Un hombre es un hombre
A dialética inexistente
O grupo uruguaio El Galpón existe por espantosos 60 anos (fundado em 1949). Na IV Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo o grupo trouxe o espetáculo Un Hombre es un Hombre, de Bertolt Brecht.
Logo que entramos na grandiosa sala Jardel Filho do CCSP, surpreendemo-nos com os atores perambulando pelas cadeiras, conversando com quem entra, fazendo pequenos números isolados etc. No palco absolutamente exposto, isto é, sem cortinas ao fundo (que revela uma linda parede de tijolos inclinada num ângulo diagonal), uma pianista toca gêneros do blues ao pop contribuindo mais ainda pra atmosfera leve, aberta, complacente e estranha como num cabaré. Que, aliás, é uma das grandes influências de Brecht: o cabaré alemão e as experiências de Karl Valentin.
Mas o espetáculo começa (a transição é feita com pequenas cenas ainda na platéia, onde os atores fazem piadas dizendo que “não é necessário entender tudo”; “se quieres compreender las cosas que vá ver La TV”, ou ainda, “Se não compreender, não devolveremos o dinheiro das entradas” – felizmente, a peça foi gratuita). A primeira cena “no palco” já é um salto temporal em relação à obra. Pula-se toda a parte inicial onde o soldado Jeraiah Jip fica preso ao tentar assaltar um templo indiano local. Representa-se, então, a primeira contagem do comandante Sanguinário 5, que percebe a falta de um soldado. A surpresa é que “no palco” mantém-se, como na introdução, uma interpretação cômica, farsesca e gestual, que será o tom da representação até seu fim. Cenas engraçadas, caricaturadas, de movimentações dinâmicas são permeadas por uma trilha sonora executada ao vivo ao piano, que continua o repertório de blues americanos e adaptações em espanhol, com melodias pop.
O texto de Bertolt Brecht mostra o estivador indiano Galy Gay, “que não sabe dizer não”, sendo “desmontado” e, então, “re-configurado” no sanguinário soldado inglês Jeraiah Jip. A fábula representa o processo de naturalização ideológica, referindo-se, obviamente, à ideologia de mercado capitalista. A expressão que dá título à obra, Mann ist Mann, em alemão, é a metáfora crua e pontual da indiferença em relação ao homem e da facilidade em se criar configurações que pareçam naturais, por mais absurdas que o sejam. Ao fim do texto o ex-estivador Galy Gay investe febrilmente com seus canhões contra as cidades indianas. Já tornou-se Jeraiah Jip; afinal, um homem é um homem.
Quando o grupo teatral El Galpón opta, no entanto, pela representação cômica e caricatural, a peça toda incorre numa diluição crítica. O estranhamento que Brecht propõe, da absurda transfiguração de um homem em outro, só pode funcionar, em registro dialético (isto é, expondo episódios contraditórios para que a síntese aconteça na análise deles pelo público – um público sempre participante e não contemplativo), quando apresentado de forma absolutamente natural. Quando se falseia a representação o fato já é mostrado definitivamente como absurdo cômico antes de qualquer leitura que se possa ter da obra e das complexidades sistêmicas referidas. Assim, toda a peça ganha ares de denúncia social (“para nos fazer refletir sobre a estupidez da guerra”, já diz um texto sobre a montagem) algo que é totalmente contrário à dialética do teatro épico, pois assim não se questiona o processo econômico-social (raiz de todas as guerras), mas apenas indigna-se, na melhor das hipóteses, com seus efeitos. Soma-se a isso a presença bastante equivocada de uma narradora, que durante a encenação faz discursos, em nome do dramaturgo alemão, apontando as contradições dos fatos com ênfases bastante moralistas, ou seja, mais um elemento da montagem que entrega previamente uma suposta resposta dualista ao estranhamento proposto por Brecht.
No entanto, a estrutura de cabaré que existe na entrada do público e num pseudo-intervalo, no meio da peça, consegue um ambiente claro, limpo, de atenção e comicidade crítica junto ao público, que se sente, de certa maneira, participante da ação (exemplo óbvio é que as luzes da platéia estão acesas nesse momento). Mas quando “a peça começa” (ou recomeça) a tentativa é a da “representação do cabaré”; a representação da farsa. A partir daí o público assiste, incólume e sem qualquer esforço, a “mensagem” que o grupo El Galpón veio nos passar. Ainda nesse sentido, a música executada sempre num registro melódico lembrando o pop universal e/ou os musicais modernos, contribui para uma empatia acrítica, gerando o fenômeno, pouco usual num teatro que se pretende político, dos aplausos em cena aberta (Brecht dizia, sobre a música, que deveria constituir-se de um registro oposto aos padrões identificáveis pelo público, agindo como quebras e comentários e jamais como momentos de beleza e deleite. As composições de Kurt Weill dão uma ideia bastante justa do que isso significa); mais um dado do espetáculo, portanto, que foge à dialética e afirma uma via dualista, e diluída, diga-se de passagem, da arte política.
A discussão que proponho é sobre os méritos daquilo que se convencionou chamar Teatro Político. Muito se debate sobre a atualidade, ou não, de autores como Bertolt Brecht. No entanto, as argumentações contrárias à eficácia de seu teatro épico-dialético na maioria das vezes se concatenam sobre um diferencial histórico entre nossa época e os anos obscuros, permeados pela 2ª Guerra, em que Brecht escreveu. Esquecem-se, entretanto, ou recusam-se a olhar, que o que Brecht propõe enquanto teatro político é muito menos um discurso datado e afirmativo do que uma sistemática entre forma e conteúdo (grandes exemplos sobre esse tipo de atuação podem ser encontrados nos 10 anos de trabalhos da Cia. Do Latão, ou, em âmbito cinematográfico, nos recentes longas do dinamarquês Lars Von Trier: Dogville e Manderlay). Todavia, montagens como essa do El Galpón e tantas outras, que se estruturam a despeito da sistemática dialética, contribuem para um preconceito tolo sobre um teatro ativo e político. Ou, ainda pior, tornam a ação teatral crítica somente festiva e institucionalizada.
1h20 no trânsito pra ir, 1h10 na fila de espera, 1h15 de espetáculo, 1h30 no trânsito pra voltar.
O Luiz Fernando gostou!