Dança livre

Blog   |       |    7 de outubro de 2007    |    2 comentários

A prefeitura de São Paulo colocou em prática no ano passado a Lei de Fomento à Dança. Não conto isso como novidade, mas como mote para falar de PolisSemos, um dos espetáculos mais doidos e ricos de significados que eu já vi, realizado por um grupo que recebeu a minguada-mas-importantíssima verba pública. Se é pra fomentar este tipo de iniciativa, eu, pelo menos, pago imposto com muito gosto.

A peça acontece no porão do CCSP, mesmo lugar onde foi realizada a VI Mostra do Cemitério de Automóveis, já resenhada aqui. O espaço já é bem legal por si só e, pra melhorar, a cenografia e a iluminação criadas pelo grupo Minik Momdó aproveitam o lugar de ponta a ponta com competência.

Dirigido pela Maria Mommensohn, uma senhorinha com cara de vovó moderna, PolisSemos é inteiro surpreendente e, sobretudo, livre. Veja o que quiser, olhe pra onde quiser, viva o que quiser, por quanto tempo quiser – é mais ou menos a proposta feita ao público. Se vc achar confortável sentar numa pilha de jornal, ok. Se preferir uma privada, tem também! E dá ainda pra ficar passeando pelo espaço, andar na bicicleta ergométrica, na esteira, pular naquela mini-cama-elástica-de-academia-chique, assistir TV… as possibilidades são inúmeras e, se você espera que alguém te guie como em qualquer peça itinerante, desencana! Livre é livre mesmo. Tudo tem muitos sentidos e você pode apreender o que você escolher. Ícones fortíssimos da modernidade e da urbanidade (aceleração, vaidade, multidão, televisão, jornais, lixo) estão presentes o tempo todo, te bombardeando e disputando sua atenção e, como no seu dia-a-dia, é só você quem escolhe para o que dedicar seu tempo e seu olhar.

A música, executada ao vivo com muita criatividade, dava um tom ainda mais maluco pra coisa toda, com adaptações impressionantes de clássicos como “Teresinha de Jesus” – aquela que numa queda foi ao chão, lembra?

Enquanto isso, numa parte do porão, vídeos nos mostravam desde cenas banais, passando pelo cantor Daniel e por pessoas falando, até a brilhante imagem de uma pessoa fazendo suas necessidades sob o ponto de vista da privada. A TV, em si, tinha uma presença tão intensa e ao mesmo tempo banal quanto tem no cotidiano. Havia, inclusive, uma televisão desintonizada dentro de uma casinha de cachorro. Hilário.

Resumindo, fiquei boba de ver como, sem nenhuma palavra, os caras passaram tantas mensagens. Não tô dizendo que a palavra seja essencial. Aliás, depois desta peça, eu nem teria coragem de dizer isso. Mas normalmente, ainda que pouco, o recurso do texto – dito ou escrito – é utilizado para compartilhar pensamentos complexos. Neste caso, não. As únicas palavras que vi, projetadas em tecidos brancos, eram “texto”, “alavra” e “imagem” – um recado muito claro, sucedido por algumas filmagens multidões, como as que vemos em trens e metrôs, por exemplo. Mais uma vez, a palavra perde. Ficam as imagens. Muitas delas.

PS: Vc que tá doido por um link, entra aqui (o site é da prefeitura, não do Minik Momdó, mas tem algumas informações do grupo e um vídeo doido mostrando uma parte do processo de criação do espetáculo. Ignore as fotos.)

'2 comentários para “Dança livre”'
  1. George disse:

    Olá…Gostaria de avisar que, a convite da Secretaria Municipal de Cultura, o Grupo Minik Momdó fará mais uma experimentação de PólisSemos durante a Virada Cultural, que será dia 26 para 27 de abril de 2008, na Galeria Olido a partir das 23h até 3h…se puder, ajude na divulgação.Aliás, muito obrigado pela sua crítica em relação ao nosso trabalho…Beijão. George.Minik Momdó.

  2. Juli disse:

    Oi, George!

    Bom saber que vocês terão mais uma apresentação. Acho a Virada um ótimo momento. Mas como assim desde as 23h até as 3h? Direto? Uau…. Estou curiosa pra saber como ficará a ambientação na Olido.

    Sempre que tiver novidades, conte pra gente!

    Beijos,
    Juli.

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