FRINGINCANDO NO FESTIVAL DE CURITIBA

Especial   |       |    31 de março de 2010    |    0 comentários

Quando contei pras pessoas que iria ao Festival de Curitiba, 90% me disseram: cuidado com o FRINGE! São famosos os casos de chateação que alguns passam ao escolher uma peça de teatro para assistir no meio de 374. Grupos do país inteiro vão pra cidade lutar por um lugar ao sol, ter a sorte de ser visto por um programador do SESC, um olheiro da Globo ou um crítico da Bacante numa mostra “paralela” que é dez vezes maior que a “oficial “. Resta ao público vasculhar bem pra encontrar bons achados.

Neste ano houve uma tentativa de distribuir as peças do FRINGE em linguagens distintas para cada teatro, mais ou menos como em vitrines de shopping. Havia o teatro do circo/palhaços, o de coletivos paranaenses, o de comédias, e assim por diante. Alguns contaram com programadores, como é o caso do Novela Curitibanas que teve como responsável o Chico Pelúcio do Grupo Galpão e do Teatro Cleon Jacques onde Beto Andretta do Pia Fraus organizou o circo contemporâneo paulista. No meio do ôba-ôba fringiano, algumas peças já consagradas no circuitão estavam presentes, como é o caso de Não sobre o amor, Cachorro! e A noite dos palhaços mudos.

Pra participar do FRINGE bastava se inscrever no site do Festival e passar por uma pré-seleção (que pelo visto só checava a legalidade da documentação que exigiam e adaptação aos espaços do festival). Assim, de acordo com o Edital do Festival, o grupo deveria pagar uma taxa de R$60,00 por apresentação e não teria direito a hospedagem, nem alimentação, muito menos a qualquer ajuda de custo, apenas a 80% da bilheteria do teatro (isso me faz pensar no desespero de um borderô de um teatro numa segunda-feira às 14 horas).

Essa falta de incentivo finaceiro fez com que alguns grupos cancelassem a ida até o Paraná (no Teatro Reikraus Benemond a moça que atendia o público me disse que dois espetáculos que aconteceriam no espaço foram cancelados por dificuldades que os grupos enfrentaram em viajar). Aliás cancelamento de espetáculos não faltaram no FRINGE, e às vezes o público só ficava sabendo na porta do Teatro. Uma apresentação de Magic Ki Mondo que aconteceria na rua foi cancelada em cima da hora porque perderam a chave de uma sala onde estavam os equipamentos da peça, só fazendo aumentar a lista dos problemas ocorridos por falta de organização. Atrasos, trocas de horários, endereços errados em ingressos, espaços sem ar condicionado,  falta de equipe técnica no horário combinado, entre outros problemas, deixaram muita gente da classe artística presente na cidade a beira de um ataque de nervos.  Alguns problemas viraram até caso de polícia, como o ocorrido em uma apresentação noturna de A vida como ela é, quando um grupo de pessoas ficaram de fora do teatro porque um guarda-noturno trancou uma porta antes que todo mundo entrasse na apresentação.

Tudo isso, somando a o que foi noticiado nos anos anteriores, mais o fato de alguns grupos participantes do FRINGE estarem super contentes com os dias na cidade, com seus teatros organizados, boas pautas e horários, deixa uma pergunta que não quer calar: por que depois de tantos anos repetindo os mesmos erros as coisas não mudam? O FRINGE é vitrine pra quê e para quem? É nivelar todos pela ordem do mercado? É um cardápio para ver se tem como digerir alguma coisa? É justificar em números o gasto do dinheiro público? Quem ganha com isso: a classe artística, os produtores, o público, os jornalistas ou os políticos?

Mesmo com tanto contratempo, e contrariando as lendas curitibanas, assisti a 9 espetáculos e posso dizer que o balanço do FRINGE foi positivo. Lógico que fui extremamente criterioso na seleção do que veria, excluindo de cara peças com nomes duvidosos como A tarada do Boqueirão, fugindo de sinopses muito vagas e confiando no sétimo sentido de Baco.

Se o Festival de Curitiba é o maior festival de teatro do Brasil, nada mais justo que fazer o maior número de comentários críticos. Uma prateleira do tamanho P, pra não encher a paciência e poder passar as impressões destas peças, bem ao estilo conversas no Café do Teatro após um dia de correria pela capital do Paraná.

Quer complementar, sinta-se à vontade! Os comentários tão aí pra isso.

O Método.

Para escolher uma no meio de centenas de peças para assistir no FRINGE,são válidos os mais variados critérios. Para ver O Método, meu critério foi o lugar. Ela foi apresentada no Teatro do Museu Oscar Niemeyer, daí eu mataria dois coelhos numa cajadada só, conheceria o museu do olho e veria um espetáculo.

Com um texto de Mário Bortolotto escrito em 1986, quatro atores dão o que tem no palco. Mas por causa da superficialidade do texto e uma direção que vai pelo caminho da obviedade, as exposições do Museu fizeram meu passeio ser bem mais proveitoso.

Nos primeiros 15 minutos de peça, o teatro começou a se esvaziar. Pensei em acompanhar as três tetéias globais que estavam na platéia, que se olharam, fizeram cara de pânico e vazaram na braquiara, mas sempre tenho a esperança de que as coisas vão melhorar.

Mário mescla em seu texto um teste de elenco de teatro, parte da história da juventude brasileira (dos anos 60 aos 80), atores em início de carreira e seus egos (muitas vezes servindo apenas como tecla SAP ou ilustração do que é falado). Essa mistureba é tratada de maneira rasa, recheada de clichês, com hippies fumando maconha e rebeldes sem causa gritando fora ditadura (de uma época em que os jovens atores nem eram nascidos) , finalizando a peça com um paralelo: egos partindo para fazer um teatro cabeçudo e acadêmico, e os atores beberrões preferindo fazer um teatro mais livre, discutindo Living Theater numa mesa de bar regada a cerveja. Vamos combinar que estamos no século XXI e o teatro atual prova que essa distinção de acadêmicos X não-acadêmicos está meio ultrapassada.

A vida como ela é.

A velha fórmula = junte algumas crônicas de Nelson Rodrigues e faça um espetáculo. O diferencial dessa peça? O uso da metalinguagem, onde em cena um diretor se vê obrigado a montar uma peça rodrigueana, porém odeia o dramaturgo, tudo porque no passado não cumpriu um pacto de morte com sua irmã, e vê sua vida diretamente ligada à obra do Nelsão (ah, contei o final, só lamento!).

O problema é que o recurso da metalinguagem utilizado pra amarrar as histórias de incesto, tragédias familiares e tudo mais que só o Nelson pode oferecer, é muito frágil e faz o espetáculo perder o ritmo quando uma história dentro da outra parece só justificar o apresentado. A gente acaba não acreditando muito no teatrinho do diretor conversando com a Madame Cleci, o irmão morto do dramaturgo (que o grupo chega a desenvolver uma tese de que Nelson só é Nelson por causa da morte trágica do irmão), e mais personagens rodrigueanos que passeiam como se fossem fantasmas.

Só pra constar: os atores fumavam o tempo inteiro com os cigarros apagados. De acordo com informantes exclusivos fiquei sabendo que na apresentação anterior eles tinham fumado normalmente, mas chamaram a atenção do grupo por causa da Lei anti-fumo que proíbe os cidadãos de fumarem em lugares fechados. Está na hora dos atores começarem a fazer algo em relação ao teatro no cigarro, não acham?

A vida como ela é, nos tempos em que ainda era possível ficar com o cigarro aceso em cena. Foto = divulgação

Proibido retornar

Quando estiver em dúvida sobre o que assistir no FRINGE não hesite e escolha uma peça de Belo Horizonte. Pergunte pro Miguel da Anunciação e dirá que Minas salva o Fringe, baseado em anos em que Espanca e Cia. Clara dentre outros grupos foram os queridinhos da crítica.

Proibido retornar fez parte da programação do Teatro Novelas Curitibanas, com programação do Chico Pelúcio, ator do Grupo Galpão.  Apresentada por um grupo de jovens atores que recebem o público ao som de Don’t Stop, como se todos estivessem entrando em uma boate. Esse clima night é para apresentar a saga de um homem que nasce na roça, bem no interiorzão e parte pra capital  em busca de uma vida melhor, acaba virando mais um na mão-de-obra da construção civil, e termina como um mendigo louco perambulando pelas ruas.

Proibido retornar. Foto = divulgação

Com a platéia circundando o espaço cênico, a narrativa é não-linear, intercalando as mudanças temporais de passado, presente e futuro no decorrer das cenas.

Utilizando de metáforas enquanto recursos cênico-poéticos, os atores exploram toda a potencialidade de seus corpos e vozes, buscando soluções para as cenas que não ficam presas somente à exploração do capital , mas trazem uma poética trabalhando os desejos e sentimentos humanos através da força exploradora. Fica evidente isso na cena em que uma entrevista de emprego toma a forma de uma conquista sexual.

Peças que contam a vida do interior, com suas crendices, seu café passado no coador de pano e o cheiro da terra proporcionam para mim uma identificação direta, visto que é um universo que conversa com minha história e apesar de parecer, não é um assunto ultrapassado e está presente ainda em grande parte de nosso país. Porém o final, onde o capital é o principal responsável pelas mazelas humanas, e o caipira vislumbrado com a cidade e as novas oportunidades acaba se ferrando e virando um mendigo me parece simplista.

A discussão que o espetáculo proporciona como a especulação imobiliária, a opressão ao cidadão que é tratado como um número de identidade, as relações familiares no campo, a força do capital que ludibria o homem com falsas promessas e cartões de créditos, não se fortifica ao escolher um final que se apresenta como verdade dos fatos: sair do interior e ir pra capital pode resultar em um final trágico.

Barbazul

Embalados pelo som de uma guitarra e uma gaita, um casal narra a história do Barba Azul, o homem mau que mata suas esposas, mas se apaixona por uma jovem que após o casamento descobre o grande segredo ao trair a confiança do cara.

Barbazul. Foto = divulgação

A direção investe em soluções cênicas bem simples, mas eficientes. Típico teatro intimista, com poucos recursos, utilizando da narração dos fatos, intercalada com encenação de personagens e momentos de distanciamento dos atores. Poderia ter me feito sair com um sorrisão do teatro, mas o recurso de distanciamento utilizado soa muito falso. Vai ver se as vozes não fossem tão sussurradas enganaria um pouco.

Cachorro Manco Show

Pra quem achou que eu não veria nenhum stand up no Festival de Curitiba se enganou. Na verdade, antes que os puristas comediologistas briguem comigo,  era uma peça de teatro, onde o ator representava um cachorro manco que já teve vários donos e vários nomes, mas agora está abandonado, e dedica-se a fazer seu stand up.

Digamos que não teve muita graça, até porque as piadas que o cachorro fazia escancarava todas as mazelas de sua vida de forma politicamente incorreta, o que deixava o público tímido e nervoso indagando se podia rir do que o cachorro dizia.

The Cachorro Manco Show. Foto = divulgação.

Com uma interpretação bem longe de outros cachorros famosos no teatro brasileiro, como os totós de Por Elise e Vau da Sarapalha, esse cão assemelha-se a um bufão, utilizando de repetições e mudanças do timbre vocal para reforçar a condição de miséria em que ele foi submetido ao longo da história, partindo de Portugal, rumo ao Brasil em uma caravela, se virando como pôde para sobreviver até os dias atuais. Essa viagem histórica do personagem coloca o espectador a refletir sobre os cachorros mancos que no s cercam travestidos de excluídos sociais, o que encarado enquanto uma comédia nem sempre se torna fácil de digerir.

De como fiquei bruta flor

Se tivesse tido o azar de ter assistido essa peça há uns meses atrás, depois que ter feito um acordo onde entrei com a minha bunda e uma certa garota com o pé, eu estaria em prantos até agora, e teria visto todas as sessões de De como fiquei Bruta Flor no festival (pra quem viu 500 days of Summer 04 vezes num dia isso seria bem provável).

Dirigida por Cibele Forjaz, numa reunião de profissionais da Cia. Livre, Cia. Oito Nova Dança, Cia. São Jorge de Variedades e Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, a dramaturgia utiliza-se de 10 portas para expôr o fim de um relacionamento. A maneira que a diretora escolheu para moldar o espetáculo procura deixar a pieguice do texto mais delicada, onde o distanciamento que as atrizes utilizam após cada encenação das cartas que caem no palco procura dar leveza e puxar o espectador pra uma não comoção sofrível imediata.

E eu com isso tudo? Sou o crítico mais piegas e açucarado da história dessa revista , e sei que no pós-pé-na-bunda, qualquer problema no mundo é menor que nossa dor de cotovelo. Egoísmo ingênuo né? Eu sei disso e tenho consciência. A Cibele também deve ter.

* O crítico (que não é jornalista) viajou a convite do Festival de Curitiba, e ao contrário dos grupos do FRINGE não teve que pagar taxa de inscrição, hospedagem e passagens. Ele ainda informa que ficou sozinho num quarto com duas camas de solteiro, então se alguém em 2011 quiser utilizar a segunda cama para se hospedar pode ficar à vontade (isso se convidarem a Bacante de novo né?).

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