3 de 78

Blog   |       |    16 de outubro de 2007    |    3 comentários

O DramaMix foi um projeto megalomaníaco doido das Satyrianas 2007, que reuniu 78 dramaturgos – uns muito experientes, outros muito estreantes – em 78 mini-espetáculos apresentados numa tenda improvisada na Praça Roosevelt. Tenda branca, grande, tipo um circão, só que sem cor.

Das 78, vi 3. A amostra não é nada científica, concordo, mas vou falar destes pra não deixar de registrar esta idéia aqui na Bacante. Aliás, fica o convite / intimação: você que assistiu algum espetáculo no DramaMix escreva seu comentário pra gente!

Seja pelas peças que assisti, seja pelas vezes que estava de passagem por ali, posso atestar que houve uma presença quase constante: as filas. Filas e filas, a cada meia hora. Sai de um espetáculo e já fica na fila do outro. Fila pra pegar, fila pra entrar… fila pra tudo… a cara de São Paulo. No entanto, um detalhe: de graça. Normalmente a gente fica na fila pra pagar, né?

Enfim, o espaço ficou lotadaço, sobretudo pelo pessoal que queria ver a Mariana Ximenes – engraçado esse fascínio, mesmo em ambientes tão… hum… alternativos?

Posso reclamar bastante dos poucos lugares, do apertinho, do formato esquisito de uma semi-arena meio torta, da acústica (dava pra ouvir galera que foi se embebedar na Roosevelt). Posso, mas não vou. Quero falar das histórias. Na verdade, das tentativas, porque é realmente complicado comunicar algo em tão pouco tempo. (Claro que exitem caras que comunicam muito em 4 minutos e 33 segundos, mas tô falando de gente normal.)

Do que vi, Tosca é uma tentativa divertida de meta-teatro que brinca com as origens, A Deliciosa Boca do Inferno é uma brincadeirinha bem clichê do homenageado Lauro César Muniz e Pequenos Furtos, de Contardo Calligaris é um momento, um simples momento.

Desenvolvendo pela ordem de apresentação, começo pela pecinha (sem ser pejorativo, só pela duração mesmo) do Contardo. Uma história linear, pequena, sutil pra caramba, que deixa uma sensação esquisita. Uma narrativa sem arroubos, sem nada de grandioso, mas com um monte de significados e super bem executada pelos dois atores, que mantêm um clima estável, quase monótono, demonstrando que aquilo ali aconteceu realmente em um momento rápido e passageiro. É assim: um ricaço que leva uma artista circense pra casa e lhe dá dinheiro pra ver seus peitos e beijar-lhe. Nem quando a atriz levanta a blusa o clima da cena muda. A superficialidade está ali instaurada, presente o tempo todo. Tudo é indiferente, nada é realmente intenso. Um sintoma das relações bestas que temos e das tentativas frustradas de suprir nossa carência. O único gesto que parece mais vivo é quando a garota vai embora, deixando um dos bastões e o querosene que usa pra acendê-lo, e o homem coloca o bastão molhado num saco de pão e aspira, como se sentisse o gosto da boca que acabara de beijar. Foi um gesto mais intenso do que o próprio beijo e isso é muito maluco. Comentário posterior que ouvi na platéia: “deve ser muito louco beijo com gosto de querosene”. Ok.

Tosca, por sua vez, é engraçadíssima graças à atuação de Grace Gianoukas, impagável como uma musa aprisionada por um governante autoritário que exige que ela durma com ele, ou matará o amante dela, um pintor revolucionário. A idéia de mostrar a construção da cena durante a cena – com um ator dando broncas no outro e a cena sendo interrompida a todo momento – é interessante, mas ficou ao mesmo tempo subexplorada e maçante, pois era como se a mesma cena fosse repetida várias vezes, o conflito não avançava.

Finalmente, A Deliciosa Boca do Inferno, foi mais um pretexto pra trazer a Mariana Ximenes pro carnaval de encerramento. Sabe quando você já ouviu a história 50 mil vezes? Pois é. Um cangaceiro que tem que escolher entre ir pro céu com Padre Cícero ou pro inferno com o diabo em forma de mulher gostosa. A graça fica pro fato de eles não terem conseguido ensaiar suficientemente a cena e utilizarem o texto na execução, dando um ar de descomprometimento. Deu pra notar que o Haroldo Ferrari é bom de improviso. Mas só. Ah, não… não foi só… também teve samba e confetes.

Voltando ao DramaMix, o discurso do Ivam no encerramento traduz muito do que é esse festival maluco que festeja a primavera: improviso e amadorismo, no melhor dos sentidos. E o DramaMix se encaixou perfeitamente nessa história, para o bem – diversão, amor ao teatro – ou para o mal – filas, desorganização, falta de preparo… No fim das contas, o melhor de tudo é essa coisa de não se levar tão a sério.

PS: Reitero o convite: mande você também seu comentário! (ainda que ele seja só uma tentativa.)

'3 comentários para “3 de 78”'
  1. Maria Clara disse:

    1/78

    oi juli! acho importante seu texto sobre o ´dramamix´. esse evento não pode mesmo passar em branco.

    e se havia sempre filas, é porque havia muito público. viva!!

    acho que o evento não é mais tão alternativo assim. mas ainda é em alguns aspectos. que bom!

    você realmente acha que é complicado comunicar algo em tão pouco tempo!? não acredito que você ache isso…

    então, vamos ao que vi e o que achei, na ordem também:

    ´alguém escreveu isso´ é um texto despretensioso e bem humorado, meio surreal, do bráulio mantovani. mas acho que o mérito mesmo ficou pela direção do gustavo machado: muito criativa e divertida. e depois pela ótima atuação do elenco: roney facchini, plínio soares e gustavo machado. foi um prazer assistir. muito bom!

    e tenho a impressão que esse espetáculo me fez sentir um pouco da ´essência´ desse ´dramamix´: texto ágil, despretensão (ou não?) e esse contato mais direto entre artistas e público que faz o Teatro ser mais Teatro. (entendam como quiserem. rsrs).

    eu adorei. fiquei com uma ótima impressão do projeto.

    (quatro estrelinhas – ai, sempre quis fazer isso! hahaha)

  2. Maria Clara disse:

    2/78

    meu segundo e último ´dramamix´ (infelizmente) foi ´alternativa´. é, não tinha mariana ximenes, mas tinha adriane galisteu. e eu não estava lá por causa dela. (vocês acreditam em mim, né!?) bom, mas já que estava, vamos ver então: adriane galisteu dá conta do recado. mas então, por que coloca-la num texto tão… tão… comercial? sem graça? ´super-pop´? mais chato do que cangaceiro que tem que escolher entre ir pro céu ou pro inferno?

    e já que havia o fascínio (de muitos) para ver adriane em cena, porque não aproveitaram a oportunidade para dar ao público um texto legal?! é… pensando agora me veio a idéia de que talvez o público que foi lá só por causa da adriane não queria um ´texto legal´. bem, estou sendo preconceituosa, claro.

    mas durante o espetáculo me peguei rindo ´por obrigação´, pra não ficar chato com todo mundo que estava rindo ao meu lado… mas teve um crítico famoso, também meu amigo, que saiu no meio… será algum bacante? não conto!

    elias andreatto dirigiu o texto de célia forte, e também fez parte do elenco. estava muito bem como ator. não sei se ele poderia fazer muito mais como diretor. talvez.

    (uma estrelinha – cadente)

    ***

    uma pena que vi só esses dois ´dramamix´. tinha muita coisa boa que queria ter visto. muitos amigos brilhando. mas fiquei com a impressão que o projeto tinha muito mais coisas legais do que ruins.

    e, ao contrário de você, não encontrei desorganização ou falta de preparo em nenhum momento da ´satyrianas´. e quanto às filas, bem, isso é um bom sinal, não é!? e a organização do evento não tem culpa por ter muita gente. rsrs. ou melhor, muita gente é um resultado positivo do evento. estou errada!?

    também sobre as peças serem ´quase´ de graça, ajudou muito: eu mesma não teria condições de ver tudo que vi se tivesse que pagar mais. (quero ainda escrever sobre as peças que vi).

    e ainda ficou muita coisa que eu gostaria de ver e não deu tempo. fica pra próxima.

    só lamento não ter encontrado nenhum bacante… ah! mas eu tive a minha cena com o maurício. quer dizer, fabrício. rsrrsr 🙂

    então beijos pra vocês e até a próxima! com rosas.

  3. Maurício Alcântara disse:

    Maria Clara, do Andreatto, vi duas direções dele que achei muito, mas muito ruins: Mammy vai à Lua e Andaime. Os dois estão no nosso índice geral, olha lá. A primeira é uma bomba completa, a segunda ainda tinha um texto bacana e dois atores ótimos, mas a direção…

    Em cena, só pude vê-lo em O Avarento, do Paulo Autran, dirigido pelo Felipe Hirsch. Mas a atuação do Elias era a última coisa que se prestava atenção naquela montagem linda…

O que você acha?

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