Hysteria
Uma peça de separar casais
Uma senhora abre a janela e pede para nós, as mulheres da platéia, entrarmos e nos acomodarmos em três bancos de madeira, dispostos em U e no chão. Da porta, já dava pra ver o público masculino acomodado em uma arquibancada, encarando a gente. Sentamos nas laterais e no fundo da cena. A impressão que se tem inicialmente é de que está formada uma grande arena, mas com a grande diferença de que as atrizes só olham para as mulheres e só interagem com elas, como se os homens não estivessem ali. As mulheres estão praticamente do outro lado da quarta parede, enquanto os homens ainda permanecem invisíveis atrás dela.
A partir daí, junto com as atrizes, também somos internas daquele hospício e estamos em uma sala de asseios, teoricamente sob a tutela sábia do Dr. Mendes, o médico homem responsável pelo local. Nini, a senhora que cuida de nós, pacientes, é a representante da ordem e da instituição que castra a liberdade e anseios de todas, mas no fundo ela também tem os mesmos sonhos de qualquer uma das internas.
Entrar no espaço antes, ser acomodado numa arquibancada dedicada apenas aos homens e esperar pela entrada das mulheres com a curiosidade de saber onde é que eles colocariam o público feminino uma vez que a arquibancada estava lotada e os bancos do cenário eram nitidamente insuficientes era uma experiência curiosa. Com a entrada das “senhoras”, absolutamente incorporadas ao contexto do espetáculo ao serem recepcionadas por uma Nini que improvisa com a superlotação, comentando que “todas decidiram vir no mesmo dia”, o ambiente ganha um leve ar de humor – é a primeira sensação despertada ao ver que as amigas, mães, esposas e namoradas haviam sido convertidas em doentes histéricas.
Naquele lugar, o único sonho aceito é o de desejar um bom marido, constituir uma família harmoniosa e com filhos saudáveis, aprender a costurar, tocar piano e ser uma moça prendada. Se uma de nós fugir a esse padrão, somos consideradas histéricas e nossos pais e maridos têm todo o direito de nos internar num hospício. E isso não é de muito longe, de muito tempo atrás – ainda ouço na minha casa comentários como “sua comida está boa, já pode casar”, ou seja, mulher prendada pode casar. Ou comentários, nos dias de hoje, de que a mulher tem que ser graciosa e nunca encobrir seu marido. Só não me ameaçaram com o hospício. Ainda.
A mudança dos desejos da mulher do século XIX para a atual é contrastada na peça a partir da relação com as meninas e senhoras (platéia) que acabaram de chegar ao local, que já não sonham com casamentos e planejam enxovais, mas almejam progressos profissionais e casa própria. E aquelas personagens-mulheres estavam lá também porque não se contentavam em manter aquele papel na sociedade determinado para elas. Para compor o texto, as atrizes/criadoras foram atrás de arquivos e cartas reais, de pacientes consideradas histéricas que foram internadas no hospício Carioca Pedro II.
Assim como acontece em Arrufos, o século XIX – com seu romantismo burguês e seus vestidos esvoaçantes – serve de partida para levantar questões que não ficaram pra trás na história: o mesmo poder psiquiátrico brutal e ineficiente na identificação e cura de possíveis patologias, a mesma submissão – inconsciente – das mulheres a padrões de comportamento impostos pela sociedade, a mesma carência emocional que acomete personagens que têm suas vidas administradas pela militarização sutil da vida manicomial e o mesmo esquecimento que a sociedade impõe àquelas pessoas que, por um ou outro motivo, não são mais desejadas no convívio social. Isso tudo existe até hoje, e faz com que a ambientação temática de Hysteria seja apenas um detalhe diante de uma questão muito maior.
Naquele lugar, as meninas ainda esboçam reações a essa condição de confinamento. Declamam poemas, promovem jogos, cantos e danças, e envolvem a platéia feminina nesse clima de tentativa de busca pela liberdade, que deveria ser direito natural pra qualquer um de nós, homens ou mulheres. Nesses momentos, em que podemos nos libertar e participar da roda de dança, vemos os homens na arquibancada impotentes, sem poderem interferir ou se divertir também.
A interação conosco, mulheres-platéia-internas, acaba deixando cada espetáculo como único, uma apresentação diferente da outra. A capacidade de improvisação delas pode ser vista muito claramente quando Sara Antunes cria um poeminha (propositadamente fraco, mas bonitinho) com os dados da vida de uma integrante da platéia-feminina-internas, que estava sentada ao seu lado e que havia se casado com um vestido de noiva curto.
As interações/improvisações, além de desenvolverem paralelos divertidos entre 1897 e 2008, são a chave para tornar claras as semelhanças com os dias atuais (apesar de todas as diferenças culturais que são base para ótimas sacadas de humor), e para denunciar a precariedade do limite entre a sanidade e a histeria. Não é à toa que, ao final, Nini se revela muito mais frágil do que a postura austera que lhe é exigida por sua profissão, até mesmo porque seu papel administrativo/opressivo não a torna imune à pressão que a sociedade exerce sobre todas aquelas 105 mulheres histéricas espalhadas pelo espaço cênico.
105 mulheres em cena, de acordo com a contagem de Nini
eu SONHO em ver essa peça, desde um fest-rio preto que não consegui entrar. mas sabia que conseguiria vê-la em algum outro momento no tempo. onde está em cartaz? até quando?
que crítica mais fofa… 🙂
beijinhos.
Oi Maria Clara!
Está em cartaz lá na Vila Maria Zélia, sede do XIX. Mas acho que é só até este ou o próximo fim de semana. Depois eles entram em cartaz com Hygiene e, em novembro, Arrufos.
Beijos!