No Retrovisor

Críticas   |       |    6 de agosto de 2007    |    1 comentários

O passado na cara

Foto: Lenise Pinheiro

“Podem continuar conversando, ainda não começou”, fala Marcelo Serrado para a platéia enquanto faz anotações em um caderninho na beira do palco. Depois de risos dos espectadores – alguns empolgados com a presença do ator Record/ex-Globo (só uma dúvida: se ator da Globo é global, da Record é o que?) -, ele se levanta com seu violão e começa a cantar hits pop antigos, como músicas do Blitz e do Cazuza. A platéia o acompanha nos refrões e, nesse momento, o clima lembra um show da banda “Os Impossíveis”, que o ator/cantor mantém com outro ator/cantor/músico/galã Marcello Novaes. (Não que já tenha visto uma apresentação dessa banda, mas imagino que seja algo assim).

Após uns três hits incompletos, entra em cena o outro intérprete, Otávio Muller, também conhecido por alguns trabalhos na televisão. Contudo, Otávio ainda não teve a honra de participar de uma cena de impacto com Regina Duarte, como Serrado na novela Por Amor. No dueto mais polêmico da Soap Opera, o ator mostrou que é mesmo um astro na dramática cena da troca de bebês. Após o musical, os dois então começam um joguinho de improvisação e mímicas, como se fossem atores cômico amadores, sempre com uma tímida interação com o público (que adora) – como perguntar qual nome o personagem poderia ter, ou pedir uma bolsa para uma mulher na platéia e criticar os atributos estéticos do objeto.

Toda essa longa introdução precede a história do reencontro de dois amigos, jovens e idealistas, separados após um desastre de carro, na peça No Retrovisor, com texto de Marcelo Rubens Paiva e dirigida por Mauro Mendonça Filho, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Na narrativa, Ney (Marcelo Serrado) fica cego e vira cantor romântico popular, enquanto Marcos (Otávio Muller) vive do passado e leva uma vida medíocre de bancário, casado e com filho pequeno.

Com o reencontro, os conflitos que ficaram abertos no passado reaparecem e os dois precisam resolver as diferenças, com muito humor negro e referências à cultura popular brasileira recente, como novelas, teatro, Débora Bloch e Andréa Beltrão. Surge também uma nostalgia do tempo da juventude engajada e anarquista, que cultuava Legião Urbana e lutava por um ideal sempre muito longe de ser atingido. Com isso, a reflexão: um deles virou um alienador de massas, por meio de suas músicas com letras de amor, enquanto o outro ainda é um sonhador pobre cujos ídolos são dos anos 70 e muitos nem mesmo estão vivos.

Somando a temática dessa juventude libertária ao tratamento da deficiência física de forma leve, mas ao mesmo tempo com bom humor, podem-se ver as características fortes do texto de Marcelo Rubens Paiva. Essas marcas aparecem também em livros do autor como, por exemplo, Feliz Ano Velho, uma autobiografia em que faz relatos da sua puberdade e de como ficou paraplégico após pular de cabeça como o tio Patinhas (como ele diz no próprio livro).

O extenso prólogo descrito no início do texto, que aparentemente não tinha conexão com o resto da peça, na verdade era um exemplo da atividade exercida pelos dois personagens antes do acidente – eles eram uma dupla de artistas cômicos que faziam performances e intervenções, aparentemente para tirar as pessoas do cotidiano e não só para ficarem famosos e comerem tietes e atrizes. Porém, o trecho aparece com um humor de fácil identificação, que lembra até o extinto Sai de Baixo e o novo Toma Lá, dá Cá, ambos com o multimídia Miguel Falabella .

O espetáculo, aliás, se excede um pouco ao tentar provocar o riso apelando para esse tipo de piada fácil, como imaginar uma transa com artistas da MPB (Bethânia, Gal Costa, Ângela Ro-Rô), imaginar transas com atrizes da antiga geração do teatro (Débora Bloch, Andréa Beltrão), imaginar transas com atrizes da nova geração do cinema (Fernanda Torres, Cláudia Abreu), imaginar transas com Cazuza, fazer referências a novelas mexicanas, Malhação (nessa hora o público, sempre feliz em participar, citou também Pedro, o Escamoso) e piadinhas com a crise aérea brasileira.

Deu para perceber que a platéia não estava muito habituada ao teatro e sim aos atores, quando eles começaram a dar referências de diretores teatrais: Felipe Hirsch, Antunes Filho, Gerald Thomas e o “evoé” de Zé Celso despertaram poucas manifestações dos espectadores presentes, muito diferente das piadinhas com novelas – quando o público morreu de rir. (não darei detalhes dessa parte, porque, não é um dos melhores momentos, mas é uma das melhores piadas da peça).

Se ao ler essa resenha deu a impressão de que tem muitas coisas misturadas que vão e vem, assuntos entrelaçados, referências diversas, um certo tumulto, e é longo, fique tranqüilo, a peça também é assim. Depois de aproximadamente duas horas de encenação, todos esses elementos desordenados não deixam perceber no momento se a peça é boa ou não, mas que, pelo menos, dá para entreter.

Adendo: Novamente o público merece um comentário a parte, apesar de já ter sido muito citado no texto. Animados pela presença dos atores, a platéia gritava e ria muito nos momentos de intervenção moderada, quando os personagens falavam com o público. Contudo, o pior foram os comentários ouvidos durante a apresentação. Acho que como estavam acostumados a vê-los em novelas, a platéia deveria pensar que podia comentar alguns fatos como se estivessem em suas casas, diante da televisão. O extremo aconteceu quando o personagem cego tocou o rosto do amigo para reparar como este havia envelhecido, e tocou mais demoradamente a boca dele. Nesse instante, a menina atrás de mim, achando que os dois fossem se beijar, soltou um sonoro “ichi!!!”.

30 referências populares + uma platéia chata

'1 comentário para “No Retrovisor”'
  1. Valmir disse:

    Não sei se é de bom tom comentar em todas as resenhas, mas já que comecei: putz, eu ia assistir essa peça. Ainda bem que não fui. Tks, Leca.

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