Abril de 2008

Editorial   |       |    11 de abril de 2008    |    9 comentários

Uma história dos tempos de outrora ou 12 meses de improviso

Era 11 de abril do longínquo ano de 2007 quando amigos se reuniram pra publicar pela primeira vez um projeto destinado a um público muito específico: eles mesmos! Depois de muito procurar na Internet por textos, opiniões, comentários ou qualquer coisa que o valha sobre teatro, mas encontrar praticamente só releases republicados e coisa-de-acadêmico-chato-citando-o-sociólogo-da-moda, essas pessoas resolveram fazer elas mesmas a resposta às suas angústias. É tipo quando você encontra um nicho inexplorado do mercado, sabe? Com a diferença que não dá grana. Nem pretende… por enquanto.

Essas pessoas somos nós da Bacante e esse monte de bugiganga [des]pretensiosa sobre teatro é essa revista que você está lendo. Feita nas horas vagas, algumas vezes às pressas, outras também, a Bacante não se leva a sério e nem quer que ninguém a leve. E isso não significa que a gente não valorize esse trabalho, nem que não estejamos super comprometidos com ele – afinal, ele seria nosso ócio criativo se tivéssemos ócio.

Improviso tem sido a palavra-chave das nossas iniciativas, tanto porque apesar de termos nascido “falando”, ainda estamos aprendendo a maior parte daquilo que colocamos em prática aqui; quanto pelo fato de que o improviso torna as coisas mais verdadeiras e divertidas – e é necessário muito dele num projeto como o nosso, em que tudo pode, mas não pode qualquer coisa e todos os jeitos são possíveis, mas não pode fazer de qualquer jeito.

Improvisamos pra cobrir nosso primeiro festival – o FIT de São José do Rio Preto em 2007 – e procuramos usar nossa ingenuidade de debutantes a nosso favor. Improvisamos a cada novo evento, a cada release-spam recebido, a cada convite bacana que chega, a cada novo personagem descoberto para entrevistas. Improvisamos para responder comentários, respostas que às vezes soaram agressivas, outras vezes deixaram passar boas reflexões, mas que em todos os casos eram conduzidas por uma vontade de brincar com tudo pra desconstruir a pretensa seriedade daquelas palavras formais que não dizem nada e escondem todas as intenções. Improvisamos para mudar o sistema no fim do ano e trabalhamos enquanto dávamos férias aos leitores, deixando-os livres das nossas abobrinhas por uns tempos. Improvisamos para lidar com colaboradores muito diferentes entre si (de Uberlândia à Paraíba) e hoje, além de colaboradores que mandam textos de vez em quando, temos três braços-fortes-e-trabalhadores que estão freqüentemente conosco nesta labuta escravocrata semanal: Valmir Júnior, Emilliano Freitas e Marco Albuquerque (e sua vitrola), uns doidos que resolveram vir dar errado por aqui. Improvisamos e ainda estamos improvisando em tecnologia que, claro, pode ser muito mais dinâmica e interativa com mais investimento (escreva você também para [email protected] ou [email protected]).

Não há, no entanto, problemas existenciais por estarmos sempre improvisando. Afinal, no próprio teatro – elemento sine qua non desta bagaça – saber improvisar é uma qualidade essencial e que dá grandes frutos sempre que feito com sinceridade e abertura. Portanto, vamos nos especializando em improvisar e continuamos aqui: abertos ao jogo!

'9 comentários para “Abril de 2008”'
  1. ivan delmanto disse:

    “Destinado a ver a luz, e não o iluminado” (Göethe)

    Parabéns por um ano de improviso! O melhor é que, mesmo depois de um ano, o improviso não se tornou encenação, o que geralmente acaba como sinônimo de água estagnada (em tempos de dengue, isto pode ser perigoso).
    Sou um leitor silencioso dos textos, porque gosto de ler cada crítica por dentro, para que cada palavra ecoe junto com as minhas: sou um leitor silencioso porque gosto de ler os textos de vocês repetindo as palavras mudamente, como quem masca pedras, que geralmente se abrem com leveza, em um gosto diferente.
    Hoje deixo de ser um leitor silencioso porque, se as datas comemorativas são instantes de rememoração, estou rememorando, não mais em silêncio, os textos ba-cânticos que li, mastigando-os de novo, saboreando-os mais uma vez, e saindo aqui do meu espaço de sombras para falar um pouco sobre o que este aniversário me desperta.
    Primeiro me desperta do silêncio, na vontade que tenho de dizer o quanto acho importante uma crítica nova, capaz de encarar os novos desafios propostos por um momento histórico em que a mercadoria já ocupou há muito o terreno dos palcos, estabelecendo formas artísticas e de produção cada vez mais próximas de um curso de auto-ajuda para empresários iniciantes. Nisto, a bacante é pedra no sapato dos velhos críticos de resenha pronta, que assolam a história dos nossos teatros, desde que a indústria cultural começou a dar as cartas por aqui. Continuamos a não ter uma crítica capaz de refletir para além dos parâmetros do mercado e de sua forma hegemônica, o drama, e nisto a experiência da bacante, e dos seus produtores, – que são também artistas – , é essencial: é possível sim refletir sobre teatro levando em conta que há muito a linearidade aristotélica (da forma teatral e da mercadoria) vem sendo corroída, negada, transformada e superada por experiências artísticas preocupadas em dar novas formas à nossa vida danificada.
    Experiência artística. Para já entrar no único presente de aniversário que me parece ser útil à bacante, a crítica, o que mais gosto nos textos são os momentos em que eles me parecem romper as fronteiras da divisão entre reflexão e arte: são os momentos em que os textos da bacante – como na utopia dos críticos de arte do romantismo (Novalis, os irmãos Schlegel) -, aproximam-se perigosamente da arte. Momentos em que a fronteira entre crítica e produção artística se rompe, quando a ironia é sutil, quando o humor é escrachado, quando a forma do texto reproduz a experiência estética sugerida pela forma da peça.
    Se eu pudesse, nesta minha saída rápida do silêncio, indicar o que me encanta na bacante, formando ao mesmo tempo uma sugestão crítica de novos caminhos, eu diria: este entrelaçamento descoberto, mas ainda não levado às últimas consequências, entre texto literário e texto crítico, entre análise e narrativa, entre reflexão e criação, entre negação e deboche, aumenta o potencial crítico dos textos, propondo uma maneira nova de ver e pensar sobre teatro.
    Nos anos que se seguirão, eu gostaria de devorar em novos silêncios povoados por bacantes, textos em que o delírio da arte surge imerso no propósito crítico. Não é outra a definição que os românticos alemães davam ao que eles chamavam de ENSAIO, um gênero híbrido entre arte e filosofia, capaz de tatear o objeto artístico e iluminá-lo sob todos os ângulos, – de dentro de um olhar também ele artístico- , revelando suas contradições e situando os seus procedimentos formais em estrita relação com o mundo que os gera. Os textos da bacante que povoam meus silêncios são sempre saborosos. Mas quando eles conseguem, como em um ensaio de uma peça sonhada, me levar pelos caminhos do delírio e da reflexão, eu sinto vontade de sair do silêncio e ecoar o que leio.
    Parabéns a todos
    Ivan Delmanto

  2. Fabrício disse:

    Apelou.
    Não sobraram palavras.

  3. Concordo com o Fabrício.
    Só adiciono um comentário: esse moço não perde oportunidade pra fazer piada com dengue!!!
    hahaha…
    Valeu, Ivan!

  4. Juli =) disse:

    Opa! Precisa fazer um ano pra você ecoar? rs Sendo assim, bem-vindo ao espaço onde você também faz a Bacante. O espaço que, quando utilizado ajuda a romper a tal fronteira (reflexão X arte ou crítica X produção artística) de que você tanto fala e com a qual a gente fica brigando toda semana. Essa briga é a razão de ser disso aqui. E quando, depois do silêncio, há o eco… isso é muito doido! (sem trocadilhos. Ainda!) Vamos ensaiando… em todos os sentidos.

    Beijo e brigada.

  5. Leca Perrechil disse:

    Lembrando sempre que a Bacante é a única revista de teatro com cota de 10% para pessoas que já tiveram dengue.
    Valeu, Ivan!

  6. astier basílio disse:

    esse negócio de ser leitor silencioso, ao menos pra mim é perigo, comecei assim e hoje….

  7. Ronaldo disse:

    Ei, o que vocês acham de colocar o “serviço” dos espetáculos criticados? Pelo menos a cidade, o teatro…

  8. Juli =) disse:

    É, Astier… agora já tá no rolo, nem adianta chorar o leite derramado.

    Viu, Ronaldo, a gente já pensou em algo assim. Pensamos, por exemplo, em linkar pra algum guia pra ficar mais completo, mas os guias geralmente não são muito confiáveis, né? E nós não temos condição (tipo mão-de-obra escraviária mesmo) pra fazer nosso prório guia.

    De todo modo, valeu pela sugestão. Vamos pensando, ok?

    Beijos,
    Juli =)

  9. maria disse:

    gente, estou basbacada! (existe mesmo esse nome?) , vcs são uma delícia! um axé prô ivan, fiquei curiosa em entender melhor a referência à linearidade aristotélica…
    viva os e as bacantes!
    abraços,
    maria

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