Eu quero ser superficial
Experiência cênica ou jeito chato de mostrar que o teatro tá xoxo
Em obediência à semana das críticas muito curtas, todos os textos publicados nesta semana terão apenas 1 parágrafo.
Primeira parte: o corpo. Mostre tudo o que você consegue fazer com seu corpo. Faça coreografias, vire estrelinhas desengonçadas e, quem sabe, então, você esteja fazendo um bom teatro. Segunda parte: o teatro. Imite as peças mais tradicionais, mostre que você sabe improvisar, reviva por alguns momentos personagens clássicos a pedido da platéia (pra ter um quê de teatro interativo) e, quem sabe, então, você esteja fazendo um bom teatro. Terceira parte: a palavra. Coloque duas atrizes no camarim, dê a elas microfones e peça a elas pra ler um texto de uma forma que pareça que elas nunca leram aquilo antes. Enquanto isso, mantenha no palco somente o cenário, composto por tapetes e mesas, além de um livro e um abajur, ambos capazes de andar. Quem sabe, então, você esteja fazendo um bom teatro. Bem, Eu quero ser superficial, texto de Elfriede Jelinek dirigido por Fernando Kinas, fala mais ou menos disso… deu pra entender? Ok, não é muito fácil. Trata-se – abordando bem superficialmente – de uma busca pelo que é realmente essencial no teatro. Para alguns, nem os atores o são, o próprio texto chega, inclusive, a chamá-los de manchas. No programa, Kinas cita a autora: “Não imagino nada mais absurdo do que colocar personagens vivas num cenário”. Pra resolver isso, a Kiwi colocou as personagens num lugar mais aconchegante: confinadas no camarim, longe dos olhares curiosos. No fim das contas, a “experimentação cênica” – como eles intitulam pra não usar nem peça, nem espetáculo – vale como questionamento, reflexão e só. Não que seja pouco.
2 atrizes trancadas no camarim lendo.
O que você acha?