Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical
That´s Entertainment
Existem aquelas coisas que você sabe onde estão, que sempre estiveram lá e que provavelmente sempre estarão no mesmo lugar. Independentemente de todo este conhecimento, você nunca se dá ao trabalho de ir até elas. O objeto ignorado pode ser um restaurante badalado, a academia de ginástica, um parente chato, um campeonato de equitação, Alphaville ou até mesmo a Estônia… As razões podem ser as mais diversas: falta de tempo, falta de interesse, falta de dinheiro…O mesmo raciocínio vale para espetáculos teatrais: existem algumas peças que estão em cartaz desde o início dos tempos, mas que, por um motivo qualquer, você nunca se prontifica a conferir. Um destes exemplos é Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical, em cartaz no Teatro Maksoud Plaza.
A peça retrata o encontro de duas mulheres com um misterioso homem. Elas têm o intuito de conhecer o Maksoud Plaza e ele se propõe a levá-las em uma viagem pelos grandes momentos musicais que já aconteceram ali. Esta é a deixa para o início dos números musicais, alguns cantados pelos três atores e outros mostrados em vídeo (um telão ao fundo faz as vezes de quarto ator do espetáculo e resgata filmagens históricas feitas no Maksoud, ou momentos históricos de personalidades que por ali passaram).
Nestes momentos, o telão “quarto ator” vira uma poderosa ferramenta de divulgação: mostra diversos takes do belo saguão, os elogios que Frank Sinatra fez ao Maksoud por ocasião do seu show em 1981 e uma hilária passagem de Regina Casé pelo hotel. Somos também informados de fatos curiosos que envolvem a história do local, como o fato de que o Maksoud foi construído em 1976, e que, para tanto, foi necessário derrubar um mosteiro de monjas beneditinas que existia no local desde 1911. Fica evidente então que o espetáculo também é um instrumento de marketing do hotel, pois o público escasso não justificaria a manutenção da peça em cartaz durante tanto tempo.
Entretanto, mais forte do que o caráter institucional, Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical é sobretudo diversão para o público: o espetáculo diverte por duas horas, faz rir e relembra belas canções do passado, obras de Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré e tantos outros que surgiram antes do Créu. Existe também espaço para momentos internacionais: Frank Sinatra, Steve Ross, Alberta Hunter e até cenas de Casablanca e Yentl.
Em alguns momentos a mistura musical fica um pouco exagerada, e corre o risco de desandar: o roteiro liga alguns dos números musicais com muita fragilidade (algumas vezes tem-se a impressão que um número musical está no espetáculo simplesmente porque é bonito) enquanto outros são tão valorizados que beiram o excesso (o telão mostra QUATRO números musicais do show que Frank Sinatra fez no Maksoud em 1981). Entretanto, ninguém parece se importar – muito pelo contrário, pois estamos falando de Frank Sinatra e as músicas encaixadas a “fórceps” no roteiro são gostosas de serem ouvidas.
Fica então a grande questão: Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical não leva ninguém a lugar nenhum, não vai fazer ninguém refletir, não vai mudar o rumo da história. Mas será que esta deve ser a pretensão de toda montagem teatral? Será que um espetáculo não pode existir simplesmente com o propósito de divertir o público?
Atualmente todos queremos mais atenção, mais espaço, mais dinheiro para o Teatro. Talvez isso só possa ser conseguido com uma grande pluralidade de formatos e de propostas de trabalho. Quem ganha com esta pluralidade é o público, que passa a ter diversas opções (do espetáculo que vai diverti-lo ao espetáculo que vai mudar a forma como o mundo pode ser encarado) e, claro, todos os profissionais que vivem do teatro, que passam a ter emprego. Talvez então o teatro também deva, em algumas situações, se dar “ao luxo” de servir de divertimento, de válvula de escape, necessidades que o cinema tem suprido com destaque nas últimas décadas.
Não espere portanto sair de Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical tomado por um ímpeto revolucionário, por crises existenciais ou com uma nova visão do mundo contemporâneo. O que provavelmente vai acontecer é que você vai chegar em casa, procurar na sua coleção de CDs as músicas que você ouviu na peça e se deliciar novamente com a qualidade das letras e dos intérpretes. Por outro lado, se você é mesmo daqueles que sempre precisam de uma causa para lutar, o espetáculo pode até dar uma: lembra do pobre mosteiro que foi derrubado para a construção do hotel? Que tal derrubar o hotel e reconstruir o mosteiro? Se você é partidário desta causa, mande um e-mail para movimento_pela_reconstrução_do_mosteiro_das_monjas_beneditinas@bacante.com.br. Entretanto, se você só quer se divertir, dar umas risadinhas e lembrar de alguns clássicos da música popular, então vá assistir a Emoções que o Tempo não Apaga – Uma Crônica Musical.
1 bom motivo para vencer o medo e ir conhecer a Estônia.
O que você acha?