao longo desses 12, 13 anos de companhia, como esses recursos sempre foram insuficientes a gente sempre colocava do bolso, então existe ainda uma dívida interna grande na companhia e a fonte secou, ninguém mais tem dinheiro pra continuar botando, então de agora em diante, a gente optou por só trabalhar tendo o mínimo de estrutura, de condição, tudo bem até a gente não ganhar, mas não ter que botar mais do bolso. Agora, o que a gente fez nesse último ano que a gente teve o patrocínio foi uma coisa muito interessante que acho que tem outras companhias fazendo também: em vez de a gente pegar a verba e reverter numa bolada de cachê pros atores, a gente transforma num salário mensal. Então, se, por exemplo, num patrocínio de 230 mil, eu vou ganhar um cachê de 6 mil, a gente transforma num salário de mil reais durante seis meses, que pelo menos, com isso, a gente consegue garantir algum tipo de estabilidade pra que o integrante possa se programar e se garantir na companhia e ter um mínimo de organização financeira da sua vida.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Eu acho que a gente trabalha muito com criação coletiva de textos, a gente tem acho que 11 peças que a gente já montou ao longo desses anos e acho que uma só é com texto já pronto, o resto todo foi criação coletiva ou até escrito por alguém mas para a companhia, que durante um tempo a gente trabalhou com uma dramaturga, muito a partir das experiências de sala de ensaio e tal. Então, a cidade e o país estão sempre presentes nas peças, acho que de uma maneira muito forte, até porque uma das frentes de pesquisa que é a que mais consolidou o grupo é a relativa ao uso de espaços não-convencionais – o primeiro trabalho era num quarto de um apartamento, era pra oito espectadores por seção, depois a gente foi trabalhar numa boate que era uma casa, pra 30 espectadores por seção, a gente já fez peça pra um espectador, tem muito essa coisa de trabalhar com o indivíduo também, até seguindo na palestra do Lehmann de ontem, acho que a questão política, quando ela não entra no tema da peça, ela entra também na forma de a gente colocar o material em cena e com certeza também na organização do grupo, que é um coletivo em que são cinco atores e um diretor, mas não existe uma hierarquia, a questão de o diretor ser o diretor é apenas uma função, ele não manda mais do que os outros, na verdade quem acaba tendo um poder maior de decisão é o núcleo de produção que é feito por três pessoas, mas isso é recente, porque durante muitos anos era meio que todo mundo produzindo, sempre sobrando mais pra uns do que pra outros, isso também sempre gerou muita crise, mas com isso eu respondo a primeira e a segunda… Existe uma Associação de Grupos e Companhias do Rio (você dá um google tem o site e tem todas as companhias que fazem parte), durante muito tempo minha companhia foi muito ativa na Associação, mas isso é uma coisa meio… A gente dá umas revezadas, durante algum tempo alguns encabeçam mais, depois vão outros pra não sobrecarregar. A Associação foi muito inspirada no que aconteceu aqui em São Paulo do Arte contra a Barbárie, da Cooperativa, e a gente começou a tentar se reunir no Rio, a reunir a classe, e aí, enfim, criamos um documento com demandas, com como a gente achava que deveria ser um edital de cultura, que foi adotado pela gestão do Miguel Falabella na prefeitura do Rio, que foi o FAT, que é o Fundo de Amparo ao Teatro, só que aí tem mil questões, porque ele acabou que cumpriu uma parte do que foi pedido e teve outra parte que era voltada pra subvenção que até hoje não foi contemplada. E esses problema do Rio, que a cultura acaba sendo muito atropelada por outros eventos da cidade, agora a secretária de cultura atual, que é a Jandira Feghali, resolveu fazer um Viradão Cultural, pra copiar aqui o de São Paulo, só que o que a gente viu foi ela usar toda a “rapa do tacho” do dinheiro pra cultura que ainda tinha esse ano pra gastar em uma virada de 24 horas com show de música na periferia, quer dizer, nem contemplava várias linguagens, nem a cidade inteira, então é uma ação muito populista num certo sentido. Então, a Associação é onde a companhia tem tido uma entrada mais de intervenção política, mas ela também tem altos e baixos, tem épocas que tá mais ativa, tem épocas que tá mais desarticulado, que é uma questão complicada no Rio também, é difícil se articular lá. E… Acho que a nossa intervenção em relação à cidade vai muito em função disso, dos espaços em que a gente trabalha.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Olha… é curioso, porque o elemento agregador foi o diretor que é o Ivan Sugahara, ele que conhecia todos que hoje compõem a companhia, a composição atual, que é a dos últimos 8 anos, se deu em dois tempos, no primeiro momento entraram duas atrizes que foram a Ângela Câmara e Cristina Flores, e no segundo momento, pra montagem de um espetáculo específico, entramos eu, o José Karini e o Saulo Rodrigues, hoje a companhia é composta por esses cinco atores mais o diretor. E eu acho que todos, com exceção da Cristina, talvez, todos desde sempre tinham um desejo de trabalhar em companhia, eu já vinha de uma história de companhias de dança, que eu era bailarina antes, então tinha esse desejo, eu sempre acho que coletivo é mais interessante, mais rico e mais forte, apesar de mais trabalhoso, muitas vezes por um lado. A Cris era a única que no começo não tinha muito esse discurso, mas hoje ela defende também o discurso da companhia e eu acho que sempre teve um desejo muito grande de criação de uma linguagem e eu acho também que é numa certa medida um certo porto seguro em relação ao mercado de trabalho, você tem uma referência, você tem um lugar, mesmo que ele também não tenha dinheiro e não tenha estrutura, mas é um núcleo de identidade. Mas eu acho que o que sempre instigou o grupo a permanecer unido foi essa questão de a gente ter essas três frentes de pesquisa muito potentes nos trabalhos, que eram: a ocupação de espaços não-convencionais ou a busca de um uso não convencional do espaço tradicional, ou seja, uma pesquisa em relação à recepção – onde colocar o espectador e como trazê-lo pro teatro? A outra, da dramaturgia que é… Tem horas que a gente fica seco pra trabalhar um texto tradicional e ter um personagem e não uma função dramática, mas é muito rico você poder estar em processos de composição dramatúrgica, acho que pra qualquer ator isso é uma delícia também. E isso tudo também acabou gerando uma pesquisa de trabalho de ator bastante interessante, tanto por uma certa atuação mais intimista, dentro desses espaços mais reduzidos, como dentro dessa questão da dramaturgia também, de você estar trabalhando com um material que você levou, e que foi deglutido pelo processo, mas, enfim, isso também gera uma qualidade específica do trabalho – acho que é isso que une mesmo porque… Dinheiro não é.

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