Dava até pra transmitir pelo rádio

Crave foi o penúltimo texto de Sarah Kane. Com uma estrutura dramatúrgica composta basicamente por falas e interrupções, sem indicações de ações e com nomes de personagens que não passavam de iniciais, ela já trazia um aperitivo para o que viria em seqüência, seu derradeiro Psicose 4h48. Tipo uma tigelinha de amendoim ou de pistache pra antes do suicídio.
Pois bem, hoje aqui nos Pampas foi o dia de ver a montagem argentina do texto. Quando entrei no teatro, uma das salas do Centro de Cultura Mário Quintana, pensei no quão meu lugar seria péssimo para tirar fotos (a sala não tinha uma estrutura de arquibancada adequada, e uma bela porcentagem de minha visão era composta por grandes cabeças, possivelmente gaúchas). Bobagem: a única imagem que sairia daquele espetáculo seria exatamente igual à imagem de divulgação (aliás, crédito da foto: Ernesto Donegana).
Acontece que todos os atores ficavam parados, sentados em cadeiras, dizendo o texto. Era como se todos estivessem em um ensaio e não pudessem movimentar nada além de seus rostos. O timing dos diálogos era perfeito (afinal, o que mais eles poderiam refinar a cada apresentação se não fosse isso?), e a iluminação era mais que suficiente para a situação proposta: uma luz branca parada o tempo todo para quatro atores parados o tempo todo. Cenografia? Não tinha exatamente uma. Na verdade, os quatro atores estavam em frente a um tríptico em que eram projetadas imagens abstratas que mudavam de cor, tipo proteção de tela, sabe?
Saí do teatro pensando: tudo bem que a autora não deixou marcações no texto, apenas o diálogo. Mas daí fazer uma peça sem NENHUMA marcação? A impressão que eu tenho é que nesta montagem rola o OPOSTO daquilo que Kane propõe: em vez de se criarem as ações e situações para um texto que as oculta, estas são simplesmente ignoradas como se não fizessem falta, e pior: sem nenhuma proposta cênica muito sólida que justificasse essa escolha. E elas (as marcações) fazem falta, tornando a montagem textocêntrica e chata, ainda mais quando é no espanhol de Buenos Aires e sem legendas…
Oi Maurício,
Sou aqui de POA, estou lendo o blog e adorando! Divertido.
Também estou na saga do POA Em Cena, tentando ver o máximo de espetáculos.
Quem sabe nos encontramos por aí né.
Espero que gostem de Porto Alegre, que nessa época fervilha.
Abraços!
Ah, esse é meu e-mail caso queira trocar uma idéia (carlosxarao@gmail.com)
Bem que vc disse que a montagem de psicose, só de investir nos personagens já tava criando bastante, né?! rs Beijo, Mau.