Miligramas por Mililitros
Vide Bula
– Composição
Cada comprimido de 60 minutos contém uma atriz-dramaturga, um co-dramaturgo, um ator-envolto-em-lycra, uma atriz-sósia e um diretor-crítico-coelho, entre outras substâncias.
– Posologia e Administração
Não é coincidência a quantidade de espetáculos que têm como tema central a loucura, a histeria, a esquizofrenia e diversas outras doenças mentais; vivemos um momento em que os tratamentos às doenças mentais começam a ser contornadas não com a cura, mas com potentes medicamentos “docilizadores” que assumem as vezes dos tratamentos violentos, tornando a violência física desnecessária uma vez que a violência química é muito mais eficaz.
Não por isso as psicopatologias deixaram de estar presentes em nossa sociedade – muito pelo contrário, cada vez mais as pessoas apelam para santos remedinhos capazes de aliviar tensões e surtos cada vez mais comuns e freqüentes. Mais uma vez cito (de novo de forma rasa) Deleuze e Guattari, que afirmam que o capitalismo condena todos aqueles que nele vivem à esquizofrenia devido a toda a imaterialidade de seu tempo, que os força a transformar suas vidas em eternas produções desejantes (ou “produções de produções, de ações e de paixões, produções de registros, de distribuições e de marcações, produções de consumo, de volúpias de angústias e de dores”, como eles mesmos definem).
Miligramas por Mililitros é a apresentação poética de uma personagem em conflito com seu duplo que é, ele próprio, fruto de produções desejantes que se anulam, complementam e transformam – seja pelas psicopatologias abordadas, seja pelas medicações administradas e seus efeitos colaterais.
– Precauções
A construção do espetáculo, pautada nas definições teóricas/ técnicas de sintomas psicopatológicos, oferece uma base para que a dramaturgia se estabeleça e para que os repertórios de movimentos ganhem forma, mas ainda não são suficientes para ilustrar fatores externos ao universo íntimo da personagem – pouco se fala do aspecto político/social que interfere diretamente na condição da personagem (uma vez que o “mundo externo” não possui papel neutro nesse mundo “interno”, sentimental e íntimo).
Por outro lado, vale lembrar que as próprias definições técnicas que servem de base para cada momento do espetáculo são visões externas, racionalizações (nada filosóficas e muito pouco poéticas) dos sintomas e efeitos de cada doença, medicamento e reação adversa – o que torna o processo de construção poética/cênica muito mais árido.
– Contra-Indicações
Pacientes com hipersensibilidade conhecida a qualquer ingrediente do produto, e alérgicos a melancia.
– Apresentação
Comprimidos envoltos em cenários brancos, podendo haver um coelho na entrada.
15 a 25mg de olanzapina
Faltou dizer que o produto ainda está em fase experimental, e em janeiro estará a venda com nova fórmula, que incorporará correções às reações adversas do público alvo. Os sintomas persistem, a luta continua.
Oi Sérgio, obrigado pela “nota dos fabricantes”!
quando assisti não vi coelho nenhum, apenas uma barata em busca de holofotes sendo brutalmente esmagada pela indiferença de atrizes heróicas e a força de um diretor violento. provavelmente alguma reação adversa, alucinações…
Eu juro que tinha um coelho. E um filho de coelho também.