Mire Veja

Críticas   |       |    29 de abril de 2008    |    5 comentários

Como recortar um recorte ou Droga! Não cabe tudo!

PRÓLOGO

24. Uma estante

HITLER – Joachim Fest
MARKETING BÁSICO – Marcos Cobra
O VERMELHO E O NEGRO – Stendhal
O PREÇO DA GUERRA – Hans Killian
AS AVENTURAS DE SHERLOCK HOLMES – Conan Doyle
AS VALKÍRIAS – Paulo Coelho
BRASIL POTÊNCIA FRUSTRADA – Limeira Tejo
TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA – Jorge Amado
GUERRA LUA – Tom Cooper
TEATRO I – Maria Clara Machado
MULHERES APAIXONADAS – D. H. Lawrence
ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA BRASILEIRA – Professor José Hermógenes
O PALÁCIO JAPONÊS – José Mauro de Vasconcelos
OS FANTOCHES DE DEUS – Morris West
HISTÓRIAS DIVERSAS – Monteiro Lobato
O BOBO – Alexandre Herculano
OS EXILADOS DA CAPELA – Edgard Armond
AJUDA-TE PELA PSIQUIATRIA – Frank S. Caprio
O CHANCELER DE FERRO – J.L. Rochester
O FUTURO EM SUAS MÃOS – Jo Sheridan
O MAIOR VENDEDOR DO MUNDO – Og Mandino
VIDA DE MARIONETES – Ingmar Bergman
GABRIELA CRAVO E CANELA – Jorge Amado
MEMÓRIAS DE UM AMANTE DESASTRADO – Groucho Marx
GERÊNCIA DE MARKETING – John A. Howard
GESTAPO – Sven Hassel
O DINHEIRO – Arthur Hailey
O BHAGAVAD GITA РA.C. Bhaktivedanta Swami Prabhup̣da
A FÓRMULA SECRETA – Rick Allen
VIDAS SECAS – Graciliano Ramos
HIMMLER – Alan Wykes
ILUS̥ES РRichard Bach
REUNIÃO – Carlos Drummond de Andrade
CÃES DE GUERRA – Frederick Forsyth
ACONTECEU EM VARSÓVIA – Helen MacInnes
UM JEITO DE SER – Carl R. Rogers
FRASES DA VIDA – Bernard Lievegoed
O DIA DO CHACAL – Frederick Forsyth
O PODER INFINITO DA SUA MENTE – Lauro Trevisan
A SEPARAÇÃO DOS AMANTES – Igor Caruso
FERNÃO CAPELO GAIVOTA – Richard Bach
GRANDES ENIGMAS DA HUMANIDADE – L.C. Lisboa e R.P. Andrade
A PROFECIA CELESTINA – James Redfield
HOLOCAUSTO – Gerald Green
CHURCHILL: O LORDE DA GUERRA – Ronald Lewin
VIAGEM AO ORIENTE – Hermann Hesse
GRANDES ANEDOTAS DA HISTÓRIA – Nair Lacerda
OS FORJADORES DO MUNDO MODERNO – Volume 6
BRASIL, PAÍS DO FUTURO – Stefan Zweig
O HOMEM À PROCURA DE SI MESMO – Rollo May
CURSO TÉCNICO EM TRANSAÇÕES IMOBILIÁRIAS – João da Silva Araújo
A ERA DO GELO – Margaret Drabble
NOS DOÍNIOS DA MEDIUNIDADE – Francisco Cândido Xavier


25. Pelo telefone

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Vaca! Puta! Cadela! Desgraçada! Piranha! Puta! Puta! Puta!

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Piranha! Filha da puta! Desgraçada! Sou mulher de respeito! Não mereço isso! Desgraçada! Filha da puta! (Pausa) Mas Deus é grande… você há de ter o troco! Piranha! Vaca! Desgraçada! Desgraçada!

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
O quê que você ganha com isso?, cadela!, o quê? (Pausa) O quê que você ganha com o sofrimento dos outros, heim? (Pausa) Ver um filho chorando… sem entender… o pai… noites fora… A filha rebelde… a mãe… (Voz esgarçada) O pai… tem… outra… (Descontrolada) Desgraçada! Desgraçada! O quê que você ganha com isso? Filha da puta! Filha da puta!

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Sabia que ele não é mais o mesmo? Que está ficando velho? Heim? Você já pensou nisso? Que você é vinte anos mais nova que ele?(Pausa) Agora essa diferença não tem muita importância, não é mesmo? Mas… depois… quando ele tiver sessenta… ele será um maracujá murcho… e você?

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Agora deu pra mijar no chão… Não aquela gotinha no assento do vaso, não… que isso é normal… Mas uma pocinha no chão… como se… como se o jato não tivesse mais força, entende?, como se o jato não tivesse mais força…

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Sabia que ele não caga no centro do vaso? É sério… Eu até sei quando é ele que usa o banheiro… a bosta escorrega pela louça até chegar na água… parece… parece um rastro de lesma… Quando a gente abre a tampa vê… o risco endurece… fica agarrado… fede… E o porco filho-da-puta nem pra limpar…

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Se você tem alguma coisa pra arrumar em casa… esqueça! Não conte com ele… Ele não mexe em nada… É incapaz de lavar um copo que seja… Ah, e o pior é que ele tem mania de tomar leite com farinha láctea, meio aguada… a porcaria cola na borda do copo… uma nojeira! (Pausa) Trocar lâmpada, então! Fazer buraco na parede… hu!

“Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal.”
Você é jovem ainda… vai aprender… (Pausa) Mas aceite um conselho, um só: ele não é nada disso que está mostrando pra você… (Pausa) No começo,,, quando a gente não conhece direito outra pessoa… tudo são maravilhas… Porque o outro só mostra o lado bom dele… mas… depois… Qaundo a gente começa a conviver (Pausa…) O dia-a-dia é fogo! (Pausa) O fedor de cigarro… a remela nos olhos… o mau humor… os problemas na firma… a encehção de saco dos filhos… dos parentes… da mãe dele! (Pausa) Aí você descobre que ele gosta de dormir cedo e que depois que ele deita ninguém pode mais fazer nem um barulhinho sequer que ele já fica histérico… Que ele odeia novela… Que ele odeia sair de casa… Que ninguém pode falar quando ele está vendo o jogo do Palmeiras… que todo sábado à tarde, é sagrado, ele tem encontro marcado com os amigos pra beber cerveja… jogar conversa fora… (Pausa. A voz esgarçada) Então… então você vai descobrir quem é… de verdade… a pessoa que… a pessoa que está dormindo com você…


55. Via internet

Estou te falando, cara,vinte e cinco!, vinte e cinco só através da internet, nos chats e ICQ. E olha que eu não sacaneio, não, vou logo avisando: sou baixinho, gordinho, míope… mas muito viril! E sem viagra! Faço de tudo na cama… Bom, aí eu tasco poesia. Vinícius de Moraes é infalível. Mas, se precisar, uso golpe baixo. Comprei num sebo as obras completas do J.G. de Araújo Jorge… E, se a fulaninha é dessas mais… intelectualizadas… Byron! Você sabe… aquela conversinha… no fundo no fundo as mulheres só querem ser bem comidas por alguém carinhoso, romântico… Mas que não seja boiola!

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CRÍTICA

O capítulo 24 – Uma estante – do livro eles eram muitos cavalos não entrou na adaptação da Cia do Feijão. Nem o 25. Tampouco a frase que dá início ao 55. Muitos outros, entre os 69 e a página-final-sem-capítulo-a-que-pertencer, ficaram de fora. No entanto, sendo o próprio livro um apanhado de recortes(,) de histórias(,) de pessoas(,) da cidade(,) de São Paulo, era de se esperar que ao trazer para a cena as 150 páginas escritas pelo mineiro (!) Luiz Ruffato, a Cia do Feijão fizesse, ela também, suas escolhas.

Escolhidas e reencaixadas, as histórias vão se desenhando no centro de um palco em formato de arena e cinco atores se transformam nas 10.995.082 pessoa que vivem em São Paulo (segundo o site da prefeitura), sem contar as que só passam por aqui. Trazem os corpos, os sapatos, os sons de uma cidade que provoca sentimentos contraditórios e que tem o movimento como característica indiscutível, ora terrível, ora maravilhosa.

Movimentos e sons ditam o ritmo de uma encenação que não apresenta criações mirabolantes, cenários de um milhão de dólares ou rituais de 12 horas, mas consegue transformar em imagens o texto complexo de Ruffato, em que o conteúdo caminha intimamente ligado à forma e a linearidade é completamente deixada de lado. Apresentar os sapatos dos personagens como metonímia de vidas tão diversas e ao mesmo tempo tão iguais é uma das soluções encontradas no livro e, nesse caso, multiplicada na peça, ganhando ainda mais intensidade e poesia.

É preciso considerar que, talvez, a referência às ruas paulistanas seja uma limitação na fruição de quem não mora em São Paulo ou de quem mora, mas não vive. Por mim, tudo bem. Não só porque eu vivo em São Paulo – nessa São Paulo de sons, movimentos, pobrezas e belezas – mas também porque na metrópole estão aumentados como numa lupa os elementos da essência humana e do que é, hoje, nossa sociedade do medo. Unir o capítulo em que Ruffato descreve a cena de um rato mordiscando a pele de um bebê que dorme na rua às considerações finais do livro que revelam o medo de um casal em abrir a porta de casa após ouvir um gemido

(“_ Não vamos ajudar?
_ Ficou louca? (…) Melhor dormir… Vai… (…) Amanhã a gente fica sabendo…”)

foi uma das escolhas mais reveladoras da Cia do Feijão. E não revela somente os paulistanos, mas os medrosos todos. Todos os que esperamos pra ler as tragédias nos jornais. Amanhã.

90% do caminho andado ao encontrar o texto.

'5 comentários para “Mire Veja”'
  1. Daniel Martins disse:

    Esse é um comentário em solidariedade e apoio à moça que faz a crítica dessa peça. Um “artigo” tão bem escrito, com uma crítica tendenciosa que tenho a absoluta certeza qualificar a peça corretamente, sem nenhum comentário… é um absurdo. Enquanto as peças comentadas pelo “marido” dela são altamente repletas de comentários…..só pode ser fruto do machismo da sociedade em que vivemos.
    Apoio à massificação dos comentários para peças “criticadas” pela Juli!!!!!

  2. Juli disse:

    Muito obrigada! Agradeço pela campanha… não que eu ache que vai dar em alguma coisa… hahaha Do seu comentário, o melhor foi falar que a crítica é tendenciosa! rs É isso aí. Pegou o espírito da coisa…

  3. Gislaine disse:

    Que bonita a sua critica sobre a peça, tão bonita quanto a própria peça, rica em detalhes e sutilezas.
    Disse tudo!!!
    Eu amei “Mire e Veja”, achei um espetáculo de uma simplicidade deslumbrante. Histórias muito bem contadas, mas não só contadas, re-vividas e compartilhadas. Me senti como uma testemunha de cada detalhe das histórias dessa nossa SP, e que cidade linda, rica e ao mesmo tempo feio e pobre é São Paulo.

  4. neko disse:

    uma bosta…

  5. Fabrício disse:

    Mais um com piriri. É virose!

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