Mapeamento eternamente em construção – Bate-papo com o grupo Chama Viva

Bate-Papos   |       |    3 de novembro de 2009    |    1 comentários

Chama Viva Cia de Teatro – Palmas – TO
Representante: Cícero Belém Filho

1. Financiamento: como o grupo financia seus trabalhos?

Nós temos uma trajetória de 25 anos de trabalho e o financiamento se deu ao longo desse tempo de formas diversas. Por um período nós nos financiamos com recursos próprios com atividades mantidas pelos próprios membros do grupo. Num determinado tempo nós conseguimos nos inserir de uma certa forma, aprovando projetos através da Lei Rouanet e captando recursos de algumas empresas, concorremos sempre a editais públicos e esses mecanismos, em uma certa medida, tem contribuído na continuidade de alguns projetos, mas a manutenção mesmo, o dia a dia, vem se dando a cada momento de acordo com as circunstâncias, mas depende muito do esforço coletivo e, de certo modo, um desdobramento pessoal.

2. Diálogo com o entorno: como as questões da sua região estão presentes na obra do grupo e, por outro lado, como o grupo está presente nas questões de sua região?

Veja bem, essa pergunta é importante e complexa pra eu te responder de forma objetiva. Nesse tempo todo de história nós procuramos desenvolver algo que interessasse e chegasse às pessoas da cidade onde nós moramos que é Palmas. Esse experimento é um experimento longo, eu não sei se nós encontramos uma fórmula, até porque o que nós em algum momento nos propusemos a fazer, havia uma certa dificuldade, vamos dizer assim, não diria de compreensão, mas de diálogo com a população. Então, a partir do momento que nós fomos percebendo uma vocação – não sei se o termo correto seria vocação, mas uma identificação maior das pessoas que moram em Palmas, que na grande maioria são nordestinos, são pessoas mais simples, com textos que traziam uma temática mais popular, houve uma mudança completa na relação com o público. Então hoje nós temos uma relação muito forte com o público de Palmas, é uma cidade em que a companhia se afirmou, tem um público, uma trajetória, um repertório, lota os teatros… Mas a gente vive nessa constante investigação, inquietação se o que nos fazemos interessa ao público, se a gente está falando interessa ao público e se o que possa interessar ao público interessa a nós. Às vezes o artista também quer dizer algo que pode não interessar ao público naquele momento, né? E aí entra uma séria dificuldade na questão do financiamento, na questão do que o mercado está assimilando. Enfim, a gente enfrenta esse dilema com um jogo de cintura muito grande pra dizer muitas das vezes o que a gente gostaria de dizer e pra às vezes dialogar com o público com algo que a gente não gostaria de estar dizendo. Existe uma preocupação forte com essa questão, com a estética, com a elaboração do que nós fazemos. Nós moramos num estado absolutamente novo, que é caçula do Brasil, o Estado do Tocantins. Palmas também é uma cidade que está se formando, se construindo, é um canteiro de obras. Eu creio que nós nem poderíamos querer que fosse diferente. O nosso processo – se é que existe algum processo – ele está em construção. E o Grupo Chama Viva eu acho que consegue espelhar esse processo, pelo fato de ser um grupo que começou antes de criar o Estado e que permanece até hoje com um núcleo de seis pessoas que fazem parte da história do grupo já há um longo tempo, então a gente vem acompanhando as mudanças, as transformações que estão ocorrendo não só na cidade, mas também em termos das discussões que envolvem a problemática do teatro contemporâneo.

3. Fator agregador: qual o fator agregador/ definidor/ de união do grupo?

Nós estamos talvez iniciando a superação de uma das maiores crises enfrentadas em vinte anos de existência. Decorrente mesmo da trajetória, da história do grupo, nós tivemos a experiência de ser patrocinados por um período por uma empresa através da Lei Rouanet. Esse momento nos permitiu alçar vôos, experimentar uma forma de produção que a gente ainda não tinha experimentado na região e que eu acho que a gente sonhava como todo grupo de teatro sonha com estrutura, a gente não deixa de sofrer de alguma forma a influência dos modelos de produção do Rio e de São Paulo e a gente tem uma ponte muito forte com o Rio de Janeiro. E o que acontece? A gente experimentou um modelo de produção e no dia que esse patrocínio desapareceu, a gente se viu na mão. Então, a crise está provocando uma reorganização do grupo na sua forma de produção, na sua forma de trabalhar a questão do teatro na região. A crise que nos levou foi financeira, foi de subsistência também, porque pessoas que se dedicavam exclusivamente ao grupo passaram a não ter mais essa estrutura, de certo modo isso afetou as relações, a estrutura interna, e a gente conseguiu manter o núcleo até hoje junto. O teatro conseguiu. A necessidade de fazer teatro naquela região, com as dificuldades mais diversas. Eu acho que as diferenças e dificuldades nos mantiveram unidos, claro que se confrontando diariamente. Nesse momento a gente está discutindo qual é nossa cara, qual é nosso formato de produção: será que a gente não pode ter um formato muito próprio de trabalho? Uma metodologia muito própria de produção que não precise estar espelhada em modelos que talvez não funcionem na nossa região, que é muito carente de recursos, de equipamentos, de material humano?

'1 comentário para “Mapeamento eternamente em construção – Bate-papo com o grupo Chama Viva”'
  1. jessica raiane campos silva disse:

    vcs sao uma bençao…e que deus continue capacitando dia a pois dia mais a vida de vcs …

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