Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto 2010

Especial   |       |    9 de agosto de 2010    |    0 comentários

Algumas observações sobre as mudanças da edição 2010 do Festival Internacional de São José do Rio Preto

“Rio Preto está artista”. O slogan foi mantido. O conceito curatorial “A Conquista da Singularidade” também obedece à tradição de temáticas abertas e subjetivas, tais como as mais recentes “Texturas” e “Subjetividade” (como a Wikipedia nos ajuda a entender). São José do Rio Preto segue sendo uma cidade incrivelmente quente em pleno julho, as capivaras seguem tomando um solzinho em torno da represa e o centro segue bombardeado pela última moda da música sertaneja. No entanto, muita coisa mudou nesta edição do festival.

Podemos começar pela saída do Jorge Vermelho (que pessoalmente é bege – desculpem repetir a piada, mas na despedida é bom relembrar…) e da abertura de uma baladinha comandada pelo próprio, chamada de O Lugar, que funcionou como contraponto ao novo espaço de encontro do festival, este ano mais sóbrio, com comidinhas, mesas, pufes, enfim, um ambiente um pouco mais propício a boas conversas e menos convidativo à dança e à pegação – e não procure aqui qualquer juízo de valor, sou super a favor de boas conversas, assim como de dança e pegação.

Também é preciso ressaltar como novidade o convite feito a cinco novos curadores: Gabriela Mellão (que já concorreu ao II Prêmio Bacante de Teatro e Outros na categoria Ferveção), Luiz Fernando Ramos, Roberto Alvim, Sérgio Luís Venitt de Oliveira e Sidnei C. Martins. Nas palavras escritas por essa curadoria, temos alguns caminhos para pensar as novidades do FIT em 2010. “Este ano, a curadoria esteve interessada em procurar na produção atual aquilo que a identificasse como singular, no sentido da busca de uma teatralidade nova e não completamente sistematizada, no tatear por uma cena que pudesse corresponder às complexidades da vida contemporânea ou ousasse se aventurar por caminhos pouco visitados nos palcos (…). A edição 2010 do festival sugere um olhar para essa criação de caráter experimental, trazendo proposições teatrais nem sempre completamente resolvidas,…”.

Temos, ainda, em palavras mais diretas, um trecho interessante do texto de Roberto Alvim: “Neste ano, o FIT, norteado por um restrito conceito curatorial, não se posiciona como ‘uma vitrine do melhor da produção das artes cênicas’. De modo absolutamente distinto nesta edição, o Festival de São José do Rio Preto se coloca, resolutamente, como um espaço que não se baliza apenas pela qualidade dos espetáculos – mas, sim, e sobretudo, por sua singularidade. Trata-se de um panorama de obras (…) que recusam as estratégias de construção da cultura de massa (ou mesmo da alta cultura) e constituem-se como alteridades radicais, em sua criação de Poética fundantes. [quadradinho] Teatros que não se configuram como um ESPELHO DO MUNDO, mas que se instauram como tapetes, TECELAGENS: redes de fios (engendrados por novos modos de subjetivação, afetos, sensações, imagens, construções inomináveis – posto que se localizam fora da cartografia reconhecível da cultura) que apontam para novas possibilidades de compreendermos e experienciarmos o tempo, o espaço, a linguagem, a condição humana. Não nos reconheceremos – nem a nós, nem ao nosso mundo – nestes palcos; o que veremos aqui são outras possibilidades: outros mundos, outras humanidades.”

Na minha curta experiência de um fim de semana no festival – considerando o que eu assisti e o que ouvi – percebi que algumas peças se encaixam de maneira especial na idéia de abrir espaço para um teatro mais “experimental” ou para “proposições teatrais nem sempre completamente resolvidas”, tais como: Otro – dirigida por Enrique Diaz, que, segundo comentou-se muito, coloca uma espécie de demonstração de exercícios da badalada técnica Viewpoints no palco; Antes, produzida pelo grupo Armazém em apenas dois meses especialmente para o festival; e FatzerBraz, obra que ainda estava em processo, de modo que somos inclusive avisados pelos atores, no fim de quase duas horas, que o espetáculo “Continua…”, por meio de uma plaquinha.

Peça: FatzerBraz. Foto: Ricardo Boni

Outras mudanças – não curatoriais, mas estruturais – me chamaram mais atenção. É o caso da intenção, já evidenciada no ano passado, de ampliar o FIT regionalmente e pensar o Festival para a população de São José do Rio Preto e da região e não somente para os artistas convidados (no que tendia a ser uma espécie de reunião de classe apolítica). Essa proposta torna-se visível quando peças de rua, como Kamchatka, da Espanha, não são apresentadas somente no centro da cidade, mas também nos distritos de Talhado e Engenheiro Shimidt, por exemplo.

Outro dado que caminha neste sentido é o foco em teatro de rua e em apresentações gratuitas, inclusive de peças internacionais. Algumas peças tiveram, ainda, duas seções no mesmo dia e em horários diferentes, o que facilitava o planejamento e o acesso aos ingressos.

Mas, como nada está livre de contradições – ainda bem – fica muito difícil entender, levando em conta esse movimento de aproximação do público comum da cidade e região, por que os encontros para diálogos entre artistas, chamados de Ensaios de Formação, foram realizados nos moldes de um programa de auditório. Trazer este tipo de atividade para a Swift, que fica num lugar central da cidade e concentra boa parte das atividades do Festival, foi sem dúvida um passo importante. Não custa lembrarmos os debates esvaziados, em 2007, no Hotel Michelangelo, lugar distante o suficiente pra reunir somente os artistas convidados. No entanto, colocar os artistas completamente isolados do público, falando diretamente para três câmeras num genérico do sofá do Jô Soares, não me parece um avanço no sentido de um diálogo aberto e abrangente e, sobretudo, “singular” sobre teatro. Para se ter idéia, os debates exigiam retirada de senha, tinham pouquíssimos lugares disponíveis e era necessário silêncio absoluto em respeito à gravação que registrava a conversa. Melhor fazer num estúdio, né?

Ensaios de Formação com Enrique Diaz e Georgette Fadel. Foto: Gianda Oliveira

Para lavar a alma dessa distância forçada entre artista e público e deste ambiente que funcionava a partir do controle absoluto, é bom lembrar, novamente, a peça Kamchatka, que trabalha justamente com a estrutura oposta a essa, ou seja, com tudo aquilo que foge do controle prévio e, assim, nos lembra que teatro é encontro – de preferência sem mediação de senhas e ingressos, nem exigência de currículo ou repertório prévio e com a primazia do tempo presente.

Peça: Kamchatka – Apresentação no bairro Parque da Cidadania. Foto: Edson Baffi

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