Cinema

Críticas   |       |    11 de maio de 2010    |    1 comentários

Assistindo quem assiste quem assiste quem assiste

Foto: SESI-SP

A Sutil Companhia de Teatro é uma daquelas que sempre estiveram em minha lista pessoal de favoritas por diversas razões, algumas estritamente pessoais (foi um espetáculo deles – Nostalgia – que me despertou um interesse, ainda na adolescência, por conhecer e acompanhar um teatro que não seja necessariamente comédia ou estrelado por gente famosa – que era o que eu até então conhecia, das várias vezes que fui ao teatro seguindo indicações e critérios bem questionáveis, tipo seguir a lista dos melhores da Veja São Paulo ou acompanhar amigos que seguiam a mesma lista).

Outras razões que mantiveram meu gosto pela companhia ao longo do tempo têm a ver com a estética de seus trabalhos, buscando intersecções entre a dramaturgia contemporânea, o universo da cultura pop e uma pesquisa de registros visuais, musicais e teatrais que amarrassem esses elementos. Ao mesmo tempo, buscavam um diálogo com a platéia – que, ao menos junto ao público do Teatro Popular do SESI, onde mais os vi em cena, acontecia por meio de uma identificação deste público com os códigos estabelecidos pelos espetáculos e os estranhamentos gerados por eles, criando um registro cênico que aos poucos foi se consolidando como uma marca da Sutil. Aquela aura sombria, aqueles personagens que parecem estar sempre deslocados do tempo e lugar a que pertencem, os cenários de Daniela Thomas cobertos por uma iluminação desenhada minuciosamente para peças que parecem ter sido dirigidas com uma trena na mão, as trilhas sonoras escolhidas e inseridas na cena com precisão cirúrgica* – tipo com bisturi mesmo, mas sem deixar cicatriz nem nada torto.

No entanto, foi com muito receio que fui assistir à estreia de Cinema, a nova produção da companhia, no mesmo teatro onde os vi pela primeira vez há dez anos (e que já é praticamente a residência deles em São Paulo). Dez anos é muita coisa. É tempo pra uma companhia sofrer uma baita transformação em sua pesquisa estética, é tempo para um adolescente que só conhecia teatrão se interessar por teatro ao ponto de participar de um coletivo maluco de crítica na internet, é tempo para um teatro que só tinha sessões gratuitas começar a cobrar ingressos aos fins de semana como estratégia para driblar o problema das filas imensas que se formavam com a demanda cada vez mais crescente por teatro… gratuito.

Meu receio tinha muito a ver com as últimas produções que assisti (sobretudo a peça de câmara Não Sobre o Amor, dirigida por Felipe Hirsch e com um dos cenários de Daniela Thomas que mais me impressionaram; e o filme Insolação, dirigido por ambos – duas das pessoas responsáveis pela estética do trabalho da companhia). Nestas obras, radicalizava-se o apelo por um deleite visual, por um deslumbramento poético pelas imagens e pelas falas das personagens, que se embrenhavam em não-narrativas sobre o amor. Mais do que ter achado ambas chaaaatas (o que, no fundo, é problema meu e percepção minha), elas me se afastam radicalmente daquilo que mais me atraía em Avenida Dropsie, minha obra preferida da companhia.

Explico: na adaptação megalomaníaca das graphic novels geniais (sim, é um adjetivo, o que muitas vezes esvazia-se de significado, mas na minha opinião é a melhor classificação possível nesse caso) de Will Eisner para o palco, recriando o universo suburbano do Bronx (Nova York) onde o quadrinista judeu cresceu, a Sutil Companhia fazia mais do que contar algumas dezenas de histórias individuais: revelava de forma divertida e envolvente a trajetória de uma cidade partindo do ponto de vista das pessoas que moram nela, num tratado sobre aglomerações urbanas fundamentado na multiplicidade de desconhecidos que se relacionam diariamente – construindo assim um estudo sensível e estilizado sobre a vida nas grandes cidades do mundo (ainda que deixando de fora um dos aspectos mais críticos e reveladores da obra de Eisner, que é o movimento cíclico de valorização e desvalorização imobiliária). Efeito similar (ainda que menos potente) era percebido em Educação Sentimental do Vampiro, em que diversas histórias, desconexas, amarravam-se para construir, juntas, uma imagem da tenebrosa e melancólica população curitibana conforme observada e recriada pelo escritor-vampiro Dalton Trevisan.

Não Sobre o Amor ou Insolação apontam para o lado oposto, das personagens imersas não em sua relação com uma coletividade, mas única e somente em seus corações, sentimentos e intelectos individuais. É escasso o quanto nestas obras o indivíduo revela o mundo onde vive, ou é revelado por ele – e para mim (sim, escrevo de uma perspectiva absolutamente pessoal) soa como um desperdício de potência falar do indivíduo sem enxergar como ele se desdobra no coletivo (da mesma forma como também pode ser igualmente pouco potente fazer o contrário, pensar em coletividade sem considerar que esta é composta por indivíduos singulares).

Contexto desenhado, finalmente chegamos a Cinema, que, aliás, teve sua origem justamente em uma das cenas de Educação Sentimental do Vampiro. Uma plateia de cinema voltada de frente para uma plateia de teatro, (esta, lotada, na estreia) já sugere que o que veremos é, em alguma medida, um reflexo, um espelhamento. Segue um desfile de personagens e situações, realistas ou insólitas, que ocorrem no limite entre o que é o âmbito público (o cinema é um espaço de uso coletivo) e o privado (as pessoas são anônimas e estão protegidas pela quase invisibilidade proporcionada pelo escuro e pelo fato de todos estarem olhando para a frente, muitas vezes consumindo individualmente aquilo que assistem). A espacialidade da sala de cinema faz pensar na espacialidade da sala de teatro com palco italiano, na postura do espectador, na idéia de que, de frente para aquela suposta projeção ou para aqueles atores em cena estão pessoas que estão ali dentro, olhando para aquela imagem, por algum motivo, buscando alguma coisa. Cinema é simplesmente isso (ou é tudo isso, dependendo da perspectiva): um único e prolongado exercício de observação.

Apesar das ações, trocas de luz e de personagens serem rápidas, o tempo do espetáculo é lento, numa simulação do tempo real do assistir quem assiste, do observar, quase que às escondidas, pessoas que não sabem que são observadas (ou que em determinado momento, convertem-se na plateia e assistem ao público, numa ideia que, desculpa, não foi “inventada” pelo Felipe Hirsch, mas também duvido que tenha sido “inventada” pelo Gerald Thomas). Como o tempo é lento e não há exatamente uma narrativa traçada, os personagens, aos poucos, vão assumindo o papel de atrações de um estranho balé regrado, organizado, ensaiado, de movimentos, palavras, pensamentos e ações. E são muitas as figuras (não sei se cabe atribuir a elas o nome de personagens) que desfilam, quebrando o tédio com pequenas rupturas lógicas e inesperadas – algumas divertidas, outras com cara de piada de pai” (manja o “é pavê ou pa comê?”) – e que não promovem algo além disso.

Saio do teatro pensando em como essa experiência poderia ser potencializada, brincar de forma menos cansativa e talvez mais provocativa com as sensações propostas de assistir e ser assistido. Não, não é uma sugestão do tipo “a companhia poderia ter feito assim”, mas apenas um exercício de imaginar as sensações provocadas pela peça potencializadas pelo caos da multiplicidade e da imprevisibilidade que os movimentos coreografados, marcados, ensaiados e adequadamente iluminados sugerem em cena.

Em minha imaginação, a experiência assume a forma de uma instalação/performance, com aquela plateia de frente para a outra plateia em um outro espaço que não seja um teatro com ingresso e horário certo para entrar, de preferência algum lugar com circulação de pessoas, onde potencialmente encontraríamos figuras tão estranhas quanto os personagens, só que reais, ocupando as cadeiras que quisessem, do lado que quisessem, e observando o outro lado por quanto tempo quisessem. Atores e público se misturariam em ambos os lados (talvez os atores se revezassem ao longo de um dia inteiro, como no Trem Fantasma de Christoph Schlingensief), tornando difícil decifrar o que é ensaiado, o que é espontâneo, o que é ator e o que é público participando da performance. Durando um dia inteiro e não um período definido, faria sentido que as ações fossem lentas, arrastadas, levando o tempo que fosse necessário, seguindo o fluxo de tempo natural e infinito da experiência de assistir ao outro lado.

Acho que eu toparia assistir isso por horas. Mas ainda assim, seria um outro exercício, tão formal quanto o espetáculo Cinema, igualmente carente de algum ponto de partida temático que extrapolasse a forma pura e simples.

1 enorme vontade de pular nas poltronas e brincar de esconde-esconde

A peça foi assistida na sexta-feira, 26/3, noite de estreia, no Teatro Popular do SESI, gratuitamente.


*Como provocação de brinde, pra pensar, cabe aqui um comentário de Astier Basílio, surgido durante a revisão coletiva desta crítica: “Em certo sentido, o cirúrgico, fora do contexto médico é utilizado como algo limpo, algo que exclua contexto, daí sua precisão, daí focar-se em algo específico. Não deixar a cicatriz é não se sujar e se sujar é envolver-se no contexto, muitas vezes.”

E já que é pra entrar na pluralidade da revisão coletiva, vale fechar com a lembrança de Emilliano Freitas de uma das instalações da 26a Bienal de São Paulo; Cinema, de Sergey Shekhovtsov:

Do programa:

“Cinema” is the title of one of the works that most strikes visitors to the very recent exhibition devoted to Russian Pop Art at the prestigious Tretyakov Gallery in Moscow. It is an installation measuring the same as a good-sized room, with nine monochrome, life-size figures sitting in the dark in front of an (imaginary) screen. What is seen by the Shekhotsov’s spectators – made of the material that earned the Artist the nickname of “Porolon”, i.e. foam rubber – is not images from fiction but from real life passing in front of the empty pupils of their eyes in the form of the exhibition visitors. Like Porolon’s other works, the installation means to provide food for thought and to be provocative: unlike the “serious” themes and “noble” materials of official art in the past régime, today a lightweight and short-lived material such as foam rubber is used to “immortalise” everyday actions, especially leisure activities, from the “n ew” consumer life of the Russians, or of the class that can afford, for example, to buy a dvd player, buy imported luxury goods or go to the cinema.

'1 comentário para “Cinema”'
  1. Marcelo disse:

    achei muito chato…poderia ter sido tao legal…
    tem tudo né…e ao mesmo tempo nao tem nada…
    to cansadi de peça chata

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