Pão com Mortadela

Críticas   |       |    3 de setembro de 2007    |    8 comentários

Ctrl+C / Ctrl+V

Pão com mortadela é uma adaptação de um texto do Bukowski. A primeira questão é: quanto do autor sobreviveu aos processos de adequação à necessidade de fazer um espetáculo que queria dar certo?

Dar certo: que porra é essa? Vamos partir do pressuposto que um jovem ator, bonito e simpático, cheio de garra e disponibilidade, resolve reunir seus esforços, juntar seus amigos, chamar um diretor que curte dirigir jovens e… montar uma peça. O que pode dar errado? Os atores têm as suas aptidões, o ator principal tem os requisitos necessários pra ser uma grande revelação no showbiz carioca, o texto é super legal, o diretor é um amor. Vai ser um sucesso. “O público vai adorar!”

Veja bem: Bukowski. O cara quando adolescente era feio pra caralho. Aí o pessoal monta uma peça sobre a juventude do referido autor e quem faz o monstro? Um jovem lindinho. Tem algo errado ou fui eu que não entendi? Então vamos ao começo: um ator em busca de uma atitude autônoma resolve montar sua peça. Até aí, tá ótimo. Mas tem algo entre o “o quê” e o “como” que não funciona muito bem. A própria idéia de montar um texto tipo-Bukowski já sugere, de cara, que o idealizador do projeto saia do lugar seguro onde está pra buscar referências totalmente diferentes do universo “jovem ator da zona sul do Rio”. Os dois mundos não combinam. Mas a escolha estava feita, faltava juntar o que eles tinham à mão e trabalhar. No entanto, o trabalho necessário talvez fosse buscar o que não estava à mão… O resultado ficou meio blé: os cenários e figurinos em tons pastéis, tudo limpinho; os atores e atrizes, lindos e cheirosos. Cadê o Bukowski e aquelas criaturas horrendas de que eles estão falando? Dá pra entrar nesse imaginário a partir do conforto? Ou a proposta não era entrar pra valer, mas simplesmente fazer a peça como quem lê um livro em sua deliciosa poltrona na sala de estar? Acho que escolheram a segunda opção.

Voltando à questão do “dar certo”… Sempre que vou ao teatro ver peças de jovens, tenho uma grande esperança de que não vou ver o estereótipo do teatro jovem. Vou com a expectativa de assistir algo novo, sem vícios, com (pelo menos) pouco lugar comum. Espero ver formas diferentes de estar em cena, novas vozes, outros sentidos para as coisas. Porque se você parar pra pensar, por um lado, faz sentido: já que as pessoas estão investindo energia em começar alguma coisa, por que começar pelos lugares seguros? O que se tem a perder neste caso? Mas por outro, é maluquice minha, porque o normal mesmo, em geral, é começar imitando o que já existe e depois ir ganhando maturidade pra ver o mundo de outra forma. E aí eu penso no discurso da peça, no caso do protagonista ser um sujeito marginalizado, diferente, que trilha um caminho mais solitário, e concluo com o que já disse antes: “o quê” e “como” não combinaram. E a minha expectativa não se resolveu dessa vez. Pão com mortadela tem aquela cara de teatro jovem que gostaria de ser teatro adulto, de ator se preparando pra entrar no mercado, querendo ser aceito. Normal… Estou convencida: teatro experimental é teatro de gente grande. Jovens atores universitários não estão interessados em se arriscar nisso. Tô errada? (Por favor digam que sim…)

A concepção da direção pareceu um pouco descolada do sentido do texto. É como se os atores tivessem pensado em como eles gostariam de se apresentar; então chamaram um diretor que pudesse proporcionar isso; o diretor foi lá e deu Ctrl+C nas coisas que ele faz, depois deu Ctrl+V na peça e pronto: vestiu tudo com o seu estilo e foi indicado ao Prêmio Shell. Tive uma sensação de dèja vu: uns truques de organização de cena, uns trejeitos importados de outros atores, o final da peça contado do avesso em pequenos quadros… Deu, né?

O pior é que o antes e o depois da peça também não colaboraram pro sucesso do negócio. Pra começar, chego no Teatro do Leblon, apresento meu ticketzinho comprado com antecedência e quem me recebe no teatro é… uma hostess! Como assim? O que aconteceu com o lanterninha? Esse mundo tá perdido… “Mesa pra dois por favor.” Então entro na sala Tonia Carrero – pela primeira vez – e reparo em algumas coisas estranhas:

1. O teatro não tem palco, só tem proscênio. Como aquela sala era um cinema, os arquitetos responsáveis devem ter achado que é tudo a mesma merda, então não tem problema fazer de qualquer jeito.

2. Não tem fila A, o que me deixou muito confusa na hora de achar a fila C e a tal da hostess não funcionou nessa hora. Ela precisa fazer um curso de lanterninha.

3. O teatro estava vazio e tinha uma fila imensa parada lá fora, pois o teatro estaria, a princípio, lotado. Os ingressos começaram a ser vendidos depois do horário de início da peça. Não sei quem eles estavam esperando, mas devia ser um monte de gente importante. Em especial, o pessoal da fila J, três criaturas que chegaram muito atrasadas, mas a peça não começou antes que elas se acomodassem.

Tem coisas que só o Teatro do Leblon faz por você.

Depois, ao fim da peça, fui ler trechos de críticas que se encontravam impressos num grande banner ao lado da bilheteria. Acho que li mais de uma vez a palavra “estrela”, por exemplo: “Fulano é a estrela da peça”, coisas do gênero… Fazer crítica nestes termos pode ser muito nocivo. Afinal, é esse feitio de crítica que pode vir a dizer, um dia, que este mesmo ator tem a expressividade de uma empada. Estrelas e empadas não dizem respeito ao pensamento artístico, não propõem discussões ou questionamentos. Por isso, depois de ler frases tão elogiosas quanto vazias, fiquei com vontade de ter alguma voz, de estar em algum lugar que me dê respaldo pra dizer: Cara, não entra nessa pilha de estrela não. A peça ficou legal pra algumas pessoas mas isso não é suficiente. Aproveita a sua energia pra correr riscos. Não falo de riscos de produção, de investimentos, nada disso. Experimenta ficar feio, ser um mau ator, montar um texto que você ache que ninguém mais vai gostar. Você tá com a faca e a mortadela na mão. Vai cortar mortadela, como todo o mundo? Por que você não corta a mão?

1 estrela e 1 empada pra você também

'8 comentários para “Pão com Mortadela”'
  1. Ronaldo Ventura disse:

    Gosto muito dos seus textos, Daniele. Não vi o espetáculo por mera questão geográfica, já que sou fã de Bukowski… MAs fico imaginando o que eu faria (ou sentiria) vendo aquilo que você viu…

    Meu Deus, “O Horror, o horror…”

    heheehhe

  2. Daniele Avila disse:

    Fiquei afim de acrescentar uma coisa. Acho que até mudaria o título.
    Tem uma cena de sala de aula: uma fileira de alunos sentados em suas cadeiras de frente pra platéia e a professorinha de pé, ao lado. É a cena em que a redação do cara é elogiada. Nessa hora, mais até pela careta da Rosanna Viegas, que está sentada bem no centro, a cena quase vira um quadro do Norman Rockwell. Eu adoro o Norman Rockwell, mas foi aí que caiu a ficha de que as coisas estavam um pouco fora do lugar na minha cabeça… Não devia ter mais cara de coisa do Robert Crumb?
    Por isso, mudaria o título para Norman Rockwell X Robert Crumb. Mas enfim, passou da hora, né?

  3. Angélica disse:

    caralho, minha filha, disse tudo!

  4. victor disse:

    Bom, eu curto Bukoski pra caralho e fui ver a tal peça. Apesar de pressentir que ia ser uma merda a curiosidade falou mais alto…

    E atendeu a todas as minhas expectativas! Foi uma bosta.
    Rasguei meu dinheiro.

    No começo da peça um cara lá falou pra todo mundo se embebedar pra facilitar a digestão da porcaria que ele ia apresentar. Eu estava bebado mas não o suficiente pra aguentar até o final.

  5. Leda Maria Araujo disse:

    Vi a peça em S Paulo e adorei. Achei perfeito como se transfiguram para fazer seus personagens. Qdo eles contam a história parece até que vc está vendo o cena.São atores jovens, talentosos que a gente vê que amam o que fazem perfeito.

  6. cgsmoura disse:

    A primeira coisa que incomoda em “Pão com Mortadela” é o ritmo inicial da encenação. Um pouco rápido demais, em tom de comédia, uma trilha sonora alegre. Não combina com Bukowski (menos ainda com a infância de Bukowski). Depressão, ritmo amarrado, densidade é o que se esperaria. A segunda perturbação, independente do cinzento universo onde ele viveu, é o excesso de narrativa. Uma doença moderna, no teatro e no cinema. Diretores estão a dizer que suas platéias são estúpidas, incapazes de ligar os pontos por conta própria, o que empobrece os espetáculos. Felizmente, deixando isto de lado, “Pão com Mortadela” merece só elogios. Depois que nos acostumamos com uma linguagem meio cinematográfica e com o a linguagem “Cidade de Deus” do espetáculo, que de resto apresenta alguns jogos e metáforas bem interessantes, podemos apreciar uma bela obra de teatro. A atuação é muito boa, mais das meninas do que dos rapazes. Mas o brilho mesmo está no texto. Um exemplo muito positivo de adaptação da literatura ao teatro sem perder a essência. Termina-se com uma idéia clara e de certa forma ao mesmo tempo confortadora e perturbadora sobre a gênese de um gênio “do mal” como Bukowski. Confortadora porque os erros que com ele foram cometidos podem ser evitados facilmente. O lado perturbador é considerar, como cita o texto, que basta dar uma máquina de escrever a um homem triste para se ter literatura instantaneamente. Como disse Borges, “não conheço nenhuma boa obra literária que seja fruto da felicidade”.

  7. Joana disse:

    Bom, o ator é bonito mesmo, e mesmo assim, sem saber que o Autor era feioso, ele conseguiu passar que era feioso. Ele tava interpretando, muito bem, como todos os outros…Que coisa, se um bonito pode representar um feio, porque um feio não pode representar um bonito?
    A peça tem várias estrelas e, acreditem, não sou amiga de ninguém.
    Gostei e recomendo,

  8. Bruno disse:

    Nao sou muito de ir ao teatro, mas mesmo assim senti o forte lugar comum no modo de encenar a vida de um adolescente excluído ou revoltado. A princípio achei que isso era por causa do autor do livro (nunca li), mas agora vejo que este divide a culpa com os idealizadores da peca. Nao gostei mesmo, mas talvez por ser a única peca que fui em mais de 5 anos, eu nao seja um bom referencial.

O que você acha?

A Bacante é Creative Commons. Alguns direitos reservados. Movida a Wordpress.