Alternativo? – Sérgio Sálvia Coelho

Bate-Papos   |       |    1 de maio de 2007    |    4 comentários

Sérgio Sálvia Coelho (jornalista e crítico teatral da Folha de São Paulo)

Entrevista concedida para o especial Alternativo?

O que você define como teatro alternativo?

Olha, teatro alternativo é teatro de risco. Não tem a ver com ter pouca verba. Tem gente que tem pouco dinheiro e faz um teatro conformista, tem gente que tem muito e faz uma coisa diferente. Não é porque tem pouco dinheiro, que o artista se condena… “já que não dá pra fazer comercial, vamos fazer alternativo mesmo”. Não é isso. É uma opção de pesquisa.
É mais ou menos como protótipos da indústria automobilística, a equipe que projeta alternativas pro futuro. Então, o teatro alternativo, ao contrário do que se pensa, precisa de mais verba, mais atenção, porque mobiliza mais recursos. E, por isso mesmo, não visa ao lucro, porque o objetivo é criar alternativas para o futuro. Normalmente, quem faz teatro alternativo é apaixonado pela tentativa, muito mais do que querer fazer disso um meio de vida.

Como você vê o teatro alternativo em São Paulo? Há algum grupo, ator, movimento que você relacione com teatro alternativo?

Tem vários. Na verdade, há uma rede de teatro alternativo. O ponto mais visível, a ponta do iceberg é a Praça Roosevelt, mas está espalhado por São Paulo inteira. A primeira coisa que você vê quando um grupo ganha um prêmio, um estímulo, em geral, a primeira coisa é conseguir uma sede. A partir daí entram em contato com a comunidade do bairro pra checar propostas e ver necessidades. Hoje são vários lugares assim, entre 50 e 100 lugares, que fazem essa função. Até porque o público pro teatro é de 100 pessoas. Até 30 anos atrás, os cinemas eram pra grandes públicos, em média 500 pessoas. Hoje, as salas são para, no máximo, 200. E ninguém diz que o cinema está decadente por isso.

O contato com a comunidade está relacionado diretamente à busca pelo alternativo?
Não como pesquisa, mas como produto, pois o grande investimento é no sentido do marketing. Nos teatros comerciais você vê coisas como “Você nunca viu uma peça como essa!”. Enquanto no teatro feito num bairro, pra 50 pessoas, você se condena a querer saber o que interessa ao público. Funciona quase como um posto de saúde cultural. Não é venda de produto pronto, é um diálogo, uma construção comum, o que eu tenho pra oferecer e qual é a demanda.

Não é complicado usar o termo alternativo na mídia?

Acho que não, por causa do trabalho que vem sendo feito. O Cemitério de Automóveis tem 25 anos, os Satyros estão na praça há mais de dez, então acaba criando uma grife. Às vezes tem grupos ruins que usam a grife e prejudicam a imagem.

E quanto aos jornalistas? Acontece um mal uso do termo?

É usado, muitas vezes, de forma paternalista. Você tolera mais defeitos porque é alternativo… Penso no Felipe Hirsch, que se faz valer do Gerald Thomas. Quando o Gerald fez, ninguém sabia o que era, não tinha apoio nenhum, então ele criou o modo de fazer e hoje o Felipe tem apoio pra reproduzir o que foi feito naquela época, há mais de vinte anos.

Então, alternativo foi o que o Gerald Thomas fez pensando num futuro e está sendo repetido agora, neste futuro?

É.

'4 comentários para “Alternativo? – Sérgio Sálvia Coelho”'
  1. sergio salvia disse:

    Um ano hoje. Mudou?

  2. sergio coelho disse:

    Mais de dois anos hoje. Já não sou crítico, sou quase diretor. Buscando nome para meu grupo, dou de cara com esse texto que quase esqueci.

  3. sergio coelho disse:

    Ops. Mais de dois anos não, porque este blog colonizado marca os dias ao contrário, como os americanos. Melhor assim. Vamos ver em maio que bicho deu.

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