Homem sem Rumo
Quem é você?
Foto: Divulgação
O espetáculo Homem sem Rumo conta a história de Peter, o único personagem com nome próprio em cena. Obcecado pelo progresso a todo custo (e amparado por seu toque de Midas empreendedor), ele decide construir uma cidade inteira para si próprio – planejada e esterilizada como qualquer cidade gerida por uma administração progressista – afinal, pra quê uma cidade precisa ter história, cultura e um motivo (que não seja o progresso) para existir, não é mesmo? Todos os paralelos são possíveis com a reunião corporativa de apresentação de resultados e planos para o futuro de que tive de participar no dia anterior – desde o apego exagerado e irracional a números e cifras, até a lavagem cerebral das pessoas ao redor, que se contentam com uma mísera migalha do bolo apresentado, só pelo status de comer bolo – se é que existe algum status nisso. E o pior é que na reunião nem teve bolo.
Acontece que Peter passa seus últimos dias num hospital, com vista pra sua cidade. E aqui, quando eu falo sua, é que a cidade toda pertencia a ele mesmo, vale ressaltar. Além do irmão (que é também seu braço-direito quase por obrigação), do antigo proprietário das terras (e que agora se contenta – e orgulha – com o status de ser seu assistente), e de sua ex-mulher (que ele faz questão de salientar ser a ex, mesmo que ainda haja algo entre eles), aparecem também uma filha bastarda e uma irmã distante. Nenhum deles tem nome, porque são – e, movidos por seus interesses, se submetem a ser – sombras do protagonista. Todos tentam reconectar suas memórias e sentimentos, ao mesmo tempo em que não conseguem deixar de pensar nas vantagens que terão com a morte iminente. Pareciam urubus os safados, só assistindo pra ver.
O palco é forrado por um cascalho negro que remete a um enorme deserto, uma terra de onde jamais nascerá vida alguma, um espaço devastado. O toco de uma enorme árvore, que vemos nas primeiras cenas, já nos indica, desde o princípio , que a cidade tão almejada por Peter se estabelece em um espaço onde predomina a morte. A luz, as marcações, as pausas, o som dos passos dos atores pisando sobre o cascalho criam um clima escuro, sombrio, quase kafkiano – ou noir para quem quiser um trocadilho besta com o nome da companhia Club Noir, que Roberto Alvim e Juliana Galdino fundaram para encenar exclusivamente dramaturgias contemporâneas – seja lá o que isso signifique.
Li quatro críticas penduradas no mural antes de ver a peça. Três delas pareciam ser copy-paste umas das outras, de tão parecidas que eram nos argumentos e nas constatações – bonito de ver uma crítica sinérgica assim, né? Destacava-se apenas a do Jefferson del Rios, que fazia tantas referências paralelas que no meio da leitura eu me perguntava “Oi, sobre o que é que ele está falando mesmo?”. Mas o mais importante foi descobrir que a Bárbara Heliodora manterá um blog no site da Bravo. Que beleza ver a vovó se antenando (sob o ponto de vista técnico, claro) . O fato é: todo mundo concorda ao dizer que a peça gira em torno do dinheiro e da fé na bufunfa.
Claro que ele é a força motriz da ação, mas o que mais ganha destaque é a esterilização dos sentimentos e das personalidades: vemos figuras incapazes de uma autodefinição, que oscilam o tempo todo entre sentimentos sufocados, ambições mesquinhas e contradições morais que as impedem, a todo custo, de serem felizes. É como se no mundo escuro e infértil onde a ação se passa fosse impossível até mes mo possuir uma identidade própria – nenhum personagem possui traços heróicos clássicos, apesar do espetáculo ser a tentativa de reconstrução de uma tragédia contemporânea. Observa-se que a personalidade (e sobretudo a liberdade) de qualquer pessoa é manipulável (ou comprável) pela efêmera ilusão do poder (ou pela simples proximidade dessa ilusão).
Várias vezes os personagens perguntavam entre si uma questão que é chave para entender a potência do texto: “Quem é você?”. Uma pergunta que reverbera, rebate na platéia, nos faz projetar nossa própria vida: quão dispostos estamos a abrir mão de nossos interesses para sermos nós mesmos? Quanto nossas ambições conduzem nossos caminhos, nossos pensamentos, a forma como nos relacionamos com as pessoas? Cada um que assiste ao espetáculo é convidado sutilmente a projetar de alguma forma sua própria vida naquelas figuras que andam sobre o deserto de cascalho preto.
5 envelopes de dinheiro
PS: Aqui lançamos a campanha pelas fotos de cena. Abaixo as fotos de divulgação feitas fora do teatro e que não dizem nada sobre a peça!
PPS: Ao entrar no espaço, o público encontrava nas cadeiras uma propaganda da empresa que fornecia os figurinos de gala usados em cena. Pela foto desse folheto maravilhoso dá pra ver como os atores estão chiques na peça, né?

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