FITEI 2007 – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica

Especial   |       |    11 de junho de 2007    |    1 comentários

Queremos ingresso gratuito

Não posso dizer que não tentamos. A Bacante me enviou ao FITEI, o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, um importante acontecimento na cena teatral portuguesa. Sim, esta revista arranjou um correspondente internacional (eu) para a árdua tarefa de cobrir o evento que acontece há trinta edições no Porto, Norte de Portugal, trezentos mil habitantes, cinco linhas de metrô e inúmeras confeitarias.

Esta cidade, que costuma receber espetáculos de renome (como “Sua excelência, o candidato”, com Reynaldo Gianecchini), é invadida por dezenas de peças apresentadas em quase quinze palcos durante duas semanas. Além disso, há também a programação paralela que conta com exposições, debates e a apresentação de produções com novos grupos de teatro.

Disse no primeiro parágrafo que tentamos, mas não expliquei o quê. Tentamos acesso aos bastidores, à coxia e aos coquetéis. Três vezes. Não conseguimos. Não responderam os e-mails e, com toda nossa ingenuidade, chegamos a acreditar que o sucesso de Bacante ainda não havia chegado a este lado do Atlântico.

Claro que o problema não foi esse. Descobrimos a verdade ao acessarmos o site do festival no dia da abertura: estava… fora do ar. Por falta de pagamento. Como iriam financiar nossos ingressos se sequer tinham dinheiro para manter o site?

Um último comentário: em Portugal, peças NUNCA começam no horário. Dez, quinze ou vinte minutos de atraso é o padrão. E os portugueses, o povo mais estressado e ávido por discussões, parecem não se importar. Isto dito e um bocado de euros mais pobre (porque A Bacante não me patrocinou), fui às peças.

Falar ou não falar

A primeira peça que vi foi exatamente aquela que lançou o festival deste ano: “European House – Prólogo a um Hamlet sem palavras” (“European House – A Hamlet’s prologue without words”) estreou originalmente em 10 de dezembro de 2005 no Festival Temporada Alta, de Girona, pequena cidade nos arredores de Barcelona. Foi escrita e dirigida por Àlex Rigola e co-produzida pelo Teatre Lliure.

Estava com um pouco de medo por esperar uma peça em catalão, mas certamente fiquei surpreso ao descobrir que o “prólogo a um Hamlet sem palavras” não passava da má-tradução de “um prólogo sem palavras para Hamlet.” Não, não tem diálogos. É um retrato e uma reflexão sobre a Europa atual, onde existe o medo de se comunicar, fala-se pouco e pretende-se deixar tudo às claras. Além disso, também é um espetáculo que fala da vida e da morte e se pergunta “por que as pessoas morrem?”.

Para trazer essas idéias ao palco, Rigola usou de um cenário composto apenas por uma casa cortada, sendo que podemos ver tudo o que acontece dentro dela. A casa, como você já deve imaginar, é a Europa. Os personagens são uma família que se vê tensa após a morte de um membro importante. E, nessa conversa com a obra de Shakespeare, quem morreu foi Hamlet.

O diretor disse em entrevista que “faz-me alguma espécie quando as pessoas opinam sobre os textos dos meus espetáculos que leram ou viram duas ou três vezes, quando eu os li e ouvi milhares de vezes.” Continua: “sabemos que no futebol, na tourada, no cinema e no teatro todo mundo gosta de dar palpite.”

Eu nunca opinei na tourada, mas parece que o diretor não gosta de opiniões. Como ele provavelmente lerá esta matéria, só quero dizer rapidinho que o cenário às vezes me lembrou aquele jogo-da-velha com artistas que passava no Domingão do Faustão. Aquele, que os painéis acendiam e apagavam… E isso não é necessariamente ruim.

Eu e Antônio

O FITEI abre espaço para projetos incomuns e experimentações com a apresentação de “eDGe”, do Swap Project, uma companhia portuense. Não exatamente uma peça, apesar de pessoas presentes no teatro terem discutido o texto inexistente durante o bate-papo que se seguiu à apresentação, a produção é mais um espetáculo de balé tecnológico ou uma instalação numa exposição de arte contemporânea.

Os quarenta e cinco minutos de duração resumem-se aos três atores dançando e interagindo no palco enquanto seus movimentos são captados por uma câmera e transferidos para um software especialmente desenvolvido. Esse software, por sua vez, envia imagens baseadas nos movimentos para um telão ao fundo do palco. A dança, as imagens e a música por vezes formam um conjunto hipnótico.

É exatamente isso o que a companhia espera com seu projeto dito “transdisciplinar”. Essa realidade híbrida criada a partir da mistura de uma série de linguagens que se convergem leva a questionamentos. O corpo dos atores comanda o computador que gera as imagens no telão, mas ao mesmo tempo eles precisam saber como se movimentar para que o computador gere as imagens certas.

Quando o critico é abordado ao fim de uma peça que não gostou, ele diz que “o público vai gostar”. Pois eu, que nem sou critico, pensei que a platéia não fosse gostar, mas gostou e aplaudiu. Talvez porque estivessem interessados: as pessoas, apesar das senhorinhas de sempre, eram diferentes das que compareceram à apresentação de “European House”. Até mesmo Antônio Abujamra esteve ali com seu suspensório. Na hora do bate-papo desci as duas fileiras que nos separavam, pois queria chegar mais perto do ator e apresentador, mas ele preferiu curtir a noite do Porto e desapareceu em meio aos espectadores que saíam.

Humor à espanhola

Com o espetáculo “Tricicle 20”, a companhia espanhola Tricicle comemora seus vinte anos de existência ao juntar algumas das principais esquetes cômicas de seus cinco espetáculos anteriores. Durante uma hora e meia são apresentados quase uma dezena de cenas sem diálogos baseadas em coisas do dia-a-dia como as bobagens da televisão, a busca pelo emagrecimento e o mau-humor das comissárias de bordo – quando os personagens eram comissárias jogando violentamente jornais na platéia, que respondeu os jogando de volta…

Sempre atuando para o público, os três atores interagem com os presentes e inclusive buscam pessoas na platéia para brincar. Às vezes não é tão divertido, mas em geral quem está ali gosta. No momento em que eles apareceram vestidos como bebês, fiquei me perguntando qual era a graça que as pessoas tanto viam ao darem tantas risadas. Provavelmente riam pelo fato de serem três homens adultos usando fraldas. As pessoas os viam exatamente assim, homens usando fraldas, e não como atores atuando. Isso dá assunto para uma tese.

Talvez a cena mais engraçada tenha sido quando anunciaram o intervalo: “Agora vamos para o intervalo. Você poderá tomar um café, fumar um cigarro ou mesmo continuar sentado.” Neste momento as luzes se acenderam e pessoas começaram a se levantar. O alto-falante continuou: “Mas vai estar lotado, filas nos banheiros… E, pensando bem, quem permite fumar no foyer do teatro? Olha, não vamos fazer intervalo, não.” As luzes se apagaram e a peça continuou enquanto todos tentavam encontrar seus assentos no escuro.

Cartas intermináveis

Então fui ver minha primeira peça clássica no FITEI: “Correspondência a três”, do Centro Cultural de Belém, um belo prédio moderno às margens do Tejo e ao lado da fábrica daqueles pastéis. Meio cansativo, minha gente. Acho que aproveitaram a maresia que vem do rio e do oceano e decidiram fazer uma peça leeeenta.

Trata-se dos poetas Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak e Marina Tsvetaieva trocando correspondências. Em 1926. Imagina só. A cenografia era bacana, mas as cartas… Elas foram reunidas num livro homônimo e acabaram virando peça. São mais sofridas que as do Werther. A italiana sentada ao meu lado dormiu.

Guerra tragicômica

Olha, eu começo a realmente apostar na Espanha. “Entrañas” é outra produção catalã que vi, dessa vez pela companhia Titzina. Eles já vieram ao FITEI em 2001 e parece que fizeram muito sucesso. É uma pena que a peça apresentada esteja em espanhol, pois isso faz com que muita gente não a veja. Depois de terem entrevistado várias pessoas, escreveram um texto sobre a guerra civil espanhola.

Nele, uma personagem descobre que está grávida, relembra seus últimos nove meses e sai em busca do avô que desapareceu durante a guerra. Nessa “road play” (existe isso?) ela encontra as mais diversas pessoas: do fiscal no trem, aos senhores no café, conversa com todas e vai aprendendo sobre o conflito que tomou a Espanha na primeira metade do século XX.

Muito bem encenada e muito bem escrita, essa viagem louca pelo país, pela história e pelo tempo cativa o espectador com suas cenas cômicas. “Professora, a Espanha pode ter outra guerra?”, pergunta o aluno em dado momento. “Não?”. Outro aluno: “Claro que pode. Pode ter uma guerra no País Basco. E na Galiza. E em Castilla, em Aragón, em León, na Catalunha, em Madrid…”. Quem mais que não espanhóis para fazerem graça de sua própria tragédia? E a gente vai aprendendo.

É uma parada?

A última peça começou à meia-noite do dia seis para o dia sete de junho. Em plena avenida dos Aliados, o coração da cidade, centenas de pessoas começaram a chegar e viram as luzes dos postes e dos prédios se apagarem quando a companhia francesa Plasticiens Volants deu início ao espetáculo.

Desde 2004 eles vêm apresentando sua produção “A Oitava Maravilha” (“La Huitième Merveille”), uma história fantástica onde um gênio deseja voltar a ser humano e chegar a sua casa: a Babilônia. O bacana é que a peça é feita na rua e com a ajuda de alguns bonecos infláveis gigantescos.

Enquanto o público assistia com interesse ao show de luzes e som, eu prestava atenção nos atores e na extrema dificuldade que deve ser apresentar um espetáculo como esse. Além das questões climáticas (imagina o que uma ventania poderia causar), existe o problema de ir se movimentando. Sim, porque a ação não fica presa a um único lugar. Durante apenas dois momentos é como se assistíssemos a uma peça dita normal, com atores dum lado e público do outro. No resto do tempo, atores e público andam por todos os lados, se misturando e participando.

Por esses motivos, às vezes é difícil acompanhar os acontecimentos. Pode ser que não saibamos para onde olhar, pode ser um pouco difícil entender o que está sendo dito no alto-falante… É quase um show que integra os inúmeros atores e técnicos, os espectadores e a cidade. A rua num dos extremos da avenida dos Aliados foi interditada apenas quando chegamos a ela. Foi divertido ver o motorista de um ônibus que ficou preso naquele lugar descer e assistir a alguns minutos da apresentação.

Várias vezes tivemos de correr daqueles bichos de ar ou nos proteger dos grandes pés do Colosso de Rodes que vinham rapidamente em nossa direção. Fomos molhados e ganhamos flores. No fim, presenteados com uma grande queima de fogos. Foi impossível não imaginar algo do tipo em São Paulo.

'1 comentário para “FITEI 2007 – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica”'
  1. Juli =) disse:

    Nossa, Elder. Você realmente é muito abnegado!!! rs

    Ai, que inveja dos euros que vc gastou…

    Beijos,
    Juli =)

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