Happy Days

Críticas   |    and    |    9 de março de 2011    |    3 comentários

Assunto: Dias Felizes

De: Astier Basílio
Para: Maurício Alcântara
Data: Quarta, 12 de Janeiro de 2011, 18h59

Sabe o que eu pensei, Mau?
Pensei num filme que eu não vi, mas cujo sinopse eu conheço: Fahrenheit 451, de Truffaut.
É uma adaptação de um romance de Ficção Científica, escrito por Ray Bradbury.
No futuro, livros serão queimados (o título alude a isso: é a medida em que o papel entra em combustão),
então se organizam grupos que tem o objetivo de memorizar obras primas,
para que elas não caiam no esquecimento.
Fiquei pensando nisso em relação ao teatro.
Nós, que amamos o teatro, já fazemos isso.
Somos, por nossas próprias memórias, participantes deste mutirão contra o esquecimento

de cenas, de trechos, de instantes, de fragmentos que só um expectador pode
salvar do fogo cruel do esquecimento.
É isso que mais me fascina no teatro. A de que a crítica também é um exercício de testemunho;
a de que cada geração, obrigatoriamente, compõe o seu repertório e não tem como ter
acesso ao de gerações passadas, simplesmente porque, mais do que as outras artes,
teatro é esse instantâneo cujas cores, contornos e texturas do retrato são feitos
de um jogo entre encenador, dramaturgo, e mais equipe de produção,
com a plateia.
Você sabe o quanto eu devo já ter citado Borges pra você.
Borges é um escritor repetitivo. Acho que, de alguma forma, ao menos quando falo
dele me sinto como partilhando desse vício também.
Já disse aqui uma frase dele de que gosto muito, proferida em uma das suas palestras
que compõem o livro “Sete Noites”, é quando Borges fala sobre leitura.

Ele fala, citando outra obsessão sua, o rio de Heráclito, ao qual ninguém o atravessa duas vezes,
pois, na segunda travessia já serão outros o caminhante e o curso daquelas águas, então,
ele diz que a leitura é esse rio de Heráclito e que até a memória de uma leitura já é outra.

Memória. Recordação. Uma vez soube que o significado de recordar é ‘trazer de novo ao coração”.
E, se me fosse dada a missão de salvar “Dias Felizes” do esquecimento, passado, creio, alguns meses de sua apresentação,
naquele longuínquo, malfadado e esquecido Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte?

Sabe que aqueles instantes em que ficamos mergulhados no escuro, à espera da cena inicial;
aquele barul ho ao longe, aos poucos, aquele matraquear que lembrava trem, mas cuja cadência comprimia e dilatava

o espaço e o tempo; aquele frenesi, me lembro que senti como se o próprio teatro respirasse, falo teatro querendo
dar a entender a mim próprio, os meus colegas, a cegueira de que partilhávamos, que culminou com um barulho
de desastre, de acidente e quando as luzes nos esbofeteiam com a realidade, com
o puxar de tapete, eis que vemos aquela atriz, Adriana Asti, enterrada,
como se ela, no invísivel daquele tempo todo, viesse conosco, e que ali, no topo daquela montanha,
daquela montanha de destroços que em forma de pirâmide no palco, ao mesmo tempo nos dava, ao menos a mim,
a sensação do quão pequena ela era, e do quão grande ela era também.
Lembro de conversamos no dia seguinte no hotel, aquele cinco estrelas
que me será para sempre salvaguarda de como me comportar em qualquer festival daqui pra frente,
lembro de que falamos sobre a chatice, porque sinônimo de perfeição de Bob Wilson,

mas lembro de falarmos ao mesmo tempo como texto e cena travavam também um duelo,
uma travessia, ali.
Lembro de que você falou algo sobre o personagem masculino,
mas a minha memória começa a pegar fogo, talvez seja o momento de você conduzir a tocha
e seguir adiante, vendo se salvamos algo deste espetáculo
que é deixar a peça contracenar conosco,
sobreviver à rotina.

=====

Fotos: tiradas do site do Change Pergforming Arts.

De: Maurício Alcântara
Para: Astier Basílio
Data: Terça, 25 de janeiro de 2011, 22h56

Astier,

Vi Fahrenheit, é um filmão. Se quiser, arrumamos um jeito de eu te mandar o DVD – ou então você pega comigo quando vier a São Paulo. É, sim, uma ótima metáfora pra se pensar num possível papel da crítica, essa de manter a obra viva de acordo com a memória de quem a viu. Ou ainda parte dela, uma vez que a memória é um ótimo campo pra gente se perder, inventar coisas, aumentar ou diminuir o que merece e o que não merece.
De qualquer forma, aceito seu desafio de resgatar aquele espetáculo em nossas memórias, nos tornarmos os homens-peça daquela montagem (assim como no filme do Truffaut os responsáveis pela memória dos livros eram considerados os homens-livro).
Nesse registro, faria sentido que a crítica que viesse desse papo fosse assinada por Dias Felizes e Dias Felizes, uma vez que no filme os nomes das pessoas era substituído pelos livros que elas trazem consigo.
Enfim, façamos nosso exercício de testemunho dessa montagem que esteve apenas em 2 cidades brasileiras, e que nenhuma delas foi São Paulo ou Rio de Janeiro – onde normalmente costuma embarcar esse tipo de produção.

Lembro de três coisas que me marcaram muito nessa peça. A primeira é essa cena que você descreve, da abertura, antes mesmo da aparição da personagem que falaria pelo espetáculo inteiro. Abre-se o palco e há uma cortina, branca, leve, esticada e tremulando suavemente – vem um som de ventania, o vento vai sacudindo, sacudindo, o som vai ficando cada vez mais alto, a cortina já se parece com uma bandeira (mas não vemos nada atrás). O barulho que no começo era vento vira algo muito, muito, muito alto, um ruído incômodo e intenso que, de repente, cessa, some a cortina branca e acende-se a luz que revela a personagem e sua imensa imobilidade. Essa cena me lembra um depoimento que vi de Bob Wilson, não sei se no documentário ou se no livro que tenho sobre seu trabalho, que ele rejeita o formato de boa parte de seus “vanguardistas contemporâneos” para sua obra porque, ao contrário dos Living Theaters da vida, ele faz questão do palco italiano, da caixa cênica, das paredes que emolduram sua obra, que definem seus limites – e fazem com que ela se aproxime muito de uma peça de design, de um a fotografia ou de uma pintura.

Então caímos no segundo ponto em minha memória, que é o que mais me fascina no trabalho de Bob Wilson, que é a aproximação de seu teatro com o design gráfico, a construção de imagens que já são surpreendentes por si só, para além de qualquer sentido político ou razão de existir. Aquela luz azul (ou verde, ou vermelha, ou branca) que está viva, brilhante, participando da cena por trás da personagem definem demais o impacto que aquilo tem comigo. E às vezes fico puto comigo mesmo, pois penso no quanto pode ser fútil gostar de uma imagem pela imagem, mas também me questiono o quanto isso já não me fascina em muitas outras áreas. Quantas fotografias não admiro pelo apuro visual que elas trazem para além de qualquer outra coisa, ou ainda quantos filmes ruins eu já não vi mais de uma vez porque os estímulos visuais que eles traziam eram muito inspiradores para muita coisa. Talvez por isso eu goste tanto de design (e já tenha trabalhado com isso em um ou outro projeto). Por isso ainda que eu ache iluminação, figurino, cenografia, fotografia de cena algo tão fascinante – mais do que materializações e registros de um conceito do espetáculo, muitas vezes também me encantam pelas formas, cores, intensidades, texturas, sobreposições. Aquele espetáculo, assim como (mas em menos intensidade) em Quartett, me desperta um interesse dificílimo de explicar. Penso se esse estímulo visual fortíssimo não seria muito melhor se estivesse amarrado a algum conceito que lhe desse algum sentido. Em seguida, penso se já não tem conceito o suficiente sendo assim. Não sei, é confuso porque me faz pensar em muitas outras coisas com que já me envolvi e ainda me envolvo, totalmente off-teatro.

E isso leva ao terceiro ponto do que ficou daquela montagem em mim, que é a imobilidade não apenas que acomete a protagonista, mas o próprio Bob Wilson em seu teatro formal, perfeccionista, sem medo de ser chato por ser tão rígido. Acho que isso foi um comentário da Julie, logo depois da peça, que chegamos a comentar depois no café da manhã (ou foi no almoço?). Em grande medida, Happy Days é muito parecido com Quartett que deve ser muito parecido com várias outras coisas dele, inclusive com obras que estavam expostas no SESC Pinheiros há alguns anos – os vídeo-retratos em alta definição que me deixaram hipnotizado por alguns bons minutos em uma hora de almoço de um dia da semana qualquer. Wilson tem um papel foda na história do teatro do século XX, mas inventou um jeito de ser Bob Wilson que hoje virou grife, tornou-se uma bela e imponente estátua, venerada e respeitada, mas imóvel. Em grande medida, era ele que estava lá naquele palco de concreto, luz, som e fúria, enterrado até o pescoço pela forma que ele criou para seu teatro. E como isso tudo tem a ver com essa peça e com aquela personagem, meu deus!! Certa vez li, em algum lugar, Gerald Thomas dizendo que se sentia prisioneiro do formato que ele mesmo inventou, do palco todo escuro, cheio de fumaça e com narração em off. No caso de Wilson, me parece muito isso. Pode ser leviano fazer esse julgamento pelo pouco contato que tive com sua obra (dois espetáculos, uma exposição, uma palestra dele, mais registros diversos – documentário, livros, vídeos, entrevistas) – mas é inevitável fazer essa leitura. Principalmente porque entrei naquele Paço das Artes imaginando o que eu iria ver. E vi o que esperava. E mesmo não me surpreendendo, gostei demais.

Enfim, aos poucos vão voltando mais memórias. Não consigo me lembrar do que eu poderia ter comentado sobre o Willy, o personagem masculino. Não faço a menor ideia. Prossigamos com esse papo, e vemos se conseguimos dar um pouco mais de vida a esse espetáculo no teatrão falido da nossa memória… hehehe.
Abraço,
Mau

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De: Maurício Alcântara
Para: Astier Basílio
Data: Terça, 25 de janeiro de 2011, 23h05

Sabe duma coisa? No meio do último processo de ensaio de que participei, tinha uma frase que um ator que gostava muito de pesquisar vídeo sempre dizia. Eu achava que essa frase era dele, daí outro dia vi o Melamed dizendo essa mesma frase nalgum lugar. A frase era “a memória é uma ilha de edição”. Há muito material bruto que se corta pra separar o que interessa. Quanto material bruto nós descartamos nesses quatro meses entre essa peça e essa troca de e-mails, uma porrada de coisas que já foi pro lixo faz tempo, gravamos por cima, mofou a fita ou simplesmente não sabemos mais onde está. Certeza de que quando menos esperarmos, uma ou outra recordação vai aparecer, a hora errada, quando estivermos procurando qualquer outra coisa ou quando estivermos fazendo alguma faxina. Mas o material pré-selecionado, filtrado de uma edição preliminar, acho que aparece nesse papo. Talvez seja o que interesse, talvez seja insuficiente. Não sei se os homens-livro do Truffaut serviriam de alguma coisa se lembrassem só do resumo, dos principais personagens e acontecimentos. Enfim…

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De: Astier Basílio
Para: Maurício Alcântara
Data: Quarta, 26 de Janeiro de 2011, 0h02

Mau,
ou melhor,
“Dias Felizes 1”,

“A memória é uma ilha de edição”
é um verso de um poema de Wally Salomão, que o Melamed citava muito no programa.
Eu tenho o livro inclusive, “lábia”, procurei aqui nesse labirinto de títulos
e desordem que é minha biblioteca e não o achei.
Queria citar o poema todo.
Só sei decorado este verso.
Lembro que li o poema todo e de que gostei.

A sua metáfora da estátua é muito boa.
As estátuas são monumentos.
Os monumentos nos lembram que nós morremos.
Pra nos lembrar que somos precários e finitos.
A uma estátua se contempla. A uma estátua
não se segue.

Por falar em designer, você desenterrou imagens que eu havia perdido,
você as salvou do esquecimento,
creio que falamos sobre proporções.
De como ao mesmo tempo o rosto da atriz ao mesmo tempo
dava ideia do quão diminuta ela estava
e, estranhamente, parecia adequada ali.
Todavia, tenho a impressão de que já falei disso.

A impressão que eu tenho é de que os trechos
que sobrevivem em nós
– como na dança, que um movimento sintetisa o anterior
e prenuncia o seguinte –
é uma fração que amplifica,
resume e, a palavra é esta,
salva o espetáculo.
Não sei,
mas desconfio.


A peça foi assistida no dia 14 de agosto de 2010, no Grande Teatro do Palácio das Artes, Belo Horizonte, como parte da programação do Festival Internacional de Teatro – Palco e Rua (FIT/BH). O valor de cada ingresso foi de R$ 16,00.

'3 comentários para “Happy Days”'
  1. Mao, que estranho. Vi Fahrenheit nesse feriado. Até a parte dos homens-livro, achei o filme muito reacionário – por mais que forçasse a mão para um duelo fágico entre a cultural livresca e o domínio televisivo – imaginei, transpondo o tempo e o espaço – o mesmo discurso apocalíptico se repetindo em relação à internet.

  2. Eita. Agora vou precisar rever, porque não vi o filme com essa ótica, não.

    Mas faz muito tempo que eu assisti, e o que você relata parece fazer sentido…

  3. Leo Santolli disse:

    E eu que não vi, vou ver !

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