Os Náufragos da Louca Esperança

Críticas   |    and    |    6 de outubro de 2011    |    0 comentários

Théâtre du Soleil, pelo público

Não há como não perceber o tamanho da estrutura necessária para mobilizar a vinda da trupe francesa Théâtre du Soleil ao Brasil, com a peça Os Náufragos da Louca Esperança, em cartaz no Sesc Belenzinho. Pelo menos 10 equipamentos de ar condicionado para um espaço teatral de centenas de lugares que até cerca de três meses atrás sequer existia no Sesc ajudam a dar a dimensão do evento. Mas a estrutura sozinha diz pouco, portanto pedimos a algumas pessoas, ainda arrebatadas pela apresentação de estreia, um depoimento sobre a seguinte questão: “Na sua opinião e a partir da sua experiência, qual a importância da vinda do Théâtre du Soleil para o Brasil e para os brasileiros?”:

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Rafael Fritzsons
É um trabalho extremamente virtuoso. A gente até tentou achar um paralelo aqui no Brasil do que seria isso e tal, não sei se existe de fato. Mas… é bom, né? Ver coisa boa (risos)… Num sei… é extremamente virtuoso.

Rogério Felix
Eu sou muito ruim pra entrevista, viu… na minha opinião, bem…. eu não sou muito voltado pra cultura.
Não, esse evento aí realmente foi bem… você vê a estrutura que foi montada e tudo, né? Realmente foi uma coisa espetacular mesmo. Muito interessante. Foi cerca de uns… desde junho… uns três meses aí. O espetáculo dessa grandeza aí, esse foi o primeiro. Teve shows importantes aí, mas espetáculo nessa magnitude aí, toda essa logística que teve, toda essa produção aí. Foi coisa fantástica mesmo. E nos próximos dias aí… vai atingir bastante gente. Público enorme aí. Média de 500 pessoas hoje no evento, né?
Não só pelo tamanho da estrutura, mas pelo próprio espetáculo em si, né?

(Perguntamos) – Você chegou a ver em algum dia?

Ontem eu não estava aqui. Hoje, só por fora mesmo e vendo o público sair. A euforia do pessoal lá dentro. Um pouco da trilha sonora.
É muito interessante. A gente fica na curiosidade de poder ver, mas… mas a gente acompanha aqui…

Danilo Santos de Miranda
O Théâtre du Soleil representa uma das maiores e mais importantes experiências de teatro do mundo. Porque além de fazer um teatro absolutamente de altíssima qualidade, tem uma proposta absolutamente transformadora e trabalha numa perspectiva cooperativada. Onde todos são absolutamente iguais. Levam muito a sério o princípio da igualdade, não é? E da fraternidade também. E da Liberdade – Que, aliás, uma parte da peça menciona isso com uma clareza muito grande. Então pra nós, brasileiros, que vivemos numa realidade sempre muito complexa, cheia de questões graves, sérias… ter uma companhia dessas, ter a oportunidade de ver esse trabalho é realmente algo absolutamente extraordinário. Portanto nós estamos muitos felizes em poder participar desse esforço, já pela segunda vez. Pra nós é muito importante portanto trazê-los aqui.

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Suely Rolnik
Primeiro que a Ariane é um monumento, é o que há de melhor que saiu de 68 no teatro, embora ela tenha começado antes. E essa peça especialmente é muito interessante porque tem uma coisa melancólica e ao mesmo tempo carinhosa com esse mundo que já “se fue” e traz muitos elementos desse tal mundo, dessa ingenuidade que a minha geração tinha, porque eu tenho 63 anos hoje. E além disso, claro, eu tô falando de qual a ideia que tá ali, mas teatralmente, é uma delícia, muito gostoso, e é uma delícia também ver aquela energia toda. Acho bacana trazer pro Brasil porque é bacana a gente ficar conhecendo as coisas interessantes que tem pelo mundo. Só que acho que tem que tomar cuidado, não estou falando especificamente desse evento, mas com o tamanho de dinheiro que se gasta pra trazer certas coisas e como tem que ficar espremido e batalhado pra quem trabalha aqui com densidade poética real, com necessidade de elaboração, e que tem que se humilhar, aguentar trabalhar por muito pouco, como se estivessem fazendo um favor, e é muito desrespeitado, descuidado. Não estou me referindo ao Sesc, tô falando que de um modo geral, a relação que o Estado, as instituições e o Capital têm com a cultura no Brasil é extremamente perversa e colonial, né? Mas eu adoro a Ariane M…

Fabiana Gugli
O Théâtre du Soleil tem um trabalho super diferenciado. Ele trabalha uma… a sutilieza, a delicadeza, sabe? A magia do fazer teatral. Esse espetáculo – diferente do último que veio, Les Ephémères – esse fala muito isso e constrói a magia na frente do espectador. Constrói e desconstrói, constrói e desconstrói o tempo todo. Isso é… isso é fascinante assim. O teatro é capaz de fazer isso. E você vê essa magia acontecer e com os artifícios que eles usam, e as mágicas é… é imperdível. Imperdível.

Maria Amália
Olha, é modelo de um trabalho de grupo continuado com organização. De gente que tem uma proposta e que acredita nela. Isso vale pro Brasil e pra qualquer lugar. Independente da geração. Inclusive o trabalho deles atravessa duas ou três gerações. Eu acho que é isso.

Rita Giovanna Gentile
Ah, eu acho que tem toda a importância. A gente vem atravessando uma crise – embora muita gente diga que não – eu acho que o teatro está em crise. Mesmo em São Paulo, sendo um polo importante do teatro no Brasil. E tem muita gente fazendo teatro. Mas aí eu me pergunto: as pessoas estão realmente fazendo teatro? E eu não digo fazer um teatro tradicional, porque existem muitos grupos nos Estados Unidos, na própria Argentina, na Espanha. na Inglaterra que buscam novas linguagens. Mas existe qualidade. O que acontece no Brasil é que o teatro acabou se perdendo. Então tem muitos grupos novos, mas que realmente não sabem o que fazer. E eles chamam aquilo de uma nova linguagem, mas na verdade, quando você vai ver, aquilo não é nada. Então eu acho importante um grupo com tanto anos, como o Théâtre du Soleil, vir pro Brasil pra mostrar que você pode fazer muitas coisas difererentes – já é a terceira montagem deles que eu vejo – mas com qualidade, né? Dessa vez eles trabalharam o lúdico, a história do cinema contada pelo teatro e isso foi feito de uma maneira tão inteligente, tão gostosa de ver. Eu acho que serve pra isso.

Aline Borsari
Eu acho que é uma trupe que é um exemplo de trabalho de grupo, um trabalho que já existe há mais de 46 anos, então um trabalho com uma continuidade… eu acho que principalmente pra o teatro no Brasil, pra educação, essa peça como é extremamente política, acho que é super importante por este exemplo, de ser uma peça que trata disso e que se faz dessa forma, que funciona assim… com salários iguais, com trabalhos um pouco equivalentes, todo mundo faz tudo, então acho que é um dos raros exemplos no mundo, por isso é legal de ver na prática, isso que a gente pensa que é uma utopia, ver uma das utopias que conseguiu se realizar.

Luciana Paes
Olha, eu acho muito importante os caras terem vindo aí… no sentido de que, eu acho que o Brasil, eu sinto que o Brasil ainda não tem, pelo menos eu não vi nada parecido no Brasil, no sentido dessa capacidade de estruturação pra que uma obra dessa força seja realizada, sendo que o que tá em jogo não é a atuação… sabe? É outro… pra mim inaugural, quer dizer, desde a primeira vez quando eu assisti o Les Ephémères, já inaugurou uma outra visão possível que às vezes até me coloca num outro lugar que não é o teatro, sabe, parece uma outra obra, que eu não saberia como chamar, mas algo como uma super-arte, no sentido dessa orquestração, em que as pessoas que estão em cena ganham um valor pela força de construção daquela obra, que não é bom ator ou mau ator, entendeu? O carinha que tá lá no ventilador… essa força de um grupo de seres humanos se unindo pra fazer um trabalho belíssimo, pra construir a força da poesia. Pra mim só a força de pessoas se unindo pra fazer isso já vale assistir independente do discurso que a peça traz. Eu sou atriz, né, tô falando do meu ponto de vista como atriz, mas acho que se eu fosse uma pessoa… o Kuky é batera, talvez ele consiga dar uma outra visão, agora questionamentos assim sobre se vale a coisa da grana, tudo que é gasto, não me sinto competente, com autoridade pra falar “ah, acho que não devia vir e investir mais em grupos nacionais pra que a gente… não sei, não me sinto competente pra fazer esse julgamento. Eu fico feliz que eles vieram.

Kuki Stolarski
Eu posso falar que eu tinha, não exatamente um preconceito com teatro, mas não ia muito. Agora, junto com a Lu, eu tenho ficado bem atualizado com grande parte do que tá acontecendo no cenário do teatro e de espetáculos de dança. Eu posso dizer que eu acho que essa troca… o Brasil entrou num circuito mundial agora, tanto de música, teatro… quer dizer, o Brasil existe pro mundo, você vê pelo Rock in Rio, esse ano foram duas semanas! Eu quero dizer assim que os brasileiros possam ver e testemunhar e aprender. Por exemplo, mesmo quando você entra aqui, você já vê a estrutura deles, o camarim, você vê que são tantos detalhes, né? O tapete, a maneira como eles decoram… você já sabe que você vai entrar lá e… é uma aula, né? Mesmo pra quem não é ator, que é o meu caso, hoje eu saí daqui mais rico… de informação visual, a música que é inacreditável, realmente é emocionante. Então, eu sei que a gente também emociona muito as pessoas lá for a também, com a nossa música, com os nossos atores… então é isso, viva a troca, viva a arte, né?

E você, o que diz? Qual é a importância da vinda do Théâtre du Soleil pro Brasil e pros brasileiros?

11 depoimentos, por enquanto

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