Villa + Discurso

Críticas   |    and    |    15 de janeiro de 2012    |    5 comentários

Villa + Discurso

Depois de um longuinho trajeto de ônibus, chegamos ao recém inaugurado Parque de la Memoria – Monumento a las Víctimas del Terrorismo de Estado; um grande descampado, pontuado por esculturas, muros e construções de concreto às margens do Rio da Prata. Do portão, nos apontaram a direção que deveríamos seguir para chegar ao nosso destino. Percorremos grama, barro, fechamos o último botão do casaco (respondendo ao vento frio), saltamos canteirinhos de plantas, subimos uma rampa de pedra cercada por muros com nomes das vítimas da ditadura, abrimos bem os olhos para enxergar no escuro, chegamos a uma construção branca moderna e finalmente às poltronas onde passaríamos as próximas duas horas.

Sempre resulta difícil escrever sobre uma peça que te impactou, deslocou de alguma forma a sua impressão sobre a realidade teatral e não-teatral – tudo o que se coloca no papel parece não ser suficiente. Tínhamos grandes expectativas em relação a Villa+Discurso por razão de comentários positivos de amigos sobre outros espetáculos do diretor (Neva e Diciembre), mas Guillermo Calderón e as atrizes da Cia. Playa (Francisca Lewin, Carla Romero e Macarena Zamudio) conseguiram exceder essas expectativas. E essa superação não resultou em uma mera comprovação do fato, “Hum, sim, realmente, a peça era muito boa”, mas em uma sensação de esvaziamento (ou o contrário?), de não entender rapidamente o que havia de tão especial na montagem.

A peça nos é apresentada como duas: “um duplo programa Calderón”, com duas peças interpretadas pelas mesmas atrizes em um mesmo cenário, como anunciou orgulhosamente a organização do festival. No entanto, aí começa a complexidade da proposta do diretor chileno. São duas peças? Seria possível Villa sem Discurso (e vice-versa)?

Em Villa uma comissão especial, formada por três mulheres jovens chamadas Alejandra, discute o que fazer com um terreno onde funcionou um dos maiores centros de detenção e tortura da ditadura de Pinochet, conhecido como Villa Grimaldi, demolido pelos próprios militares. As opções iniciais são: uma “mansão sinistra”, reprodução hiper-realista do antigo centro de detenção, ou um museu, misto de museu de arte contemporânea e memorial.

A peça inicia com uma votação secreta entre essas opções, que se estende em intermináveis discussões e mal entendidos. Como a votação não funciona, cada Alejandra defende seu projeto de revitalização da Villa Grimaldi, mas as possibilidades apresentam pontos positivos e negativos, são aceitas e em seguida refutadas e se tornam cada vez mais mirabolantes. Porém, a argumentação de cada proposta é tão coerente e persuasiva, que se tornava difícil não se deixar convencer mesmo por aquelas mais absurdas – até a argumentação ser derrubada por outra Alejandra e desvelar sua evidente incoerência.

Ao final, quando as personagens descobrem que as três estão diretamente vinculadas à história de violência do lugar, e justamente por esse motivo formam parte de tal comissão, nenhuma das opções parece fazer jus à dificuldade de lidar com a complexidade dessa memória.

Em Discurso, a protagonista é a ex-presidenta chilena Michelle Bachelet em um fictício discurso de despedida de seu mandato. Cada uma das três atrizes veste uma faixa com uma cor da bandeira chilena e, entre si, dividem a voz da presidenta.

O discurso proferido pelo “coro Bachelet” se desenvolve entre desculpas, frustrações e orgulhos de sua vida privada e política. Fala tanto de sua contradição como socialista e representante de um governo neoliberal quanto sobre o desejo de que beijem sua boca e seus pequenos dentes.

Michelle, que junto a sua mãe esteve detida na Villa Grimaldi, em nenhum só momento deixa claro se, assim como suas amigas de militância, sofreu abuso e tortura nas mãos dos militares. Na tentativa de lidar com toda essa carga que representam os “anos de chumbo” da ditadura chilena em sua vida íntima e política, expressa em seu discurso os conflitos em relação ao compromisso com os desejos e frustrações de uma geração que a elegeu, que elegeu a primeira presidenta do país, além de militante e vítima da ditadura de Pinochet.

O disparador da obra, segundo o diretor e dramaturgo, foi justamente a questão de como lidar com essas memórias. E poderíamos agregar, sobre o como lidar com as contradições que recordar e legitimar essas memórias implica. Em Villa+Discurso, Calderón escolheu trabalhar com personagens atravessados direta e corporalmente por essas memórias e experiências, e a partir dessa condição o(s) espetáculo(s) se inunda(m) de interrogações: Como falar disso? O que fazer com isso? Como evitar que isso volte a acontecer? Onde esconder? Onde mostrar?

Uma das possíveis explicações para o impacto que produz a peça está no jogo com a ambigüidade e os extremos, a convivência de opostos – uma peça simultaneamente realista e distanciada, política e íntima, paródica e direta, ficcional e real… E por isso tão complexa e aberta às percepções do espectador. O que não significa que a peça não emita nenhuma opinião, é improvável que alguém saia do espetáculo pensando que o grupo é pinochetista, por exemplo. Mas não se limita a reproduzir a comprovação de uma certeza. O movimento é sempre de questionar as certezas, para voltar a afirmá-las, para em seguida negá-las e assim por diante.

Na própria estrutura de Villa+Discurso, o diretor trabalha com esse jogo de opostos. De um lado Villa, com uma estrutura dramática quase tradicional, de conflito entre três personagens com objetivos e motivações desencontrados – ainda que estranhado por uma forma muito particular da escritura e encenação de Calderón, com a intervenção de monólogos, repetições, uso de microfones, etc – e do outro, Discurso, em um formato oposto ao anterior, um longo monólogo dividido entre três, em uma proposta que em um princípio parece ser quase anti-teatral – três atrizes em posição estática proferindo um discurso.

Finalmente a peça se pergunta sobre a sua própria legitimidade. Por que lidar com essas memórias e essas contradições? Como erguer um monumento (ou um objeto artístico, neste caso) que dê conta das histórias pessoais e das histórias políticas de um país? Em Discurso, uma Bachelet diz, “los dramaturgos no están a la altura de esta historia”. E talvez de fato não estejam, nem os dramaturgos, nem qualquer um que se proponha estar “à altura” dessa história (passada e presente). Mas também é inegável que na impossibilidade de ser de todo poderoso e legítimo, é possível e necessário desenterrar essas memórias e dar-lhes um curso, ainda que torto e impreciso. E (com o pensamento em Alain Badiou) levantamos de nossas poltronas interrogando: O que pensa o teatro? O que pensamos com o teatro? E o que fazer com esses pensamentos?

Em seguida, voltamos ao mundo real do Parque de la Memoria e suas paredes brancas, seus fantasmas, sua crise existencial e ao vento frio soprando do Rio da Prata, absortos na contradição de uma existência tão impalpável quanto a memória de um acontecimento terrível.

20 poltronas vazias (a organização do FIBA mudou de última hora o local e o horário do espetáculo) e 1 convite a erguer novos monumentos.

'5 comentários para “Villa + Discurso”'
  1. Vou deixar o site nos meus favoritos.

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