O Direito à Preguiça, ai que sono ou eu convido você!

Críticas   |       |    29 de novembro de 2015    |    2 comentários

Primeiro, sobre o jogo (ou “eu convido você”!)

É delicioso escrever para a Bacante tanto tempo depois para conversar sobre uma peça chamada O Direito à Preguiça. Não só porque existe hoje uma leveza na minha escrita, nem só pelas questões divertidas e tretas que a peça joga no mundo, mas principalmente, é preciso dizer, porque não consegui resistir ao trocadilho. É isso. Vou usar o direito à preguiça pra justificar (blá! precisa justificar?), ou melhor, pra brincar com a semana-do-saco-cheio-de-três-anos do nosso coletivo de crítica.

Foi assim. Após debates e mais debates, cachaças, mais de 500 publicações, vídeos e áudio jamais editados, processos judiciais, briguinhas e cervejinhas diversas, festivais, polêmicas e, principalmente, muitos encontros fora do esperado com pessoas fora do esperado (ah, e um pouco de teatro também), acabou que deu preguiça. O trabalho da escrita para gerar conversa sobre teatro foi ficando cada vez mais demoraaaaaado. E fomos parando paraaaando paraaaaaaaaando até parar. Alguns foram filosofar, outros dançar por aí, alguns abriram cafés, outros trocaram de corpo, alguns sumiram do mapa, quase todos foram pedalar, alguns continuaram fazendo teatro, outros só falando de teatro, outros só vendo, outros nem vendo muito.

Daí acontece que, de repente, me formei. Agora, novembro de 2015. E lembrei que quando me formei na primeira graduação em 2008, começou o ano em que mais fiz coisas pela e para a Bacante: 2009. Porque tinha tempo e podia gastar pra ver teatro e conversar. Depois foi tudo ficando pesado e talz. Então, como o que continua me interessando mais que tudo no teatro é o jogo – e como sempre falamos aqui que a crítica devia ser, em si, algo como uma criação, uma invenção, algo como arte, algo como uma obra – pensei: algo como um jogo!

Esse texto sobre O Direito à Preguiça quer ser o começo de um novo jogo de retomada da Bacante. Segue a proposta das regras (prometo que, na sequência, tentarei escrever sobre a peça em si):

1. Uma pessoa publica na Bacante alguma COISA sobre teatro – algo que pode ser texto crítico, piada, quadrinhos, crítica, provérbio, piada, sonho, foto, dramaturgia, vídeo, piada, performance, putaria, piada.
2. No fim da sua coisa, a pessoa convida outra pessoa para ser a próxima a publicar, preenchendo as lacunas da frase: “essa é a coisa de ________________ [preenche com seu nome]. Agora, convido ________________ [preenche com o nome da próxima pessoa desafiada].
3. A próxima pessoa tem uma semana (sem bulin) ou duas semanas (com bulin na segunda semana) para publicar sua coisa e indicar quem será a pessoa seguinte.
4. Se a pessoa não publicar coisa nenhuma nesse tempo, ela será punida.
5. Sempre é possível furar a fila. Ou seja, se qualquer pessoa com mais tempo livre mandar sua coisa antes da pessoa convidada, já é. Também é possível passar a vez, desde que com justificativa por escrito.
6. É permitido convidar pessoas que ainda não são da Bacante.
7. Não é permitido recusar um convite tão amoroso.

 

Agora, sobre a peça em si

preguiça

foto: Daisy Serena

 

O Direito à Preguiça é uma das peças que compõem a Trilogia da Necessidade, do Coletivo Dolores (é, aquele do petróleo na cabeça no prêmio Shell).

Três montagens, três núcleos de criação, três experiências de linguagem teatral, três necessidades roubadas de nós pelo nosso “jeito-de-viver”: comer, dormir, trepar.

Começaram com trepar, que cumpriu temporada com o nome PUTO – um ato poético, em julho de 2015, como a primeira paquera do Dolores com o monstro do pós-dramático.

Agora, chegou a hora de dormir, que estreou em novembro de 2015 e fica em curta temporada até 13 de dezembro. Por sua vez, O Direito à Preguiça dorme com o teatro de rua – o que não é exatamente novidade em um grupo que sempre trabalhou em espaços não-convencionais (o novo nome de alternativo que ano que vem terá um novo nome e assim vai) e fez uma coisa maluca chamada I Festival de Teatro Mutirão (que não vou explicar agora, mas é tipo acampar numa praça duas semanas e ali fazer teatro, sexo, banho, monumento, número 1 e número 2 todo mundo junto). Talvez fosse melhor dizer que O Direito à Preguiça dorme com a cultura popular e, nesse aspecto, me parece a experiência teatral mais arriscada e radicalizada do Dolores até agora (não vamos comparar com a experiência global do I Festival de Teatro Mutirão ali de cima que é covardia).

Pra não entrar em muitos detalhes sobre os quesitos carnavalescos (luz-incidental-azul-balada… 10!; atuação dos cachorros da vizinhança… 10!; trilha sonora minimalista… 10!; máscara de Mister M… 10!; indicação ao prêmio bacante 2016 de melhor ator de plástico para o Seu Zé do bar… 10!; atuação remota do convidado especial Amaury Junior… 10!), fico com um: a relação com o público. O que começa no bar-busão-casa-de-shows-ao-ar-livre La Pacata com uma interação musical avança para uvinhas na boca oferecidas por um anjo e depois para uma pessoa escolhida para interpretar um “baixinho” do programa da “Bruxa”, conduzido pela “Pacata” e pelo “Baratão”. Pode avançar mais. O humor da rua, do teatro que se faz na relação com quem passa, que se faz sem portas, sem ingressos, sem poltronas, permite e pede que o público esteja junto, faça parte, seja convocado, esteja presente das mais diversas formas. E, mais do que em qualquer outra opção estética que se fizesse, essa relação tem chances de acontecer de forma direta, corajosa e constante. É pena que a temporada é curta (quase fiz a piada de que ficaram com preguiça de fazer mais apresentações, mas essa piada seria muito ruim, então achei melhor não fazer), mas a impressão que tive foi de que, com mais estrada – mais rua, mais chão, mais poeira, mais coragem – os atores poderão ganhar em presença e presentear o público; poderão criar corpo e cara de pau para ousar mais nesse aspecto e, literalmente, chegar junto.

 

Vamos ao que interessa… parar de produzir.

Você consegue parar de produzir? (Eu sei que a resposta é não, mas vou continuar) Você consegue parar um minuto na sua vida e ficar sem produzir nadinha de nada? Você consegue fazer isso sem culpa?

Paul Lafargue, em seu Direto à Preguiça (olha! dá pra ler na internet!), escrito em mil oitocentos e bolinha, alertava para essa treta e mapeava a origem e o fim dessa lógica perversa que te impede de dar aquele cochilo delícia sem culpa porque não está produzindo valor. Pior, que te impede de decidir como usar seu corpo e seu tempo. No limite, te impede de relacionar-se consigo e com os outros. Nada de individualidade, nem de coletividade, amigo, pois não há tempo – todo o tempo está para produzir a riqueza de uns.

Baseados nesse livro e procurando um monte de outras referências, os artistas oferecem um panorama histórico e depoimentos atuais sobre como nossa força de realização e vida é roubada. Pois bem. Colocar o trabalho como vilão, no entanto, incomoda, de um lado os cristãos de formação – o pessoal não-praticante do deus-que-ajuda-quem-cedo-madruga (mas curiosamente o madrugueiro continua pobre), e de outro os marxistas de formação.

Desde o ensaio aberto do processo da peça, realizado em 2014, o público e os próprios Dolores se questionam – qual trabalho? Haverá o trabalho que é ação do homem sobre a natureza e produz cultura etc etc etc como realidade ou apenas como um horizonte utópico quase religioso num tempo em que tudo que fazemos vira produção de valor, mercadoria, riqueza excludente, exaustão desmobilizadora e tal (até aquele videozinho fofinho do seu gato besta que você publicou no Youtube).

A peça nos apresenta, em seu panorama histórico, os dois desenvolvimentos: o religioso, num paraíso divertidíssimo em que Eva manda um Adão machista catar coquinho, e este é finalmente castigado com a necessidade de trabalhar; e o histórico, em que acompanhamos a revelação do Mister Mercadoria sobre com quanto trabalho escravo se faz roupas de marca caras.

A dificuldade está posta. O trabalho foi apropriado. A preguiça foi proibida. E agora?
Aí, onde costumamos parar, no “Ih. E agora?”, a peça responde com a perda da paciência dos trabalhadores. Conhecemos a anunciada perda da paciência no teatro. “Quando os trabalhadores perderem a paciência…”. Eu vi a primeira vez numa peça da Brava Companhia. E pra quem quer ver inteiro, tem o poema aqui, lido por seu autor e é bem dahora.

Mas é que, né? Quando? Quando os trabalhadores perderemos a paciência? E, no teatro, parece que já não sabemos sair dessa saída de anunciar pacientemente, dia após dia, a perda da paciência…

Agora, ainda sobre produzir, não produzir, dormir, não dormir, e o roubo do nosso trabalho e da nossa preguiça, um livrinho doido me chegou indicado por amigos doidos. É o 24/7 – Capitalismo e os Fins do Sono, do Jonathan Crary (dá pra ler um pedaço aqui pra conhecer), um maluco que conta como o Pentágono atualmente estuda passarinhos que ficam sete dias sem dormir para tentar criar o “soldado sem sono” e ganhar guerras. E como a privação do sono é tortura de guerra desde muito tempo. Ele também conta que do começo do século XX pra cá, perdemos na nossa média de sono diária nada menos do que 4 horas! A média era 10, caiu pra 6. Fala das anfetaminas, toca no problema da insônia (mais uma doencinha beeeem natural, que não tem naaaaaada a ver com nosso jeito-de-viver, é só um probleeeeeeema de cada corpo, uma treta individuaaaaaaaal). E, finalmente, celebra o sono como última fronteira, a última possibilidade de resistência à lógica de um mundo em que tudo é 24/7.

Trabalhadores do mundo, durmamos!

[Até porque, quando o gigante acorda, sai de baixo!]

Então é isso, gente? Desacelerar? Dormir mais? Produzir menos? Menos correria, mais leveza?

[essa semana conheci uma colega de trabalho que é vigilante em dois empregos e faz turnos de doze horas todos os dias. vai sair de um dos trampos pra pegar o fundo de garantia para reduzir o valor da infinidade de parcelas de sua casa própria. E, depois, muito provavelmente, pegar outro trampo, de novo, nas horas “vagas”, pra continuar pagando as parcelas. Isso significa dormir 1h e acordar 5h, diariamente)

Então é isso, parceiros? Desacelerar? Dormir mais? Produzir menos? Menos correria, mais leveza?

[na minha vida e de vários queridos próximos, a tônica é desacelerar, parar de correr pra ver se ainda conseguimos fazer alguma coisa direito nesse mundo. Parar de atender ao tal do tempo do Capital e procurar o tempo do convívio e do vínculo. tem sido difícil.]

Então é isso, parceiros? Desacelerar? Dormir mais? Produzir menos? Menos correria, mais leveza?

Será?

(por enquanto, é isso, gente, tô só perguntando mesmo)

7 bocejos de dúvida

***

[Essa é a coisa da JULI. Eu convido ASTIER]

'2 comentários para “O Direito à Preguiça, ai que sono ou eu convido você!”'
  1. “Mas é que, né? Quando? Quando os trabalhadores perderemos a paciência? E, no teatro, parece que já não sabemos sair dessa saída de anunciar pacientemente, dia após dia, a perda da paciência…”

    Essa paciência parece que não termina, né? Tá meio foda encontrar esses trabalhadores aí que deviam já ter perdido a paciência, mas ainda não rolou.

    E ainda sobre o tema geral da crítica, uma pena que não dê pra postar imagens aqui. Fica o link e a transcrição, pelo menos: https://acasadevidro.files.wordpress.com/2015/09/11.jpg

    “O trabalho é a Essência do Homem porra nenhuma. A atividade talvez seja, mas trabalhar, não”.
    Eduardo Viveiros de Castro na exposição do Sesc Ipiranga.

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