Não Sobre o Amor

Críticas   |       |    20 de maio de 2008    |    10 comentários

Uma carta para não mandar

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Fotos: Carol Sachs/Divulgação.

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Alya e Victor,

Aposto que vocês nunca receberam uma carta com trilha sonora. Escrevo essa em retribuição, porque recebi as suas com trilha parecida. Não que elas estivessem endereçadas a mim – isso não faria sentido – mas elas me chegaram numa forma que vocês dificilmente conseguiriam imaginar. Essa música é de Bach, e também pode ser ouvida em filmes de Ingmar Bergman, de que tanto gosto – e que sei ser uma das referências de um dos criadores da forma como suas cartas chegaram até mim.

Muito confuso? Me desculpem, vou começar novamente. Assim como vocês, não pretendo escrever sobre o amor. Na verdade, no fundo, sei que pretendiam falar sobre ele, mas fizeram um pacto para não fazê-lo. Não sobre o amor. Pra mim também, então, não sobre o amor. Apenas sobre as cartas de vocês.

Não as li, elas me foram apresentadas num formato difícil de descrever. Imaginem isso: havia uma cama sobre um tapete que se estendia na parede (e não no chão), assim como a escrivaninha e a cadeira, que pendiam sobre outra parede. Imaginem que não há gravidade, que as coisas ficam fáceis – se é que é possível haver alguma facilidade em abrir uma janela que fica no teto, por exemplo. É por essa janela e por uma porta (de cabeça para baixo) que entra uma tímida luz e ilumina a figura de vocês dois – ou melhor, de pessoas talentosas que representam vocês.

Não vou contrariá-los, dizendo que as cartas tratavam sim sobre o amor, vou dizer que também é possível interpretar como cartas sobre distâncias – não físicas, óbvias, mas psicológicas, travessias daquelas que não topamos simplesmente encarar. Vocês sabem disso melhor que eu. Victor, você estava fisicamente presente o tempo todo, ainda que longe, pensando em sua casa, seu país, no mundo que não te pertence e a que você também não pertence. E, claro, pensava em Alya – que vinha e ia o tempo todo, ora como lembrança, ora como uma carta, ora como um fantasma que aparecia em plena luz clara. Vocês falam dos países de vocês, dos lugares onde moram atualmente, onde já moraram e onde gostariam de (voltar a) morar. Eu poderia dizer que isso é falar de amor, mas não, vamos considerar que se trata apenas de saudade, por respeito ao pacto.

Ao contrário de vocês, as cartas chegaram até mim em minha cidade – aquela em que nasci, moro e sonharia estar caso fosse forçado a ficar muito tempo longe dela. Não me estenderei muito nisso porque a qualquer momento posso me pegar falando sobre o amor que sinto pela cidade, mas é importante ressaltar que neste momento várias outras pessoas por aqui estão vendo as cartas de vocês. Eu estava na primeira sessão na cidade, que tinha aproximadamente a metade das pessoas da capacidade total do espaço, e naquela noite eu não conseguia dar às palavras de vocês a mesma atenção que eu dava às imagens, nas quais penso até agora. Saí dali pensando no quanto a forma ofuscava as cartas e o que elas diziam, mas agora só fico pensando no quanto algumas cartas pedem para serem relidas – seja para desgostar delas, seja para usar aquele sentimento de que não estamos falando.

Pode ser que eu veja novamente as cartas, mas não prometo que escreverei sobre elas, sobre minha segunda impressão, sobre o que eu sinto. Há coisas que não sei se valem ser escritas, muito menos endereçadas a alguém. Despeço-me pedindo desculpas caso, ao final desta leitura eu não tenha transmitido nada a vocês. Há muito tempo não escrevo cartas, e depois dessa, acho que ficarei mais um longo período sem escrever mais alguma.

Abraços,

Maurício

CEP 01012-000

'10 comentários para “Não Sobre o Amor”'
  1. salvia disse:

    Não é para criticar, mas não entendi: você não gostou?

  2. Stace disse:

    Maurício, eu te amo!

    shuhsuahsuahuahsahsuhsuahus

  3. daniele avila disse:

    ah…. eu também quero ter música no meu site…. hihihihi.
    beijo
    daní

  4. Sérgio, quando saí do teatro, num tinha gostado não. Um tempo depois, pensando na peça, comecei a gostar de algumas coisas, embora outras ainda me incomodem. Mas enfim, assunto pra cerveja.

    Stace, não sobre o amor!! hahaha

    Dani, cê não imagina como fiquei feliz de conseguir fazer a bobaginha que é essa música funcionar… hehehe

  5. Mesmerized… porque eu tinha tudo pra não gostar dessa peça: texto nada atraente, falta de movimentos e pior, cartas de amor. Mas a linguagem… as projeções, o cenário… a estética. Alguém prestou mesmo atenção no que eles diziam? É porque… todo o resto me disse tão mais, não sobre o amor.

  6. Ivana disse:

    Mauricio, assisti, se é q dá para assim ser considerado, ontem esta peça! E me pregaram uma PEÇA! Pois antes javia escutado n comentários sobre as premiações q ela recebeu e sobre suas inovações teatrais e bla bla bla. Resultado: sono nível 11!
    Quem gostou que me perdoe, mas, NÃO sobre o amor, NÃO sobre enredo, NÃO sobre ser interessante, NÃO gostei nem um pouco…
    Abs

  7. Maurício Alcântara disse:

    Oi Ivana,

    Nas últimas semanas tenho tido muita vontade de retornar a essa peça, não sei ainda se com uma nova crítica, mas com certeza não é para falar sobre só sobre ela.

    Tenho pensado muito numa tendência que tem ficado cada vez mais clara, de agumas companhias que estão ganhando relevância nos últimos anos e que têm feito uma escolha muito sintomática por um teatro NÃO sobre o momento em que ele acontece, NÃO sobre seu público, mas SIM sobre uma pesquisa estética individual assumidamente desconectada de seu entorno.

    Tem algumas peças que ainda quero ver antes de escrever esse texto, mas em breve deve estar aqui na Bacante em algum lugar.

    Abraços,
    Maurício

  8. Rosy disse:

    Olá Bacante,gostaria de saber por gentileza o nome dessa magnífica música,sei que é de Bach..É que fiquei encantada e queria achar o cd que tenha essa maravilha.Pois me apaixonei pela música.Parabéns pelo bom gosto,refinado…
    Bjs.Rosy.

  9. Oi Rosy,

    Essa música é o quarto movimento (Sarabande) da suite para violoncelo número 2, do Bach. Procure por “Cello Suites” do Bach que você deve encontrar.

    Abraço e valeu pelo comentário.

  10. Maira Garcia disse:

    Bacante. Fui ver uma peça de teatro que teve o cuidado de usar várias formas de comunicação para fazer teatro. Saí ouvindo comentários de gente especializada em teatro. Confesso que gostaria de ter usando um tampão pois se me fixasse no que diziam ficaria triste pois esta peça, o texto, os atores o cenário e a linguagem me fizeram refletir sobre a angústia do amor não correspondido. Eu mergulhei e saí banhada de teatro. Gostaria apenas de ter ficar mais perto do palco.

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