Darwin e o canto dos canários cegos

Críticas   |       |    13 de agosto de 2007    |    1 comentários

Darwin e o canto dos canários cegos

Foto: Movimento de Expressão Fotográfica

Esta é uma peça de uma companhia portuguesa, A Barraca, feita a partir de um texto de um brasileiro, Murilo Dias César, sobre um cientista inglês, Charles ROBERT Darwin (coloco assim em caixa alta porque, pelas inúmeras repetições do seu nome completo, deve ser muito importante). Mas digo isso tudo porque fui ao teatro pelo fato de não me lembrar de ter visto uma peça portuguesa na vida e depois dessa, continuo com a mesma impressão. OK, não é bem assim, mas a sensação foi de ter visto uma peça dublada. Sabe aqueles filmes históricos americanos em que os personagens não são americanos mas falam em inglês? Deve funcionar para os americanos, como talvez essa funcione para os portugueses. Mas o português de Portugal é como uma língua estrangeira pra mim e, talvez por isso, a mistura dos sotaques deu um tilt na recepção. A atriz começava uma frase dizendo “Charles” com pronúncia corretíssima, e eu sempre estranhava que ela não continuasse falando em inglês. Como nas peças do Gerald Thomas.O espetáculo como um todo ficou um tanto obscuro. As fotos da peça me confundiram. Por causa delas, achei que fosse ver um espetáculo meio híbrido. No cartaz, um senhor barbudo (adoro senhores barbudos), um sujeito de máscara e uma moça no momento de um salto, bem acima do chão. A foto não é uma foto, é uma montagem. Fiquei na expectativa de ver algo assim em cena. Não aconteceu. Designers…

De qualquer forma, acho problemático quando a crítica precisa separar a ficha técnica para dizer alguma coisa. Se a peça se apresenta como um objeto só, nem é importante falar da iluminação, do cenário, de cada ator especificamente, etc., e nem é preciso coroar de louros o diretor. Aqui temos este problema. Não há uma sinergia entre as colaborações apesar de se tratar de um trabalho de companhia. Dá pra ver nitidamente o texto como ele foi escrito: uma cena depois da outra, uma com um acabamento melhor, outras que mereciam boa revisão, etc. E podemos também ver o texto por trás das opções do diretor. A mesma coisa acontece com os atores: ou falamos de cada um separadamente, ou não há o que dizer. O primeiro problema é que cada um fala com um nível de sotaque diferente, a ponto de ter dois atores em cena e você entender perfeitamente um mas não entender chongas do que o outro fala. Acho que um deles tentou facilitar pros brasileiros.

Há também uma contradição pouco produtiva no programa: o texto do diretor tem um tom bem-humorado, enquanto o texto do autor se leva muito a sério. Isso acontece em cena também, há uma mistura de discurso engajado com vontade de fazer graça. Talvez funcionasse se estes dois registros fossem concomitantes e houvesse um jogo entre eles, mas o que vemos são cenas sérias e cenas engraçadas se alternando aleatoriamente. Isso é um problema do texto. Os atores são experientes tanto em um quanto em outro registro e fazem um trabalho bacana quando a opção do diretor é deixá-los num lugar suspenso entre ator e personagem. Encontrei no sítio da companhia uma possível explicação para esta confusão.

Na sua apresentação, a companhia diz que quer promover através do Teatro uma educação pelo Divertimento. Teatro e divertimento com letras maiúsculas já é meio suspeito, agora, educação no meio é sempre arriscado e num sentido não muito prafrentex. Há um texto do Rancière, chamado O espectador emancipado, em que ele diz coisas muito relevantes a respeito dessa concepção de teatro em que os artistas têm algo a ensinar para o público, coitado, que precisa ser educado. O risco, neste caso, está em assumir uma atitude professoral, fazendo a pessoa sentada na platéia se sentir tratada como criança. Até porque, sobre Darwin, além da peça não dizer nada mais do que aprendemos na escola, ela diz menos… Ainda sobre isso, outro item dos objetivos da companhia descritos no sítio dá a pista: “Realizar espetáculos cultos que apesar de sua erudição: a) divirtam o público; b) não o intimidem pelo hermetismo de seus códigos.” Fico até na dúvida se desenvolvo isso ou não, porque a gente poderia ficar horas falando sobre este assunto. Então vou só levantar a bola e pra quem quiser conversar, estamos aí. O que é culto? Os programas da GNT? Quem é culto? O Jô Soares? O Diogo Mainardi? E o que é erudição? O que o “apesar de” está fazendo nessa frase? Este “apesar de”, pelo que eu entendi, não apenas coloca cultura e erudição no mesmo saco, mas também diz que ser erudito (ou culto) é chato, hermético e intimida as pessoas. Confuso, né? Pois é, o espetáculo é confuso neste sentido: quer ensinar sem investir no conteúdo, quer fazer graça sem abrir mão de se apresentar como culto e/ou erudito – sem rir de si mesmo.


Bonus track: palavra do autor
“O grande cientista contou com o apoio e a permanente colaboração, inclusive intelectual, de sua esposa Emma Darwin.”

“Inclusive intelectual” não é quase dizer que ela era muito inteligente “para uma mulher”? Ou que, além de cozinhar, lavar e passar, de vez em quando ela até palpitava numa ou noutra pesquisa do marido?

E outra: “Em síntese, sua obra – e, em conseqüência, Darwin e os canários cegos – levam-nos a refletir sobre os grandes enigmas da humanidade: Quem somos afinal?… De onde viemos?… Para onde vamos?…”
Nossa… que erudito.

1 autor, 1 diretor e 3 atores, cada um no seu canto.

'1 comentário para “Darwin e o canto dos canários cegos”'
  1. […] post não tem como finalidade apresentar uma critica a peça citada, recomendo o acesso ao site Bacante e ao blog Paperback Writer que fizeram resenhas sobre […]

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