O Sacríficio

Críticas   |       |    29 de setembro de 2008    |    7 comentários

Sobre o amor e a política

A adolescência, fase de principal transição na vida, talvez seja a época da existência humana que mais gere conflitos. Se é conhecida por epítetos como “aborrescência” e provoca temor entre os pais, é porque, antes de ser um constante embate entre o sujeito e o meio, é um conflito interno travado diariamente. Oh, o ser ou não ser da adolescência, declamado frente ao espelho por espinhentos Wagners Mouras (sem precisar pagar oitenta paus por isso). As cobranças impostas pela sociedade, como definir uma carreira profissional e se firmar como indivíduo, são um fardo quase impossível de se carregar para quem não foi preparado para ter tamanhas responsabilidades.

Algumas escolhas, mais do que em qualquer outro momento da vida, determinam grande parte do futuro e é provavelmente por isso que os adolescentes tendem a agir de modo esquivo frente a pequenas opções, tomando-as de modo quase displicente, já que algumas podem ser facilmente revertidas. Fase, acima de tudo, de descobertas, enquanto a sexualidade está ainda em desenvolvimento (e para alguns ainda rolam uns troca-trocas), é natural que não haja muito comprometimento no trato com o amor, resultando em certa volubilidade.

Na época em que viveu Shakespeare, ainda, passava-se quase que automaticamente para a idade adulta, com cobranças de uma maturidade que alguém daquela faixa etária não poderia ter. Não é de se estranhar, portanto, que as personagens-título da peça Romeu e Julieta – ela, às vésperas de completar catorze anos; ele, em idade próxima; dois pequenos bebês, enfim –, sejam tão inconstantes. Ele, que infernizava os amigos (o mala da turminha de Verona) com as dores de uma paixão não correspondida, esquece por completo a amada Rosalinda no momento em que conhece Julieta. Na mesma noite, os dois juram amor eterno um ao outro e, logo, planejam matrimônio, tendo ela declarado dias antes sua intenção de não se casar. Embora versões modernas da peça, como o filme dirigido por Franco Zeffirelli – aquela coisa melosa, com trilha de novela da Globo –, tenham idealizado a relação dos dois amantes, eles se aproximam de modo impulsivo e talvez só não tenham se separado porque morreram em seguida. Esta frivolidade dos dois jovens é importante, principalmente, como forma de crítica à disputa mesquinha entre suas famílias. O trágico fim do casal parece ser mais um ato precipitado em face de uma proibição – a de se relacionarem, imposta pelos parentes de ambos – do que uma solução heróica para um grande amor.

Seguindo, ao que parece, o mesmo raciocínio, O Sacrifício, espetáculo adaptado da peça de Shakespeare, é permeado por um tom adolescente. O texto de Fernando Bonassi – criado a partir de um processo colaborativo – atualiza expressões e insere gírias correntes entre a juventude atual, dando à linguagem verbal a mesma coloquialidade das letras dos raps que compõem a trilha de Eugênio Lima. Afinal, hoje em dia o que mais existe é adolescente metido a mano, burguesinho achando que é de perifa. Na encenação dirigida por Cibele Forjaz, há um elenco jovem (o Núcleo Experimental do Sesi – realizador do espetáculo – escolhe os atores através de um edital em que os candidatos devem ter no máximo 25 anos), e isto é trabalhado como se a faixa etária fosse um dos critérios de seleção dos atores, pois não apenas não há mascaramento de sua pouca idade, como, pelo contrário, todas as personagens são interpretadas com o modo juvenil que é próprio destes intérpretes. Há adereços – constitutivos do figurino criado por Simone Mina – que remetem a este mesmo universo, como mochilas, mas é especial elemento o par de asas que usa Romeu, sátira crítica desta visão idealizada que se difundiu ao senso comum, que, através da paródia, demonstra a superficialidade das intenções da personagem. O jovem Montéquio fica quase uma gazela voadora no cio. As personagens-título são interpretadas por diversos atores, em sistema de rodízio, o que dá ênfase mais à ocasião em que se inserem do que a suas individualidades. A relação não se concretiza porque são Romeu e Julieta. Não precisariam sê-lo, pois entende-se que não são almas gêmeas, metades da mesma laranja, dois lados da mesma moeda, uma panela e sua respectiva tampa, um chinelo gasto para um pé recalcado, feitos um para o outro… ufa… mas apenas dois jovens entre os quais houve atração. No fim tudo se resume a hormônios e belos peitinhos.

Com figurinos que têm a versatilidade de vestir qualquer personagem, o desenho predominante dos protagonistas é o da ingenuidade deslumbrada, e é justamente por estar tão claro que deixa à mostra uma grande desigualdade no elenco. A intenção parece se cumprir com alguns atores que fazem suas declarações inflamadas, com a alegria inocente de quem crê ter achado o amor de sua vida, deixando vislumbrar a ilusão quase tola. Suas interpretações entregam-se a seu amor com tamanha facilidade, que vemos nitidamente sua leviandade. Outros intérpretes, porém, caracterizam os amantes com timidez e insegurança – talvez reflexo da sua própria insegurança de estar em cena –, que não condizem com a concepção exaltada do espetáculo.

Toda a volubilidade adolescente serve de reforço à crítica às famílias Montéquio e Capuleto, no sentido de atribuir a elas a maior responsabilidade pelo fim dos amantes. Por isso, esta montagem amplia também a questão do poder nas duas casas, que aparece em passagens importantes do texto. É exemplo disto o tratamento dado à cena em que Julieta declara sua falta de vontade para casar-se, enquanto os pais lhe arranjam um marido. Posta como uma boneca que vai sendo vestida e manipulada pela família, é componente representante do autoritarismo que até hoje rege sociedades e casas patriarcais. E não é só no nordeste e nas peças do Suassuna que isso acontece. Ao identificar os parentes de Julieta como burgueses conservadores e os de Romeu como burgueses liberais, entretanto, o espetáculo banaliza uma oposição que cindiu a revolução que deu início à Idade Contemporânea.

“Danton comia, o que é que ele comia? …uma cenoura. […] E o meu amigo Robespierre, onde estás? …de cuecas.”
– trecho da canção Revolução Francesa, de Aguilar, Paulo Miklos e Flávio Smith.

No texto de Shakespeare, são misteriosos, antecedendo o tempo da peça, os motivos que levaram as duas famílias ao ódio mútuo e é essa indefinição que dá a idéia de mesquinharia e veleidade à briga. São iguais que, imagina-se, alimentam a discórdia apenas por não simpatizarem uns com os outros. Estas fúteis razões terminam por ser responsáveis pela morte de um Montéquio e de uma Capuleto, o que provoca, ao final, a redenção que leva a paz à cidade de Verona. Ao criar uma oposição política, parece criticar a disputa entre diferentes ideologias, visão simplista que, embora proponha algo positivo – que elas coexistam pacificamente –, ignora que têm, acima de tudo, de continuar lutando pelo sistema político em que acreditam. Tipo, a gente sabe que Maluf e tucanos são farinha do mesmo saco, mas não dá pra pedir uma união definitiva (aliás, provavelmente seria bem pior). Enquanto uns querem vender o Brasil, o velho quer construir vinte mil avenidas e pontes (afinal “foi eu que fiz”). E devem mais é continuar disputando mesmo – e perdendo sempre, ou se matando, como faziam em Verona.

0, o preço do ingresso, também oitenta paus mais barato que o outro Shakespeare.

'7 comentários para “O Sacríficio”'
  1. astier basílio disse:

    Querido Kiko,
    muito bom ler vc aqui.
    Bom,
    vc me fez pensar umas coisas.
    Vc me deu umas perguntas.
    Estou te devolvendo as perguntas
    q vc me deu com o texto,tá?
    Olha só.
    Quando vc diz: “(…) é componente representante do autoritarismo que até hoje rege sociedades e casas patriarcais. E não é só no nordeste e nas peças do Suassuna que isso acontece”

    Quando vc diz “Nordeste”, onde “o autorismo” “rege sociedades e casas patriarcas”, vc está se referindo a qual Nordeste? Ao Nordeste litorâneo, invadido por gringos que vêm aqui para turismo sexual ou exploração imobiliária? “O” Nordeste, assim, como algo uniforme, homogêneo, não existe mais e talvez nunca tenha existido. É só dar um pulo aqui pra ver. Ou até ver nossos artistas de hoje: a música de Siba e Fuloresta, Star 61; o teatro do Bagaceira, Coletivo Angu; as instalações de Fabiano Gonper; o cinema de Cláudio Assis; a literatura de Jomard Muniz de Britto.
    Mesmo o sertão, a região interiorana do Nordeste já está contaminada de índices urbanos e de costumes das cidades grandes.
    E mesmo qdo vc fala na peças de Suassuna, sinceramente, o teatro dele está muito,mais muito além da representação mais conhecida dele, via Guel Arraes/ Rede Globo. Basta você ler “A Farsa da Boa Preguiça”, em que Ariano desconstrói ironicamente muito dessa perspectiva de “Nordeste puro, autêntico”.
    É isso.
    Abraço e quando vier à Paraíba, sinta-se em casa.

  2. Kiko Rieser disse:

    Bacana, Astier.
    O que quis dizer com “o Nordeste” foi talvez a mesma coisa que você: que isso não existe. Foi na verdade uma contraposição ao preconceito de quem vê isso assim (incrivelmente, depois da morte do ACM, tenho ouvido muito menos). Sempre se ouve muito que o Nordeste (às vezes a referência é explícita à Bahia) ainda é totalmente coronelista (será essa a palavra?). Há uma colocação que se generaliza e que também faz vista grossa para o interior de talvez todos os outros estados brasileiros. Por isso disse que não é só aí que isso acontece.
    Quanto às peças do Suassuna, conheço o homem muito mais pelo que ele escreveu do que pela Globo (aliás, só vi o filme do “Auto da Compadecida” – me parece que teve uma série também, mas não vi), mas só quis fazer uma piadinha. Existe muito disso, sim, nas peças dele (não conheço essa que você falou). Mas também é uma brincadeira dirigida a quem acha que ele é só isso.
    O Siba é genial, o Cláudio Assis faz coisas bem interessantes (embora um pouco questionáveis), já ouvi muito falar do Bagaceira e do Angu, mas os outros, ignorantemente, desconheço por completo. Mas ainda há muitos outros exemplos do passado (não me ocorre nenhum do presente): Raulzito, Glauber, etc.
    Viva o nordeste.
    Obrigado e grande abraço.

  3. Astier Basílio disse:

    beleza, Kiko,
    entendi o q cê quis dizer, sim.
    Abração pela resposta
    e a oportunidade
    de diálogo.

  4. Caio disse:

    Quando vi a peça algumas coisas me incomodaram, e não sei se o incomodo foi só meu ou geral . então socializo a fim de saber se tenho compania no meu incomodo:

    1- quando o romeu e a julieta se casam uns atores entregam um punhado de arroz pra gente jogar nos recém casado . só que quando eles terminam de entregar o punhado de arroz a cena já acabou e ai ce fica sem saber o que faz com aquele punhado de arroz.

    2- Depois eles entregam um papel e um lápis e pede para a gente escrever o nosso maior desejo . Ai vc fica muito tempo com aquele papel e aquele lapis na mãe até que num determinado momento eles recolhem e depois não é mencionado em momento algum os papeis .

  5. Kiko Rieser disse:

    Caio, sobre o primeiro momento, não lembro exatamente, mas me parece que, quando recebemos o arroz, eles já se casaram memso, porém é então que eles fazem o típico “desfilezinho”, que é quando sempre se joga arroz (nunca durante a cerimônia – imaginou o noivo não conseguindo dizer o famoso “sim” porque engasgou com um graõzinho de arroz?). Quanto ao papel, sim, a gente fica muito tempo com ele na mão, mas no final eles amarram todos nos balões. Alguns são soltos por eles no céu da Paulista e outros ficam lá, caso queiramos fazer o mesmo.

  6. Samuel disse:

    Kiko,

    estou aqui para fazer uma coisa feia. Já é tarde e meus olhos doem de cansaço, quero dormir. Por isso ainda não li sua crítica. Mas nem sequer entre aqui pra isso. Hoje por acaso fuçando por aqui vi seu nome e pasmei. Sabe que pasmei. Mas pensei: legal, depois volto pra ler com calma. Então, alguns minutos depois a Nádia me disse que era o dia do seu aniversário. Tentei de diversas maneiras te enviar meus parabéns, mas, não sei, você realmente sumiu. Não consegui estabelecer contato por outro meio que não esse.
    Me perdoe, me perdoem por usar o espaço para esse recado particular mas, parabéns Kikote, muitas felicidades. Gostamos muito de você e sabemos de todo o seu potencial. Faça dessas palavras minhas e da Nádia, ja que, provavelmente ela tambem não deve ter conseguido tão facilmente te contatar. huahua
    Então, é isso.
    Grande Abraço

  7. Kiko Rieser disse:

    Samuquinha, que felicidade lê-lo.
    Muito obrigado pelos parabéns!
    A Nádia conseguiui falar comigo, sim. Mais ou menos, na verdade. Ela me ligou, mas eu tava num lugar barulhento e a ligação tava ruim, então não a ouvi direito.
    Mas não sumi, não. Só deletei o orkut, mas ainda tenho MSN, e-mail, telefone (ok, acho que vc não tem meu número, ams a Nádia tem), etc. Você que sumiu, rapá! Achei que vc ainda tava ensaiando a peça em Barão (aliás, estranhei muito vc não ter mais procurado a gente), mas a Nádia me disse que vcs já apresentaram e enterraram o espetáculo (e nem chamou a gente, tsc, tsc, tsc). Quero saber mais notícias, mas pra isso te escreverei um -email. Só tô respondendo por aqui porque achei realmente engraçado e ótimo. E, sei lá, quem sabe algum leitor aproveita e me dá parabéns (agora atrasado, ams tá valendo)…. Hahahahaha.
    Abração.

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