Sobre Anjos e Grilos – O Universo de Mário Quintana

Críticas   |       |    3 de setembro de 2007    |    1 comentários

Anjo de chapéu, asas na bunda, rumo às estrelas

Já emiti aqui na Bacante a minha opinião sobre monólogos. Em geral, vejo problemas em como justificar um ator ou uma atriz falando sozinho no palco e muitas vezes os autores não se preocupam com isto. Entendem que a mise-én-scene se fecha sozinha, como se a teatralidade por si só justificasse alguém falando consigo mesmo e pronto. Fim da discussão. Creio que a coisa é mais profunda do que isso, mas fico muito feliz quando encontro justificativas bem resolvidas e contextualizadas, como no monólogo Pois É, Vizinha, de Dario Fo e Franca Rame. O autor deixa claro à platéia que a empregada está conversando com uma vizinha através da janela de seu apartamento. Assim, o público se transforma na vizinha a quem aquela personagem conta seus causos e se revela. Este monólogo em especial me foi muito caro quando o assisti na Unisinos, no Rio Grande do Sul, lá pelo ano de 1998 (ou 1999, não me lembro ao certo). A atriz em cena era Deborah Finocchiaro e ela utilizava sua potente verve cômica para retratar a empregada, que não era uma mera caricatura como a Olímpia de Trair e Coçar É Só Começar.

Pois é, leitor. Agora, vejo a mesma Deborah Finocchiaro em situação adversa. Em cena, sozinha novamente, agora com a Companhia Solos & Bem Acompanhados (adorei), ela está em cartaz no SESC Pinheiros com Sobre Anjos e Grilos – O Universo de Mário Quintana. E o espetáculo não justifica nada. Deborah entra em cena, começa a falar e o espectador fica tonto, não entende: o que está acontecendo? Nos primeiros vinte minutos, a única informação que eu pude processar foi: “Ah, tá, ela é o Mário Quintana”. Depois, paulatinamente fui entrando no espetáculo. Sei muito bem do apego dos gaúchos pela poesia de Mário Quintana e imaginei que Finocchiaro queria fazer uma grande homenagem ao poeta, entretanto, só pude conceber o espetáculo em minha mente alguns “récites” depois, quando entendi que o propósito do espetáculo, como o nome informava, era mesmo mostrar o universo de Mário Quintana. Daí para adelante, pude aproveitar plenamente.

Finocchiaro é uma puta atriz (no bom sentido) e vai de uma ingênua criança a um velho engraçado com muita competência. No gênero cômico, ela é esplêndida, porém seu potencial dramático não fica atrás . Versátil, sua postura e seu corpo estão a serviço da poesia de Quintana. A atriz é multifuncional: dirige, escreve, interpreta, tal qual uma Denise Stóklos do Rio Grande do Sul Incrível como não conseguiria agora imaginar uma atriz tão intensa e poderosa para transmutar Mário Quintana no palco. Somente uma garota que pudesse pular corda, dançar, gritar e silenciar-se poderia trazer vida tão vívida a tais poemas.

Atrás dela, uma grande tela em que são projetadas as ilustrações e animações de Zoravia Bettiol, que complementam a partitura corporal da atriz e dão um toque lírico-imagético à récita e à cantoria. Isso, cantoria. Deborah transforma alguns dos poemas em canções deliciosas, às vezes um rap, às vezes um tema pop, noutros canções da querência gaúcha, como o Poeminha do Contra, que todos conhecem:

Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Logicamente, a platéia se esbalda nos momentos em que a atriz declama trechos engraçados, recitando coisas como:

O fantasma é um exibicionista póstumo

O espetáculo é multimídia. Finocchiaro brinca com as animações, interage e transcende a poesia. Tira-os das páginas e abre-os na cena, em três dimensões, apoiada pela belíssima narração de Paulo José. Com toda esta parafernália e estes retalhos de versos aqui e acolá, poderia ser um fiasco. Mas não é. A colcha acaba sendo bem costurada com a aparelhagem cênica e a mùsica.

Nada seria se não fosse Quintana. Sua obra perpassa recônditos universais através de tiradas espertas e irônicas envoltas em um bálsamo cômico, piadista, de uma leveza que poucos conseguiram imprimir em letras existencialistas. O texto da atriz reforça a inquietação do poeta com o progresso. O gaúcho reclama da “concretificação” das coisas, dos edifícios que se erguem como prisões e engolem dia-a-dia o campo e sua inefável essência ingênua, límpida e doce. Como se a ingenuidade das crianças lhes fosse usurpada cedo pela responsabilidade de ser adulto. Quintana profere fórmulas de dar inveja a feiticeiras de auto-ajuda com seus O Segredo debaixo dos braços: simplifica a vida dizendo que todo adulto deve ter direito a ser criança e que a vida não é nada se não soubermos enxergar a simplicidade e o gostoso de viver. Sua interpretação da vida se alinhava com a do espetáculo, no qual o crescendo se estabelece na pura cena em que Quintana/Finocchiaro, com puerilidade irônica e irreverente acidez, fala da morte e, em pequenos versos, diz que:

A morte é a libertação total:
a morte é quando a gente pode, afinal,
estar deitado de sapatos

4 estrofes que me fizeram rir alto de dar vergonha no pequeno auditório do SESC Pinheiros

'1 comentário para “Sobre Anjos e Grilos – O Universo de Mário Quintana”'
  1. ELISABETE DA SILVA disse:

    Agradeço por você compartilhar um pouquinho desta maravilha conosco…sou da cidade de Venãncio Aires e adorei tua performace..na apresentação que você fez. um abraço

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