Sobre devorar e ser devorado

Críticas   |       |    3 de junho de 2008    |    0 comentários

Eu e Machado, Machado e eu

Adentrei o espaço onde hoje se situa o Ágora Teatro e senti-me um tanto incomodado com as áreas mal dispostas do que pareciam ser espaços cênicos. Aos poucos fui me acostumando com aquele incômodo que consumia, mas ainda acho que há modernidade excessiva naquela arquitetura. Primeiro vi um tal espetáculo de cujo nome nada se conclui e da montagem ainda menos. Mas aquele pouco importava, já que a noite era machadiana, como o nome do projeto bem anunciava.

No palco, um conto e um romance transpostos de maneira que você, caro leitor, não saberia distinguir o limite entre teatro e literatura, tampouco eu o pude: Sobre devorar e ser devorado. Coisa estranha essa de colocar dois protagonistas. A princípio, pensei que era um, logo descubro que, por haver dois, é o mesmo que não haver. De modo que não há como nos bandearmos pra um ou pra outro lado, diferentemente da condução usual dos narradores sacanas (ou sacanas narradores) de Machado de Assis. Autonomia de quem adapta.

Nenhum dos dois é referência moral, visto que a peça não era encenada na Câmara Municipal. Cala-te boca, que de macropolítica não se fala nessa montagem. Aprofundamo-nos na proposta, encontrando a miséria de algumas ações humanas. Curioso como a miséria moral em Machado é freqüentemente associada à fortuna material. E concluí que fica impossível distinguir se a miséria é recaída ou condição de existência. Aiai, meu Dostoiévski.

Blabla, mas o que importa é a noção milimétrica dos atores, ao entrarem no palco, de que aquilo que sai de suas bocas é cena e não literatura. Irônico reparar que talvez esses atores consigam achar mais fé nessa transposição do que muitos outros achariam em textos de cunho dramatúrgico. Afinal há autores e autores, atores e atores, críticos e críticos.

Volto pra casa procurando culpados, de bobo e simplista que sou. Culpado sou eu de procurar um único culpado. Bacanas essas histórias do Machado de Assis.

4 sons estranhos com que me acostumei ao longo da peça

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