Ensina-me a Viver
Leia o livro, procure o filme na internet e economize R$ 80
Free-lance para a Bacante.
Nota dos editores: Pessoal, esse é o primeiro texto do Rodolfo aqui na Bacante. A gente avisou pra ele que a gente não presta, mas ele é um levado e insistiu. Damos as boas-vindas ao moço, e lançamos uma provocação: alguém que tenha visto a peça e não tenha visto o filme ou lido o livro, como o Rodolfo? Sem esses referenciais, o que sobra da história na peça?
Quando a estréia de Ensina-me a Viver, no Teatro Faap, com Glória Menezes, foi anunciada, confesso que fui tomado por grande excitação. O filme que tanto havia me marcado na adolescência seria encenado pela primeira vez desde que me tornei “grandinho” o suficiente para ir ao teatro. Em 1982, quando foi encenada a famosa versão que trazia Henriette Morineau e um desconhecido Diogo Vilela, eu contava com apenas seis anos de idade. Fiquei sabendo que houve uma montagem na Bahia, num passado remoto, mas enfim…. a história de Harold e Maude permanecia intocável para mim.
Antes eu não tivesse ido assistir a montagem dirigida por João Falcão. O diretor assumiu não ter visto o filme para que pudesse ficar livre na sua concepção. Ensina-me a Viver se tornou uma experiência frustrante: a peça tem cenário de péssimo gosto – composto por tules negros – resoluções óbvias e piegas (como a projeção das margaridas e das imagens de Glória Menezes jovem) e equívocos na trilha sonora, que traz embutido, um batidão a la Britney Sprears.
Não, a produção em cartaz no Teatro Faap não reproduz o espírito do livro de Collins Higgins e se compararmos com a versão cinematográfica de Hal Ashby, as falhas desta montagem se sobressaem e só enfatizam as más escolhas da direção.
O que “segura” o espectador na poltrona – pelo menos segurou a mim – é a história da octogenária Maude, com sua visão particular, excêntrica e desapegada da vida, em contraponto com a visão sombria e sem perspectiva de Harold, um “jovem senhor de quase 20 anos”. A transformação de Harold ao se confrontar com Maude e aprender com ela a se relacionar com a vida de outra maneira é o grande clímax da história. Tal confronto no filme resulta em cenas lúdicas, poéticas e metafóricas, já no palco…
Glória dá conta do recado e até cativa como a simpática velhinha transgressora. A atriz de 73 anos mostra disposição para atender às marcações – cafonas – da direção e mesmo quando tropeça na dicção, tem seu erro perdoado pelo público, afinal Glória faz parte da história da teledramaturgia nacional, e seu trabalho nos palcos é tão interessante quanto na TV. Quem viu “Jornada de um Poema” (última peça encenada pela atriz) sabe do que estou falando.
João Falcão, além de dirigir, adaptou a história com piadas brejeiras e transformou o trailer cênico que Maude mora em um galpão de teatro, tudo para incluir na boca de Glória um
discurso piegas e panfletário sobre a importância do teatro e blá blá blá. Ok! Não fui conferir no livro – sim, tenho o livro e o filme na estante de casa – todos os crimes que Falcão cometeu ao adaptar a história de Higgins. Fui associando – sem querer, querendo – a adaptação teatral ao filme e percebendo como o diretor trabalhou as cenas, inverteu a ordem das situações e propôs resultados cênicos para momentos que no cinema resultaram em belíssimas imagens – como no caso da cena em que Harold rola num campo de margaridas, ou quando Maude recebe a aliança de Harold e a joga no lago, para que sempre saiba onde está tal “demonstração de amor”.
Outra cena modificada é a da morte de Maude, que toma uns comprimidos para morrer exatamente na data do seu 80° aniversário. Na encenação, Falcão suaviza esta tendência suicida da protagonista e faz parecer que Maude está falecendo por acaso, na data planejada. No filme, a cena dramática se dá na ambulância, quando o garoto pede para que ela não morra.
O acréscimo da cena em que a mãe de Harold visita Maude e todos os comentários moralistas dos personagens (tio, padre, psicólogo) nas cenas seguintes são desnecessárias, pois só reforçam preconceitos e não acrescentam nada ao decorrer da história (além de não contar no original). Mesmo a cena do beijo entre o casal é feita de forma impostada, impossível acreditar em algo tão impessoal e “marcado”. Além desta cena, outra frustração é ver a “casa” de Maude que não reproduz com fidelidade seu espírito transgressor.
Arlindo Lopes escolheu João Falcão por uma afinidade pessoal, mas é nítida a certeza: Falcão não é a melhor opção para tal direção. Não há romantismo. Não há poesia e a morbidez de Harold foi substituída por uma “cara de bocó” que o ator rasteiramente trouxe para a cena. E seu grito final – de dor? – poderia ser dado pelos fãs do filme no final da encenação. Infelizmente o filme não existe para locação no Brasil. Lançado em 1971, se tornou cult e alçou Ruth Gordon – a inigualável Maude – a uma figura ligada ao efêmero e completamente desapegada de materialismos.
Lopes acalentou por anos o desejo de montar a peça. Pena que seu feito não resulte em nada novo. Muito pelo contrário, resultou em um produto facilmente descartável e pobre – do ponto de vista cênico. Ilana Kaplan – como Helena Chasen, mãe do garoto – refaz o que sabe, já que é uma ótima comediante, e Glória Menezes acaba sendo hors concours, dada toda a sua trajetória. O destaque fica por conta de Fernanda de Freitas – ex-assistente de palco de Xuxa – que defende com propriedade três personagens engraçadíssimos, demonstrando talento, comicidade e versatilidade. Resultado: ou a peça é ruim demais, ou Fernanda é boa demais. Coisas de Laurinha!
1 ex-puxa-saco da Xuxa com talento
Descuple pela demora, não ia comentar o seu texto, mas depois de um certo tempo pensei melhor, e vou comentar.
Talvez sua sensibilidade precisar ser mais apurada.
O espetaculo Ensina-me a Viver é maravilhoso, foi a melhor peça em São Paulo até a presente data.
A direção e o elenco estão muito bem.
Mais uma vez Gloria Menezes abussou do talento e deu um show no teatro da FAAP.
é a melhor peça do mundo.
arlindo lopes é maravilhoso com a glória menezes actores
A peça é ruim demais.
Olá…
Impossível ler esta crítica e não comentar.
Então.. assisti a peça ontem e simplesmente AMEI!
Iluminação, atores, figurino…
Tudo muito bom.
Diferente de você, nunca assisti o filme nem li o livro.
Porém, já assisti filmes inspirados em livros que não me agradarm tanto quanto o livro.
Por isso, até entendo sua posição.
Mas, temos que considerar que no teatro podemos criar e reinventar.
Foi o que fez João Falcão.
Para todos que ainda não conferiram a peça, assistam!
Vale muito a pena!!!
Glória Menezes não tinha mais nada para provar para ninguém…
Arlindo Lopes… simpático, inteligente, talentoso demais.
Ainda veremos este garoto ir longe:!!!
Ilana, ótima!
Fernanda de Freitas, arrasou!!!
Por fim… todos nós precisamos aprender a viver!
Caro, Rodolfo Lima.
Respeito a sua opinião, porém acho injusto dizeres que “Ensina-me a Viver se tornou uma experiência frustrante: a peça tem cenário de péssimo gosto – composto por tules negros – resoluções óbvias e piegas (como a projeção das margaridas e das imagens de Glória Menezes jovem) e equívocos na trilha sonora, que traz embutido, um batidão a la Britney Sprears.” Abstraia a batida da Britney e se apegue ao belo som da música do Beirut – Rhineland (Heartland).
Ao ler sua critíca percebo que estás ligado a magia do filme e ao texto do livro onde tens uma visão formada.
Ao criticar o espetáculo, deixas de fora uma ferramenta muito importante no teatro que são as asas que dão forças para imaginação ir longe e que faz tudo acontecer em um palco… o cimema tem muitos recursos..o livro tem o melhor recurso que é a mente…
Já no teatro, para se fazer acontecer sem perder a linha contextual tem que se virar e abusar dos recursos disponiveis, e nesta peça tudo está ligado, a luz, a sonoplastia, o cenário e objetos em cena. Tudo clean, leve e homogêneo, A peça continua ludica e sem pretenções de ser igual ou melhor que o filme.
Sou ator assíduo por teatro, assistir a peça em Porto Alegre no Teatro São Pedro, em uma curta passagem minha e te falo que foi uma das melhores experiêcias de minha vida.
Vi o filme e estou lendo o livro. Concordo contigo sobre as alterações das ordens do acontecimento, e te falo que no teatro existe uma coisa chamada “time de feed beck” onde as coisas tem que acontecer como se fosse escrita numa partitura..tem que se ter ritmo, ação, encanto e emoção tudo interligado…. E nesse espetáculo além de tudo está interligado e funcional está homogêneo.
Maude encinou-me a viver e apreciar as coisas mais belas da vida que é enchergar com simplicidade os fatos corriqueiros do dia-dia…
Caros Jéssica e Larlley
Concordo com a colocação de vcs quanto ao teatro ser um veiculo diferente do cinema e da literatura e para tanto é necessário mudanças para se adequar ao palco.
Também concordo com o fato de não ter conseguido me desapegar do filme, que me é tão caro até hoje.
Os textos aqui na Bacantes, se aproximam de um gênero literário chamado resenha, que neste site, pode descambar para um textos mais descomprometido e longe/livre das formas convencionais. Pelo menos é isso o que parece “pensar”, os responsáveis.
Portanto o meu texto não tem a obrigação de ser uma “crítica” – acho que nenhum texto aqui tem esse peso – até porque o “povo” daqui faz o que se intitulam de “anti-crítica”. É apenas um comentário – de um fã confesso – trabalhado para que os responsáveis pelo site aceitasse ele. Tive que adicionar pitadas de comicidade, morbidez e associações esdruxulas. Foi o texto que mais me deu trabalho para fazer.
Meus textos são escritos em primeira pessoa, porque acho que a resenha crítica nada mais é do que uma opinião. Portanto não estou tendo uma visão determinista. Eu achei ruim, mas há quem goste e por ai vai.
Eu realmente não gosto da concepção final da peça. Acho algumas marcações ruins e a peça não me agrada com aquele tom escuro e o Arlindo não me convence. O fato do final ter outra leitura na peça é alguma que acho imperdoável. Faz toda a diferença saber que ela planejou se matar aos 80 anos. E não parecer uma velhinha que esta morrendo, porque Deus quis.
Sei que nas adaptações muitas coisas se perdem e se ganham. Mas o final para mim da peça é inadimissivel. E não gosto do tom cômico da peça. Enfim…
Acho bacana os comentários. Mas… apenas quis expressar minha frustração.
Que bom que Maude permanceu tanto tempo ensinando as pessoas a viver. O fato deu não gostar da montagem, não quer dizer que gostaria de ver o espetáculo prejudicado e tal. Queria questionar e provocar o debate. Ele acabou de ganhar um prêmio de melhor produção carioca.
Minha visão pode ter sido limitada no dia. Mas era a única que eu tinha no momento. Somos assim: Imperfeitos e cruéis. E quem não é?
Olha, eu gostei. Ao contrário de você, não conhecia a história e em 1982 eu estava muito ocupada nascendo. Mas concordo que os clichês imperaram e o resultado disso é que a história ficou sem profundidade e o público ria das subversões de Maude como se ela fosse só uma velha maluca. A cena da morte de Maude ficou mal contada, por conta da sublimação do suicídio. Ela não parava de falar e a última cena perdeu a mão. Mas conheci a história, né? Com certeza, vou ver o filme e ler o livro!
Eu acho q o Rodolfo viu uma outra peça.
Não é possível ver a peça e não se emocionar.
A Glória tá maravilhosa e dá vontade de trazer a sua personagem pra casa.
Assisti duas vezes.
E qdo puder assisto novamente.
Já o filme, comprei depois de ter visto a peça. Achei razoavel.
Achei a peça infinitamente superior.
Vi a peça em um dia, fotografei no outro, chorei nos 2 dias mesmo atrás da câmera. Pouco me importei com o cenário, acho que ele só não atrapalha as belas interpretações que valorizaram um texto magnífico, universal e sempre à frente do seu tempo. O texto é tudo e não foi em nada reduzido nesse bela versão.
As fotos que eu fiz em 2008, hoje são a referência principal da peça na sua divulgação e são a maior parte do livro que foi publicado sobre ela ano passado pelo Arlindo, um garoto corajoso e com talento! Aqui estão elas: http://www.flickr.com/photos/andre-pinnola/sets/72157609894326210/show/