Mi muñequita

Críticas   |    and    |    8 de março de 2009    |    0 comentários

Uma história que parece ser, mas não é

mi-munequita

Foto: Divulgação

Menina atira em mãe que matou e esquartejou marido que matou à queima roupa irmão que abusou sexualmente de sobrinha – esconder o trágico de uma história como esta é uma tarefa um tanto complicada. Este, no entanto, é o delicado desafio ao qual o espetáculo Mi muñequita aparentemente se propõe. A trágica história de La Nena, uma menina que vive a decadência de sua família, nos é contada por meio de um show de variedades bizarro, em que cada personagem é uma estrela e cada acontecimento privado é uma atração que sempre promete um emocionante próximo episódio.

A montagem, dirigida pelo catarinense Renato Turnes, foi contemplada pelo primeiro (e talvez último) edital de Artes Cênicas da Fundação Cultural de Florianópolis Frankilin Cascaes. A peça estreou no chuvoso mês de novembro de 2008 no teatro da UBRO, na capital catarinense, junto aos outros espetáculos contemplados pelo prêmio (Socorro e A galinha degolada) e iniciou o ano de 2009 com uma pequena temporada no Teatro Álvaro de Carvalho, também em Florianópolis. O texto é uma adaptação do original do diretor e dramaturgo uruguaio Gabriel Calderón que obteve grande sucesso de público e crítica no Uruguai e pela primeira vez foi encenado fora de seu país de origem.

Na montagem brasileira, desvendando a cruel história de La Nena e sua família em formato de programa-de-auditório-reality-freak-show-novelesco, a peça se revela um jogo obscuro e ambíguo, na medida em que toda sua primeira imagem (colorida e organizada), como uma máscara, parece carregar por trás sua verdadeira face (trágica e incontrolável). Configura-se, desse modo, o que poderíamos chamar de uma espécie de dispositivo grotesco em que se trabalha a partir de dois planos de contraste: o da máscara, funcionando como uma realidade altamente codificada (típica de um show, da mídia), e o da face, reprimido e submetido ao oculto, de modo que a circulação do que seria a “verdade” (a tragicidade da história da menina) seja inicialmente impedida.

A idéia para que se concretize uma imagem grotesca, parafraseando o diretor argentino e também estudioso do grotesco Guillermo Cacace, é que, como força latente, o oculto exerça constante pressão sobre o plano da máscara, influindo sobre a imagem final, uma imagem conflitiva, que não encontra sua síntese devido à incoerência dos dois planos que se sobrepõem – aí descobrimos o grotesco, que desperta sua energia na tensão entre dois extremos.

No entanto, apesar de aparentemente a peça estabelecer essa imagem conflitiva, pouco dela se converte em experiência sensorial e cognitiva para o espectador. Quando dois planos opostos se sobrepõem, a sensação gerada deve ser a de algo semelhante a um constrangimento, um incômodo. Porém, onde está o desconforto em Mi muñequita? Os mais sensíveis podem até dizer: no abuso do tio sobre a sobrinha, nas mortes, na boneca desbocada… todas questões presentes no texto e não tanto na cena. Bom, se algo não pode estar preso apenas a um plano de idéias esse algo é o teatro, é preciso que as idéias encontrem equivalências presenciais para que seus efeitos sejam vivenciados, sentidos, refletidos, devorados ou seja lá o que for.

As referências pop presentes na estética da peça, como a novela mexicana, a apresentadora infantil freak e o filme espanhol Cria Cuervos criam um ambiente peculiar envolvente, mas que pouco a pouco é consumido pelo exagero. Exagero este que ao invés de saturar para a revelação do oculto apenas satura o ritmo das cenas. Começamos a ansiar por ver, ao menos em flashes, o outro lado daquelas figuras (a ausência da máscara). Não apenas a idéia do oculto, a ladainha da história “ah, o tio seduz a sobrinha, o pai mata o tio, a mãe mata o pai etc”, mas a face verdadeiramente cruel dos personagens – um tio parasita, uma mãe perturbada e infeliz, uma menina solitária e um pai passivo-agressivo.

Toda a peça, em conteúdo e forma, deixa-se contaminar por seu invólucro plástico tão bem construído e, desse modo, cai em sua própria armadilha. A imagem grotesca é iminente, mas não chega a suceder, porque o cruel, o constrangedor, o patético, aquele plano sobreposto pela máscara, não encontra frestas por onde transbordar, é tapado pela cueca que esconde a nudez, pela piada que não pode ser perdida, pela insinuação sexual que não acontece concretamente…

É preciso reafirmar que a idéia de uma história que “parece ser, mas não é” está clara na peça, por vezes até pode ser sentida na poltrona do espectador, mas merece ser reelaborada pelos atores e pela direção para além das boas intenções. É bem possível que seja uma questão de amadurecimento e ajuste, visto que em alguns momentos o espetáculo alcança lugares distantes da superficialidade da imagem como, por exemplo, na presença sutilmente assustadora da boneca morta-viva, no monólogo direcionado ao público em que La Madre sustenta um depoimento entre comovedor e patético, nas inusitadas intervenções de El Presentador, transformando situações complexas em simples comentários sensacionalistas, entre outros.

A sensação final é que Mi muñequita apesar de bem executado, por vezes, se perde em um universo excessivamente plástico, beirando à assepsia. O resultado é uma tragédia cuidadosamente embalada a vácuo e que, portanto, ainda corre e representa pouco risco de contaminação.

1 boneca que odeia água. 535,8 milímetros de chuva em Florianópolis.

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