Não Blue
Da coragem e do naturalismo
Como dizia aquele meu tio jogador de truco, cujo nome não vou revelar e que também você não quer saber: “Gosto de gente com culhão!”. Eu também. Gente que tenha coragem de apostar nos projetos pessoais em que se acredite muito. Encaixo nessa categoria os profissionais envolvidos na montagem de Não Blue, em cartaz no studio 184 (aquele de Heleny, Heleny…).
Eu pergunto quantas vezes você já foi ao teatro de terça ou quarta-feira? Nestes dias, quantas vezes você foi em horário alternativo, tipo 22h30? Aí você soma a essas dificuldades a lei do “boteco mais cheio”. Muito mais complicada que a lei do fomento. Da-lhe parêntese. Essa lei se aplica ao UolK, ao Beltrano e a outras comunidades que gostariam de fazer um terço do sucesso do Orkut, mas não conseguem. Por que o Orkut é o boteco mais cheio. No caso do contexto do teatro onde a peça está em cartaz, o Satyros hoje é o boteco mais cheio. O Parlapatões é o segundo boteco mais cheio. E o Studio 184 nem boteco tem (fica aí a indicação). E não me venham dizer que isso não conta na hora de divulgar o espetáculo.
Mas o pessoal de Não Blue está lá, firme e forte, às terças e quartas, no Studio 184. E eu vi o espetáculo nesta quarta última, a convite do Camilo Brunelli, autor da peça. No palco, quatro atores muito à vontade com o texto. Parecia que pra eles era um clássico, muitas vezes encenado. Uma história maluca sobre o dia que antecede a mudança da cor do céu de azul para uma cor desconhecida: o Não Blue. Tudo com muito da “verdade do artista”, como disse o Rodolfo García Vasquez. Visivelmente colocaram marcas muito pessoais na montagem.
É o caso da trilha, também assinada pelo Camilo Brunelli (parece o Bortolotto, né? O cara escreve, atua e faz a trilha), que vai de Madeleine Peyroux a Smashing Pumpkins. Também foram gravados programas de rádio para algumas seqüências de transição, além dos barulhos que ilustram muito daquilo que falta na cenografia.
Essa última é típica de peças de baixo orçamento. Os atores olham o tempo inteiro para uma janela no canto direito do palco, onde não há nada além de imagem de janela, feita sobre o pano preto. Tudo que está em cena além disso, não passa de um sofá, um puff, um tapete, algumas almofadas e um aparelho de som (devo ter esquecido alguma coisa, mas não era muito mais que isso).
Apesar da simplicidade não comprometer, o problema da montagem reside na proposta de encenação. Nota-se que o texto dá margem para boas trajetórias de personagens, alguma experimentação temporal que certamente é filha da dinâmica cinematográfica, mas eu me pergunto mais uma vez por quê tudo é tão normal? Por que essa atuação tão bem marcada no tempo dos diálogos tem que sair igualzinha a uma novela da globo? E se a proposta é fazer naturalista, por que os atores ficam de costas para o público, gerando alguns pontos cegos?
Enfim, cinco reais valem a pena pra você conferir se estou sendo chato demais. Repito, gosto de quem tem coragem pra levar ao cabo todo projeto em que se acredita. No entanto fica a impressão de que o caminho ainda é longo para esse grupo que soube ficar à vontade com o texto, mas não soube recriá-lo de forma criativa em gestos e cenas.
6 na platéia, 4 no palco
O que você acha?