A Dança do Universo

Críticas   |       |    11 de agosto de 2008    |    2 comentários

O que sobra de uma apresentação

Fotos: Kátia Fanticelli

No colegial, estudei numa escola estranha. Dessas que nascem meio tortas a vão se entortando mais a cada nova turma que por ela passa. Era uma escola pública em que aprendemos o sentido da ocupação de um espaço público, talvez por isso eu passasse o dia inteiro nela e também por isso acho tão relevante hoje em dia as alternativas teatrais que procuram essa ocupação. A escola torta tinha vocação para as ciências exatas. Fora uma escola técnica por muito tempo, hoje é uma faculdade de tecnologia – deram um upgrade nos técnicos da década de 70 – e enquanto a freqüentei, estava em transição. Por conta dessa vocação para os números, tivemos muitas aulas com professores com desvios mentais (não consigo pensar em expressão melhor). Uns davam conselhos absurdos e ganharam comunidades no Orkut, outros (ainda entre os físicos) nos levavam ao teatro. Claro que não era lá uma coisa facultativa, e é óbvio que tinha trabalhinho depois de assistir, mas já tinha avisado que a escola era torta.

Numa dessas idas, assisti pela primeira vez um monólogo. Foi no teatro Cacilda Becker e quem ocupava o palco era Carlos Palma, na pele, bigodes e cabeleira de Albert Einstein. Lembro muito pouco desse dia. Talvez uma cena em que ele equilibrava uma maçã numa toalha de pano, com a ajuda de alguns participantes da platéia. O peso da maçã e a deformação que ela causava no pano era um exemplo de como o universo se “entortava” próximo dos planetas. Até hoje não sei dizer se isso serviu mais às provas do vestibular ou à compreensão de que o meu corpo e o que faço com ele também pode ser como aquela maçã e que o mundo pode ser aquela toalha. O que é certo é que essa cena ficou gravada na minha memória – e acredito que na memória de mais algumas dúzias de colegas presentes na platéia – de maneira muito peculiar.

Fast Forward. Soledad Yunge dirige Mário Bortolotto e Nelson Peres, num daqueles clássicos espetáculos em que Bortolotto interpreta um quase-ele-mesmo. Essa é outra forma inexplicavelmente confortável. Por mais que eu me esforce por compreender os movimentos do teatro contemporâneo, continuo hipnotizado por uma ficção clássica, com personagens bem construídos, enlaces e dramaturgia amarrada, com autor e direção notoriamente autocrata. Volta pro Arte e Ciência no Palco.

Acomodo-me pela segunda vez em menos de três semanas nas cadeiras irregulares do teatro da PUC na Marquês de Paranaguá, que fica a menos de 10 minutos a pé da minha casa. Soledad Yunge é a diretora e Carlos Palma está no palco, agora acompanhado de outros seis atores para apresentação de A Dança do Universo, adaptação teatral para o livro homônimo de Marcelo Gleiser. Esqueci de dizer no princípio, mas quando fazia parte da sagrada família burguesa brasileira e estudava na escola torta, lia constantemente o caderno Mais (ainda que não entendesse nem a metade do que ali estava escrito). Marcelo Gleiser tinha uma coluna fixa por lá (ainda tem?) e lia seus comentários porque ele era o único em todo o jornal que sabia transformar a ciência em algo de mais imaginativo, como alguns professores da escola torta.

No programa da peça, o próprio Marcelo Gleiser comenta que uma pergunta recorrente era “Como um livro de não ficção pode ser dramatizado eficientemente?”. Seus termos são ótimos, afinal o que seria um “drama eficiente”? À pergunta dele acrescento: como um livro de não ficção pode ser desdramatizado eficientemente? Mas na montagem, o grupo se deu mais ao trabalho de responder à pergunta de Marcelo Gleiser do que à minha.

Ao lado de onde moro, existe um grupo de teatro chamado Ria. Completo quase dois anos naquela vizinhança e nunca recebi uma divulgação daquele grupo que aluga um teatro do Colégio Caetano de Campos para montar peças que são sempre sobre os livros do vestibular. Eles têm uma função social? Creio que sim. Esse função tem alguma possibilidade de mexer com as certezas e as verdades de quem assiste? Acredito que não. Já o grupo Arte e Ciência no Palco tem 10 anos de atividades. O conteúdo não está vinculado ao vestibular e o questinomamento sobre a função social é inútil, tendo em vista que já foram vistos por mais de 800 mil pessoas e portanto legitimados de várias maneiras. Eles conseguem mexer com certezas e verdades dessas pessoas? Conseguem, mas ainda é muito pouco, próximo do que conseguiriam com formas que dialogassem mais com seus temas.

Adoro citações de cientistas e filósofos que ajudaram a desviar os caminhos da história da humanidade, mas pouco disso fica quando utilizamos apenas como texto numa apresentação teatral. Isso tem que virar cena, com autonomia própria. Aquela maçã que Einstein segurava está na minha memória até hoje, como ficará também guardada em algum lugar a idéia de compor vários Chaplins e somente um Einstein em A Dança do Universo. A forma do personagem, do enredo, da ficção exerce fascínio. Mas a forma da desconstrução estabelece um diálogo mais “eficiente” com o tema. Essa eficiência é o que gostaria de ver mais em A Dança do Universo.

2 minutos para esquecer todas as citações

'2 comentários para “A Dança do Universo”'
  1. RONALDO VIEIRA disse:

    ADOREI A PEÇA, OS ATORES, TUDO FOI MUITO ENCANTANDOR. A MUSICA ENTRA NA ALMA. ESTA PEÇA DEVE SER APRESENTADA SEMANALMENTE, E DEVERIA CONTAR COM UMA DIVULGAÇÃO POR TODA SÃO PAULO, SE POSSÍVEL COM PATROCINIO DE EMPRESARIOS.
    PARABÉNS A TOCO ELENCO, VOCÊS SÃO MARAVILHOSOS MESMOS.
    TURMA DO ETAPA (chupaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa)

  2. […] deles criticados pela Bacante, mas você pode conferir as críticas dos trabalhos mais recentes: A Dança do Universo e A Culpa é da […]

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