Vigiar e Punir
Foto: Divulgação


Com ingresso já no bolso e desfrutando de um chocolate com amendoim, passeio pelo saguão do Tusp enquanto aguardo o início da peça (A)tentados, da Cia. de Teatro em Quadrinhos. Olho a maquete transparente (que nunca sei de onde é), bebo água, reparo em uma mulher com uma filmadora, leio os informes no mural, bebo mais água (a peça atrasou um pouco), observo um casal comprar ingressos, tudo isso antes de reparar que a moça estava com a câmera ligada filmando os movimentos de todos os espectadores presentes no saguão (não eram muitos). Como ela não me filmava, pensei “Putz, ela já me filmou e não sei em que momento. Aposto que é uma dessas peças que utilizam o vídeo projetado de pessoas da platéia, como naquele espetáculo do Folias”.
E não deu outra. No meio da encenação, o telão no fundo do palco começa a reproduzir as imagens filmadas no saguão, enquanto falam em microfones “A câmera te ama. A câmera me ama.” E constato minha imagem projetada por alguns segundos, reprodução de um momento de distração, enquanto lia o programa da peça e arrumava meu cabelo. Ufa! Parece que escapei de algum tipo de “momento humilhação pública” que estava prestes a vir, se inconscientemente agisse de maneira incomum ou fizesse gestos estranhos enquanto esses recortes íntimos eram captados para serem expostos na frente de estranhos.
E o incômodo provocado por essa cena (tá certo que os atores falando no microfone eram um pouco irritantes) está presente no dia-a-dia, por meio dessa vigilância invasiva das câmeras de segurança em tudo quanto é lugar, da sensação de estar sendo constantemente visto, até das modernas máquinas digitais e celulares, que permitem a qualquer um filmar facilmente o outro sem autorização ou conhecimento da “vítima”.
Neste mesmo sentido de refletir sobre essa sociedade controlada e vigiada, em alguns momentos do espetáculo, a filmagem era feita de cima, como aquelas câmeras de elevador, que transformam qualquer porteiro de prédio em um Pedro Bial.
Toda essa longa reflexão sobre o controle da liberdade e de privacidade, e o incômodo provocado no espectador, são o que há de mais interessante em (A)tentados, uma espécie de mosaico de dezessete cenas que se ligam por meio de uma personagem indefinida chamada Ann ou Anne ou Annya, e por aí vai.
Percebe-se a preocupação do grupo na utilização de vídeos, projeções e filmagens em tempo real. Assim como uma busca por diferentes formas narrativas, cada uma em sua cena, além de uma tentativa de misturar o personagem com o ator. Mas todos esses recursos se perdem em uma montagem preocupada com as imagens e fotografias de cena, sem um cuidado com o texto, que tragam uma compreensão, ou um aproveitamento melhor do que é dito em cena. Os atores não saboreiam as palavras e não dão novos significados e sentimentos a elas, apenas falam. Isso pode ser até atribuído à tentativa de mescla personagem/ator, mas só fez deixar alguns trechos monótonos e a dramaturgia mais incompreensível.
O espetáculo traz algumas boas imagens, como a de uma espécie de lenhador puxando com uma corda um saco fechado de gelo, enquanto um urso polar o segue, em busca de um pouco de friozinho. Ou a da garota dirigindo um carrinho de brinquedo. Apesar de serem belas construções cênicas, a peça tenta passar mensagens que não tocam o público. Percebe-se uma certa crítica ao desrespeito com a natureza, a violência, e a sociedade de consumo, mas elas chegam apenas em sua superfície.
2 pessoas olhando feio um celular caindo pra dentro do palco
Adendo: Fuçando a comunidade da Cia. de Teatro em Quadrinhos, achei um vídeo em que a peça era apresentada em forma de teatro de arena, diferente do espaço do Tusp, mais próximo do palco italiano. No vídeo, parece que o cenário era melhor construído, e o público tinha outro tipo de relação com a encenação. Não tem como saber se essa mudança de estrutura influenciou no resultado da peça. Vai saber! Quem quiser ver, entre AQUI.
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