Cachorro Morto

Críticas   |       |    30 de setembro de 2010    |    0 comentários

Obs.: Entre os dias 02 e 12 de setembro de 2010, Paulo V. Bio Toledo participou do 25º Festivale, em São José dos Campos, como crítico convidado pelo festival. O texto a seguir foi originalmente publicado na página do 25º Festivale (veja aqui)

Forma como Conteúdo – a lírica histórica do autismo

Foto: Divulgação

No debate após a apresentação de Cachorro Morto – da Cia. Hiato de São Paulo – conversou-se longamente sobre a síndrome de Asperger, transtorno análogo ao autismo em que se baseia o espetáculo: falou-se das experiências com pessoas diagnosticadas com Asperger, dos tratamentos, das definições científicas; do campo desconhecido em torno da síndrome, da dimensão filosófica a partir desta variação de percepção do autista etc.

Como bem apontado na própria discussão, a conversa se diferenciou de quase todos os outros debates do 25º FESTIVALE, porque praticamente se centrou no assunto e não apenas na forma da peça. O que me deixou extremamente entusiasmado, afinal a discussão sobre o objeto abordado, no teatro, muitas vezes é deixada de lado em favor do eterno debate sobre si mesmo…

Mas talvez não seja à toa esta efusiva abordagem do tema durante a conversa. Cachorro Morto é uma narrativa simples em torno de uma criança com síndrome de Asperger em que a estrutura formal do espetáculo é fundamentalmente construída amalgamada com o conteúdo; a composição estética da encenação desaparece diluída no próprio tema, ou seja, sua forma é o seu assunto.

O incrível êxito criativo em Cachorro Morto não permite a visualização fracionada de forma e conteúdo – o assunto da peça não está sendo representado de “determinada maneira”, isso porque ele é a forma. Assim, o fato de o debate ter-se centrado na síndrome de Asperger talvez seja justamente por ela se materializar e evidenciar-se como a própria estética do espetáculo. De modo que seria impossível falar do espetáculo sem falar do assunto.

A peça é constituída por um coro maleável que narra as desventuras de uma criança obstinada investigando o assassinato do cachorro da vizinha, porém descobrirá toda uma trama estapafúrdia (e trágica) que envolve seus pais. Porém a narração é operacionalizada do ponto de vista da criança e, assim, a estética é composta pelos sintomas da síndrome de Asperger, quase como se navegássemos dentro da percepção dela e enxergássemos tudo desta perspectiva singular. O instrumento é muito sofisticado, o que é mostrado em cena é a história “trivial” da criança que descobre que a mãe está viva, entretanto o assunto propriamente dito é a maneira de percepção do mundo pelo autista. Por mais que se conte esta história objetiva, o espetáculo versa sobre o olhar (autista) para tal narrativa. Por isso, a forma permite optarem por não definir individualmente a criança: ela é a cada momento o ator que a está representando, inclusive seu nome: por exemplo, quando a atriz Luciana Paez a interpreta, a criança é a menina Luciana; quando é o ator Thiago Amaral, a criança é um menino chamado Tiago etc. Ou seja, o seu assunto não é ESPECÍFICO de um determinado indivíduo, de uma determinada narrativa.

Desse modo, o tema possui uma dimensão filosófica extremamente rica: o olhar do autista – que está em questão na peça – é singular justamente porque percebe tudo de maneira diversa do que o senso-comum social o faz. Assim, a situação “cotidiana” apresentada no espetáculo é vista por nós com novos óculos e esta ótica re-significa a percepção padronizada com a qual nós estamos socialmente “acostumados” (ou seria: “pré-moldados”?). O autista está isolado justamente porque vê, percebe e interage (ou não) com o entorno de maneira diversa daquilo que é determinado pela nossa organização histórica e social como se fosse algo natural da espécie. Metaforicamente, portanto, o autista flexibiliza o olhar totalitário que temos sobre tudo e esfrega em nossas caras que as coisas não necessariamente são e devem ser vistas da mesma perspectiva naturalizada pela “maioria”.

Este procedimento soa-nos como bela metáfora ao ofício do historiador – na concepção de Walter Benjamin a história materialista é a re-significação das verdades dos “vencedores”. A história é um DESMONTADOR DE IDEOLOGIA dominante. E assim também é o olhar do autista, pois ele desconstrói – fazendo uma analogia filosófica – as certezas da percepção que a ideologia determina serem as “corretas”. O olhar do autista é um convite a uma ruptura com a visão totalitária da ideologia; é um convite metafórico à história dos “vencidos”…

No entanto, cabe ainda um parêntese, ao romper com o totalitarismo do olhar, facilmente incorremos em outra tirania: a da relativização absoluta. E tal tendência – bastante em moda atualmente – ao contrário do que preconiza, soa bastante dogmática ao impor uma única certeza, algo como: a ausência de verdade absoluta (embora esta seja uma verdade absoluta). Temos aí o outro extremo, o do irracionalismo totalitário que inspira e inspirou tantos comportamentos fascistas na história recente.

Foto: Maíra Soares

O espetáculo foi assistido gratuitamente dia 08 de setembro às 20h no Teatro do SESI-Bosque dos Eucaliptos em São José dos Campos como parte da programação do 25º Festivale

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+ na Bacante:

Crítica de Fabrício Muriana e Juliene Codognotto

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