Amores Surdos

Críticas   |       |    15 de janeiro de 2008    |    11 comentários

Sapateando na lama familiar

Foto: João Marcos Rosa

Gustavo Bones, Grace Passô e Paulo Azevedo em Amores Surdos

Sesc Avenida Paulista, nata cult paulistana em peso, coquetel com vista para o mundo. (Vista para o mundo é aquele tipo de vista que você não sabe exatamente onde termina. Ali, na Comedoria do Sesc é mais ou menos isso. Você olha pro horizonte e está vendo prédios e depois prédios e depois mais prédios. E a vista não acaba ou acaba gradativamente.) Deixo de lado meus comentários sobre o prosecco, pra falar sobre essa tal de vista pro mundo. Quando o teatro consegue enxergar o mundo e espelhá-lo, não por meio da Comedoria do Sesc, alguma coisa especial acontece – talvez uma espécie de expansão de significados. Pode ser um recorte, um pedacinho, uma janela, mas com vista para o mundo – e isso é tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo quanto pode parecer à primeira leitura.

Em Amores Surdos, o grupo Espanca! (o mesmo de Por Elise) consegue espelhar o mundo pelo viés do simples. O simples fala do complexo, mostra todas as contradições e conflitos que enriquecem o complexo, mas não complica, não busca desesperadamente o novo, só expõe com sinceridade. Tudo começa pela idéia de que “todas as histórias do mundo já foram contadas”. O que para alguns poderia ser motivo para ter depressão, cometer suicídio ou trocar o teatro pela advocacia; para eles é consciência que leva adiante, que leva à busca por modos mais radicais de criar, que leva a contar histórias que já foram contadas – mas que nunca haviam sido contadas assim. Nunca com tanto sapateado e tanta lama.

Se a idéia é falar em histórias cotidianas, não pode haver objeto melhor do que a família. É daí que a peça parte – de onde todos, em última análise, partimos e de onde trazemos muito de nós. Fique claro que não estamos falando em sentimentalismo, nem de uma ode à família burguesa. Pelo contrário, Amores Surdos critica com sutileza o tipo de sentimento e de cotidiano que se constrói neste âmbito e o quanto é difícil nos desvincularmos dele.

A história de uma família normal, onde tudo é normal (de encaixado na norma, mesmo) e parece funcionar perfeitamente, começa a surpreender quando, por meio de objetos carregados de simbologias, mostra que a incondicionalidade do amor interfere como um ruído fortíssimo na comunicação e no crescimento dos familiares. E então, num ambiente quentinho e confortável, as pessoas se acomodam e vão ficando, ficando, ficando… num estado dormente, imobilizados, surdos.

Este estado de fuga pode durar por muito tempo, mas, em algum momento, as transformações da vida (como aprender a calçar sapatos de gente grande) e as crises precisam ser encaradas. Então, cada um a seu modo, é obrigado a lidar com a lama acumulada em algum quartinho esquecido. Pra sorte dos atores, lama faz bem pra pele.

Marcelo Castro em Amores Surdos

5 hipopótamos incomodam muita gente…

PS: Difícil mesmo deve ser praticar sapateado com tanta lama pelo chão. Pior ainda foi a asituação do ator Paulo Azevedo, que interpreta o irmão caçula. Em dado momento, ele realiza um número de dança no escuro cheio de significados, que, no entanto, se perdeu por culpa da ansiedade da platéia em aplaudir o espetáculo logo e correr pro prosecco.

PS.2: No Overmundo, texto de Sérgio Rosa com informações que não estão aqui. Na minha opinião, uma crítica bem escrita e sensível.

'11 comentários para “Amores Surdos”'
  1. Luciana Romagnolli disse:

    Oi Juli. Esta é uma peça de que gosto muito, vi duas vezes aqui em Curitiba, com algumas modificações de uma para a outra. Diz algo de que a família é aquela poeira que gruda nos nossos cantos e não sai mais… pra não falar do hipopótamo, genial.
    Vc viu Por Elise tb? Eu discordo da maioria (com quem conversei sobre as duas) e prefiro esta aqui.
    O Festival de Curitiba será de 20 a 30 de março. Venha!
    Beijos

  2. l. disse:

    Acabei de assistir e, se Bárbara Heliodora eu fosse, diria que alguns atores têm um tom um pouco melodramático que compromete a sutileza do espetáculo. Se Sérgio Coelho eu fosse, diria que Grace Passô continua surpreendendo (como a adorada e idolatrada Por Elise) com uma dramaturgia simples e poética. Se Maurício Alcântara eu fosse, seria inevitável fazer uma piada com a cafonice da música do Wisnik enquanto os atores mergulham na “lama do hipopótamo”. Mas… como anônimo covarde que sou, digo: gostei muito do espetáculo: achei divertido e tocante, surpreendente e simples, metafórico e metonímico (que cafona esse comentário, mas…!). Não achei os atores excelentes, mas Grace Passô como atriz e dramaturga, teria minhas quatro estrelinhas douradas, se professor da terceira série eu fosse.
    Quatro estrelas do tamanho de um hipopótamo.

  3. Maurício Alcântara disse:

    Poxa, que injustiça do nosso amigo Anônimo! Eu achei a trilha sonora boa pra caramba!

    Uma das melhores peças que vi recentemente.

  4. […] Movimentos, Belo Horizonte – Com texto de Samuel Beckett e direção de Rita Clemente, a mesma de Amores Surdos, a peça é um monólogo de Winnie (Rita Clemente), uma mulher enterrada no chão. O espectador […]

  5. […] quem não lembra, é o povo do Lesados, que vai estrear uma nova peça aqui no Festival Nacional – isso não costuma dar muito certo, mas vamos […]

  6. […] Internacional do medo, de difícil digestão, após dois sucessos catárticos como Por Elize e Amores Surdos. Fiquei com vontade então da Grace falar mais sobre essa busca desse lugar não tão confortável […]

  7. […] No fim das contas, até tentei escrever uma segunda crítica para Amores Surdos, mas assim como “todas as histórias do mundo já foram contadas”, boa parte das observações que eu faria para o espetáculo a sapeca da Juli já havia feito em sua crítica. […]

  8. Alexandre Costa disse:

    boa tarde !!!! Gostaria de parabenizar este Blog e de ajudar aos deficientes auditivos e surdos que tenham acesso a ele . Antes de mais nada existe um conflito JURÍDICO DE NORMAS entre a Lei nº 7.853/89 , que foi regulamentada pelo Decreto nº 3.298/99 . O art. 4º , II , e alíneas , descrevem e tipificam quais os tipos de deficiências auditivas . Ocorre que , o Decreto nº 5.296/04 , em seu art.5º,§1º,I,”b” , revogou o art.4º do decreto anterior , classificando os deficientes como perda bilateral , parcial ou total com no mínimo 41 dB ou mais nos dois ouvidos . Isso foi uma aberração não só jurídica como médica . Um deficiente no Exterior , é o mesmo que temos aqui no Brasil . Como pode por exemplo na Europa e nos Estados Unidos , um DEFICIENTE AUDITIVO UNILATERAL ser considerado deficiente e aqui no Brasil não ser ? A área de saúde , não pode ser considerada como a área jurídica . O que é ilegal aqui , não é ilegal lá e vice – versa . Não se trata de costumes e tradições ou interpretações , se trata de problema físico , de ciência e isso é mundial . O que ocorreu , foi uma aplicação distorcida com intuito POLÍTICO – ECONÔMICO , para amenizar os cofres públicos dos gastos com os deficientes . Existem no Brasil , aproximadamente , 05 (cinco) milhões de DEFICIENTES AUDITIVOS de todos os níveis (unilateral – bilateral – surdo) e desta quantidade toda , 68 % são DEFICIENTES UNILATERAIS , ou seja , 3.400.000 (três milhões e quatrocentos mil) . Equivalente quase a um país de porte médio da Europa . Por isso , que o Governo Federal , mudou a legislação . Estima-se que daqui a 15 e 20 anos , esse número suba para 18 milhões de pessoas , devido os altos ruídos . Com essa mudança , aos que já possuíam a deficiência antes da revogação da lei , foram extirpados , ou seja , tiveram os seus direitos adquiridos violados . O art.5º , XXXVI da CRFB c/c art.6º , § 2º da LICC , garantem o DIREITO ADQUIRIDO . Violaram o Princípio da Irretrotividade das Leis . Os deficientes auditivos unilaterais e os deficientes auditivos bilaterais , tinham os mesmos direitos , logo havia Isonomia . Com a revogação , feriram o Princípio da Isonomia Constitucional , art. 5º , caput da CRFB . A deficiência auditiva é uma questão de Direitos Humanos , no qual o Brasil é signatário . Com isto feriram o PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA , art. 1º , III da CRFB / 88 . O mais engraçado , é que o Decreto anterior , não foi totalmente revogado e sim alguns artigos . Portanto , cabe ressaltar que , o art. 3º , I,II,III do Decreto nº 3.298/99 , entra em conflito com o art. 5º,§1º,I,”b” , do Decreto nº 5.296/04 . Pois é totalmente ao contrário e se chocam . Ambos estão em vigor . Isso é explicado , pois , existem duas leis de 2000 . A Lei nº 10.048/00 e Lei nº 10.098/00 . Estavam na gaveta , pois tinha apenas 01 ano que foi aprovado o decreto revogado conforme supracitado . Com a Resolução nº 17 / 2003 do CONADE , art.2º , que considera não sendo deficientes , os DEFICIENTES AUDITIVOS UNILATERAIS , só estimulou o congresso Nacional a tirarem da gaveta e aprovarem a lei . Sem nenhuma análise técnica – jurídica e muito menos médica . Por isso que o STJ ( Superior Tribunal de Justiça ) DEFERIU através de MANDADO DE SEGURANÇA , uma DEFICIENTES AUDITIVA UNILATERAL , em concurso que fora aprovada . Alegando ser o CONADE com sua resolução , INFRACONSTITUCIONAL e não pode sobrepor a Constituição Federal e Leis Federais . Espero ter ajudado e quem quiser mais explicações , envie e-mail para [email protected]
    Pretendo somar a este blog para ser parceiro . A finalidade é ajudar

  9. Alexandre Costa disse:

    o que eu vou falar é muito sério … O Projeto de Lei nº 7669 /2006 , previa a inclusão dos DEFICIENTES AUDITIVOS UNILATERAIS . Mas , infelizmente , a pedido de um Deputado Federal que sustentou que os DEFICIENTES AUDITIVOS UNILATERAIS , não são deficientes e conseguiu NOS EXCLUIRMOS da possibilidade que tínhamos de voltarmos a ser tutelados pelo Estado . Enviei ofício para a Câmara dos Deputados e solicitei uma AUDIÊNCIA PÚBLICA no Congresso Nacional e que incluíssem novamente os DEFICIENTES AUDITIVOS UNILATERAIS . A Comissão já está praticamente encerrada , as leis ajustadas , e será enviada para o PLENÁRIO , aonde será votada . Segundo levantamento , será APROVADA .
    Darei o endereço dos 02 (dois) deputados que precisam encaminhar as reivindicações :
    Deputado Federal : JAIR BOSSONARO
    Gabinete 482 – Anexo III Câmara dos Deputados
    Praça dos Três Poderes
    Brasília – DF
    CEP: 70160-900
    Fax 61) 3215-2482
    Telefone:(61) 3215-5482
    Pessoal Reivindiquem , cobrem , mandem cartas , ainda é tempo de nos incluírem do Projeto de Lei nº 7669 /2006 . Depois que for para o Plenário e virar Lei , será tarde demais . Uma carta registrada com (AR) custa nos CORREIOS R$ 6,50 (seis reais e cinqüenta centavos). Não será gasto , será investimento , por uma causa nobre . É o nosso futuro , os nossos direitos que estão em jogo . Quem puder e preferir mande um fax , quem puder fazer os dois , ótimo . Mas se movimentem . Pessoal , isso é muito sério !!!
    Outro deputado que enviarei o endereço e telefone :
    Deputado Federal : MIRO TEIXEIRA
    Gabinete 270 – Anexo III Câmara dos Deputados
    Praça dos Três Poderes
    Brasília – DF
    CEP: 70160-900
    Fax:(61) 3215-2270
    Telefone:(61) 3215-5270
    Deputado Federal : CELSO RUSSOMANNO
    Gabinete 756 – Anexo IV Câmara dos Deputados
    Praça dos Três Poderes
    Brasília – DF
    CEP: 70160-900
    Fax:(61) 3215-2756
    Telefone:(61) 3215-5756
    Fortaleçam o que eu pedi . Uma audiência pública , para o Congresso Nacional , discutir a DEFICIÊNCIA AUDITIVA UNILATERAL e incluir no projeto de lei e Decreto nº 5.296/04 , nos dando os mesmos direitos .
    O meu e-mail é : [email protected]
    Eu enviei para todos os 03 (três) deputados . Atualmente , são os mais sérios do Congresso Nacional .

  10. eu luis adão alves castilho deficiente da auditiva da surdez h90 bilateral neurossensorial,quero perguntar para nosso super amigo alexandre costa,que lutou e ergueu á bandeira dos deficiente da auditiva,lutando á favor do nosso direitos de deficiéncia auditiva.e á lei e decreto n 5.296 04 foi aprovado,sim ou não pelos 3 deputados federais,srs jair bossonaro,miro teixeira e celso russomanno.alexandre costa mande á resposta para nós aqui em guarapuava paraná.se aprovou á lei que voce alexandre sitou no site em 2008.nós deficientes daqui estamos contente com voce alexandre costa,voce é um héroi na defesa dos deficientes auditiva da surdez.nosso e-mail é [email protected]-cidade de guarapuava paraná brasil.

  11. eu william ryan,da cidade de guarapuava paraná,deficiente auditiva conduta,quero agradecer o nosso amigo do coração alexandre costa,que defendeu os direitos nossos de deficiéncia de auditiva da surdez,á se aposentar de nossos direitos que temos por lei.hoje que eu e meu pai vimos o site do alexandre costa escritos no site.desculpa alexandre costa de nós não poder ter visto antes esse seu pronuciamento teu.se nós tivese visto antes esse pronuciamento teu,nós daqui teriamos te ajudados dar mais forças para voce no congresso do senado.mais valeu amigo lute por nós deficiente auditiva da surdez.obrigado amigo alexandre costa.

O que você acha?

A Bacante é Creative Commons. Alguns direitos reservados. Movida a Wordpress.