O Trenzinho Caipira
Dó, ré, mi, fá, fá, fá! Dó, ré, dó, ré, ré, ré!
Fotos: Divulgação
Não me lembro de ter assistido nenhuma peça infantil quando criança. O máximo que ia até a cidade onde nasci era o circo (esse sim uma grande paixão). Mas pra suprir a falta de teatro e cinema em Tupaciguara as professoras organizavam passeios educativos. Íamos ao museu, plantar árvores na beira de uma represa, ou visitar o parque com o zoológico em Uberlândia. Tinha profundo ódio quando chegava, porque tudo o que tínhamos visto e feito se transformava em redação, aula de biologia, desenho de artes, problema de matemática. Parece que ainda hoje as coisas continuam um pouco como antes. O que era para ser uma experiência cultural infantil se transforma em uma aula de reciclagem, proteção dos animais, ou quem foi Villa Lobos.
Não que isso seja ruim, o problema é quando isso vira o ponto chave da atividade, e o prazer do acontecimento vira uma sala de aula! Nos primeiros 10 minutos do espetáculo O trenzinho do Caipira, da Cia. Do Abração (Curitiba), seis atores e um cavalo de pau – cada um representando uma nota musical – estão numa estação de trem, com uma carta que receberam de Villa Lobos, prontos para pegar o trem. Só com essa introdução já senti que vinha mais uma peça feita especialmente para escolas, uma felicidade para as professoras que poderiam unir seus métodos educativos ao teatro que fala do importante músico brasileiro. Que ótimo! Logicamente eu veria um espetáculo que usaria das músicas e pesquisas desse maestro pelo Brasil instigando o pensamento lúdico da garotada! Engano meu!
O que se seguiu foi uma dramaturgia cheia de boas intenções, mas que utilizando um didatismo forte, forçava os atores a interpretações infantilóides. Ao falar, cada personagem-nota-musical, utiliza estereótipos para afirmar uma definição de discurso próprio, tratado ilustrativamente, com sotaque de Rede Globo (como o mineiro, a nordestina e o carioca de voz empostada) e enfatizando sua nota no diálogo, em tom Tink Wink. Tratando as crianças com o princípio de que aquelas informações podiam ser novas, tudo era motivo para perguntas e respostas. “Ciranda! Noooooosa! O que é uma ciranda?” (perguntando para si e para todos do teatro) “Você não saaaaaabe? É uma manifestação po-pu-lar, é o nosso fol-clo-re!” (aquele dinossauro roxo ficaria com inveja) “Que interessaaaaaante!” (pronto! Descobriu o Brasil!).
Se a aula desse certo, tudo beleza (pelo menos seria informativo), mas ao combinar a confecção de um trem (já que o que os atores esperavam partiu sem levá-los), efeitos visuais, músicas e a história do músico, faltou algo que costurasse a peça, sem deixar rebarbas.
Timidamente, as músicas entram como pano de fundo para momentos com propósitos poéticos, que duram pouco. Os atores, aparentemente sem treinamento musical, escorregam quando tocam e cantam, e chegam a uma pseudo-brincadeira de dublar instrumentos, que como não é levada ao extremo de ser sério, acaba sendo piegas.
Os elementos visuais são jogados exaustivamente, causando um impacto de encher os olhos da molecada, com cores, bolhas de sabão, chuvinha de brilhos, figurinos cheio de detalhes, guarda-chuva e bandeiras de flores. Contudo que não complementam as cenas, apenas ilustram. E quando os objetos auxiliam na contação dos fatos, como o cavalinho Farelo (representante oficial da nota Fá), não passam de simples objetos sem ludicidade e afetividade, e o cuidado de uma manipulação tecnicamente bem executada.
Ao som do Trenzinho caipira o elenco sai de cena a bordo do seu trem montado com caixotes de tomate decorados. As crianças batem palmas acompanhando a música (acho que em toda peça elas devem ficar esperando um momento pra poder acompanhar com palmas). Vem então a lembrança de um texto antigo (lá dos anos 80) de Marco Camarotti falando sobre o teatro infantil, e o descaso que normalmente os adultos apresentam em relação à inteligência e capacidade crítica da criança. As crianças continuam batendo palmas (uma das primeiras coisas que aprenderam na vida), e aparentemente tudo está numa boa!
153 crianças saíram do teatro se perguntando onde fica a tal Vila dos Lobos


Em nossa experiência no FIT de São José do Rio Preto, recebemos um outro olhar que gostaríamos de compartilhar:
Pegue esse Trenzinho do Caipira
“Se a música é o alimento do amor, tocai.” Essa primeira fala da comédia Noite de Reis, de William Shakespeare, pode nos lembrar que entrecruzamentos entre linguagens artísticas sempre nutriram diferentes artistas. Música e teatro não fogem à regra, desde os sons embalando rituais ancestrais ao kathakali, de Brecht e Kurt Weil a Chico Buarque e Paulo Pontes, dos cantos de Antonio Nóbrega ao club cênico do Fuerza Bruta de Buenos Aires, da música pós-industrial do La Fura dels Baus aos instrumentos reciclados de pvc e garrafas pet do Udigrudi de Brasília.
Ligando música e teatro para crianças (ou para todas as idades), muitos podem lembrar-se de belas adaptações cênicas de Pedro e o Lobo. A obra musical de Prokofiev teve uma enorme visibilidade internacional com o filme homônimo dos estúdios de Walt Disney. Hilário lembrar também que após assistir Fantasia do mesmo Disney, Heiner Müller declarou-se traumatizado pelo pavor de que, doravante, sempre que ouvisse Tchaikovski ou Stravinski estaria visualizando hipopótamos bailando e ratos fazendo mágicas.
Pavor muito maior é ver que em diversas cidades do Brasil, versões requentadas dos estúdios estadunidenses ou produções sem crítica ou reflexão são reproduzidas nos palcos para crianças. Não, perdão respeitável público, contra crianças! São tramas, valores, discursos e mensagens duvidosas, que reforçam idéias preconceituosas, classistas, sexistas, racistas, ageistas ou fascistas. Infelizmente, há um filão do teatro infantil que abastece uma prática capitalista perversa que ignora a contundência da linguagem teatral na educação formal e informal de futuros adultos. Mas o Brasil tem artistas e grupos que buscam outros caminhos para nossas crianças – como a Cia. do Abração, entre muitos outros, felizmente.
Benzido por Heitor Villa-Lobos, o Trenzinho do Caipira privilegia a criatividade e a estÉtica. Ao invés de requentar tessituras perversas, o Trenzinho se inspira na sublime composição do tio-avô do Dado (Legião Urbana), para construir um trabalho singelo e bem pensado no qual se transpira o respeito à criança, à brasilidade, à amizade e à transformação. Na apresentação que assisti aqui em São José do Rio Preto, houve alguns picos de fluidez na trama e, talvez por isso, na interpretação – descontinuidade que as elaboradas dramaturgia e direção podem facilmente resolver com o dedicado elenco. Dentro da maturidade construída pelo grupo desde 2001, a Cia. do Abração mantém espaço próprio e independente em Curitiba com Escola, biblioteca, Teatro, Núcleo de Teatro Amador, grupo permanente de pesquisa, eventos de formação profissional e repertório. Em um país que respeitasse mais suas atividades artísticas, eles certamente teriam uma força maior por parte dos que cuidam de nosso patrimônio cultural, presente e futuro.
Que deuses e deusas nos protejam de perder a auto-crítica ou a capacidade de reflexão e ação, mas este artista cênico e professor que aqui vos escreve nunca quis nem quer ser crítico. Não por falta de admiração por críticos que desempenham dignamente sua profissão, mas por absoluta incompetência da pressão industrial de um jornal e da possível imposição de criticar trabalhos que não acredito que mereçam espaço ou que não motivem minha curiosidade, vontade de aprendizado, admiração e desejo de criação e mais ainda por uma certa estranheza ética de criticar colegas. Mas O trenzinho do caipira me facilitou muito o desafio, pelo prazer e emoção. Assisti ao espetáculo ao lado de minha mais jovem e mais nova amiga, Noa, filha de Naomi e Rick do LUME. Ela em seu primeiro ano de vida, eu celebrando mais outro. Assim como a platéia, nós dois estávamos embalados por razões e idades diferentes, mas igualmente encantados pelo presente da Cia. do Abração. E você, pegue esse trem quando ele passar por sua cidade. E boas viagens.
Fernando Villar – Graduado em Artes Plásticas na UnB, pós-graduado em Direção no Drama Studio London e Ph.D em teatro e performance no Queen Mary College, Universidade de Londres. Desde 1981, vem exercendo diferentes funções artísticas como autor, diretor, encenador e performador em diferentes cidades das Américas e Europa. É Professor do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes da UnB.
(Extraído de http://www.festivalriopreto.com.br, painel crítico)
estou trabalhando com projeto de música no CEI onde leciono, e gostaria de fazer um painel sonoro, vocês podem me ajudar. Att, Alessandra
alessandra, é melhor vc procurar o grupo, aqui é um site de críticas, provavelmente, eles não veram o seu recado.
Abs