A Dama do Mar

Críticas   |   , and    |    25 de outubro de 2013    |    0 comentários

Código-fonte (Visite nossa cozinha)

Vez ou outra nos encontramos com amigos que perguntam “mas e a Bacante, vocês não vão atualizar mais?” ou “por que vocês pararam de escrever?”. Eu sempre dou alguma desculpa relacionada à falta de tempo, ou que às vezes dá mais vontade de assistir teatro sem compromisso (na real, às vezes nem dá vontade de ir ao teatro, e é boa a sensação de não ter nenhum tipo de compromisso ou obrigação de atualização).

Mas isso não significa que não vamos ao teatro, ou que paramos de discuti-lo. Nesses quase 2 anos em que não publicamos mais nada por aqui, várias discussões riquíssimas rolaram num âmbito restrito, por e-mail: debates, discussões, tentativas de críticas que foram esboçadas e pitacadas, mas nunca publicadas.

A verdade é que dá trabalho pra burro escrever uma crítica. Tem que assistir à peça (para algumas montagens, isso já é um esforço tremendo), organizar textualmente um raciocínio lógico que não apenas dê conta de articular impressões, mas também que consiga amarrar com todo o conteúdo já publicado, e tentar pensar um texto que sirva para alguma coisa.

Na Bacante, há algo incrível que acontece nos bastidores, no grupo de e-mails. São as discussões que acontecem no momento da edição, trazendo questionamentos, provocações, sugestões e críticas ao que está sendo proposto e ajudam a amplificar os debates – mas também complexificam um bocado o processo de redação. Não basta ter o tempo de escrever o texto, é preciso discutir o texto, e depois reescrevê-lo à luz de todos os pitacos que surgiram no debate.

É comum que, na falta de tempo, as discussões se percam no meio do caminho e fiquem restritas apenas ao pequeno grupo de pessoas de nosso grupo de e-mails. Na verdade, se tivéssemos encontrado formas de abrir as discussões que rolaram no âmbito privado, não teríamos ficado esse tempo todo sem publicar. Por outro lado, a exposição do “código-fonte” de cada crítica também evidencia aquilo que não aparece num texto final: os pré-conceitos, as ideias cruas, as discussões e embates de ideias, as referências transversais, as afirmações e constatações ainda passíveis de apuração, as imprecisões, as fragilidades e as banalidades.

Enfim, em vez de publicar uma crítica acabada, convido a todos (ainda tem alguém aí?) a visitar a nossa cozinha.

Em 30 de junho de 2013, Maurício Alcântara escreveu:

Caros, acabei de ver “a nova do bob wilson”, e estou muito em dúvida se vale ou não escrever sobre. Tinha prometido pra mim mesmo que não perderia mais tempo com ele, mas a Leca comprou um ingresso pra mim – e essa foi a que mais me deixou de saco cheio do cara, e deu vontade de rabiscar algo.

Ao longo da peça foram surgindo vários argumentos que eu rabisquei aqui nesse e-mail, mas acho que seria falar mais uma vez as mesmas coisas que já falei várias vezes na Bacante. E esse foi um dos motivos por eu ter parado de escrever, inclusive.

Vou colocar abaixo meus comentários, e vocês me dizem sinceramente se acham que faz algum sentido aprumar tudo pra virar um texto. Aceito contribuições para problematizar/complexificar mais, inclusive. Só não queria escrever um texto mais do mesmo…

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Durante a peça toda eu fiquei imaginando um shopping center, e cheguei à conclusão que é o Shopping JK Iguatemi das peças de teatro.

Lembrei muito desse shopping daqui de SP durante a peça, e isso é muito bizarro. É talvez o shopping mais caro de São Paulo, mas é bastante diferente do Iguatemi, do Cidade Jardim, da Daslu, da rua Oscar Freire. Enquanto esses todos tentam ter uma arquitetura bregona, neoclássica, emulando uma sofisticação do tipo “se não tiver detalhes dourados e colunas gregas, não é chique”, o JK Iguatemi tenta construir uma aura diferente: mais “clean”, minimalista, muderrrrno, cosmopolita, a ostentação não ocorre pelo excesso de elementos cafonas, mas pela arquitetura que valoriza a luz natural, os espaços mais livres, os corredores mais minimalistas. Manja a diferença entre ser “novo rico” e ser “elegante”?

Comentário de Astier Basílio:

Arquitetura = beleza= opressão. Isso me lembrou a fala do arquiteto do Partidão

“O importante pra nós em todos os sentidos é a liberdade. Tem que haver fantasia, tem que haver uma solução diferente. Isso é que é importante na arquitetura. O que vai ficar da arquitetura, o que ficou, não foram as pequenas casas, muito bem tratadas…Foram as catedrais, foram as “voutes”, foram os grandes balanços, né?
Beleza é importante. Você vê as pirâmides… uma coisa sem menor sentido, mas são tão bonitas, são tão monumentais que a gente esquece a razão das pirâmides e se admira, né? Se você ficar preocupado só com a função, fica uma merda.”

“Quando me pedem um prédio público, por exemplo, eu procuro fazer bonito, diferente, que crie surpresa. Porque eu sei que os mais pobres não vão usufruir nada. Mas eles podem parar, ter um momento assim de prazer, de surpresa, ver uma coisa nova. É o lado assim que a arquitetura pode ser útil. O resto, quando ela tiver um programa humano, social, aí ela vai cumprir seu destino.”

Resposta de Maurício Alcântara a Astier Basílio:

(só tem uma diferença crucial aqui, astier. os prédios públicos, ainda que não sejam para o usufruto direto de todos, eles têm de existir. um shopping, não é obrigatório, só é necessário a quem enxerga algum interesse econômico nele. isso faz toda a diferença se transportarmos essa metáfora para a peça. aliás, acho muito bacana essa fala do Niemeyer. basta pensar no prédio do Itamaraty, que acho incrível. e brasília mesmo, com todas as críticas que tenho à cidade, acho que ainda prefiro ter uma capital de arquitetura modernista, que tem esse caráter provocativo, que uma capital colonial, cheia de pompas e de referências a estilos europeus)

É bastante menos opressor a quem passeia – claro que não é opressor somente a quem tem dinheiro para desfilar em meio a todas as grifes internacionais que estão ali. Um shopping que poderia ser em São Paulo, em Paris, em Oslo ou em Zurique – é uma arquitetura feita para ignorar ainda com mais veemência o mundo que está do lado de fora (afinal criar um ambiente descontraído tende a ser mais eficiente para isso do que criar uma aura de corrimãos dourados, lustres de cristais, poodles e champanhe). Tudo muito elegante, tudo muito austero, tudo muito civilizado. Acho que “civilizado” é a palavra pra definir. Claro, com as aspas.

Aí eu olho pra peça. Texto do Ibsen, adaptado pela Susan Sontag, dirigido pelo Bob Wilson em uma montagem produzida com elenco brasileiro para o SESC. Tudo muito elegante, tudo muito nórdico, falando com os fiordes da noruega e tendo como única ponte com o Brasil a língua em que foi produzido. Tudo muito fino, elegante, requintado, “cosmopolita”, “de bom gosto”, assim como o shopping.

Comentário de Emilliano Freitas:

Só reforçando que esse mesmo espetáculo foi feito desse mesmo jeito na Itália, Coréia do Sul, Polônia e Espanha. Fiquei pensando que isso também acontece na São Paulo Cia. de Dança que compra as coreografias de dança contemporânea dos coreógrafos fodões e montam igualzinho eles montaram. Eles sempre falam que quando montam no Brasil há algo de diferente, porque o brasileiro tem a aura clichê da ginga.
Teve uma matéria na Bravo que os atores começam falando que eles imprimiram uma brasilidade ao espetáculo e o Bob fala depois que não, que ele quis o mesmo resultado em todos os outros países que a peça foi apresentada e que tinha alcançado isso.
E é interessante esse elenco, dois atores do Gerald e dois atores do Antunes.

Comentário de Astier Basílio:

(sério? Acho meio arriscado dizer “única”. Tu tem certeza de que não houve mais nenhuma outra? A plateia que compra os ingressos, por um lado, não seria uma ponte; por outro lado, não teve grana brasileira?)

Resposta de Maurício Alcântara a Astier Basílio:

(sob o aspecto estético, a única ponte com o brasil que encontrei é a língua e os atores. tanto que a leca comentou algo sobre “a diferença é que é sem legendas”, e li isso em algum lugar também. sob o aspecto produtivo dá pra fazer outras pontes. vide o comentário do emilliano sobre a realização dessa franquia em outras línguas.)

O shopping continua: Figurino de Giorgio Armani (isso é sério), elenco com um monte de nomão [Luis Damasceno, Ligia Cortez, Bete Coelho (essa com um “participação especial” que não entendi, afinal não estamos falando de um grupo estabelecido para ela ser uma “convidada” no elenco – será que ela ganhou essa menção especial por ser “famosa” mas não ser a protagonista?)]. Minha impressão: todo mundo só querendo se aparecer. O SESC, pela grandiosidade da produção e pelo contrato de trazer um monte de coisas do bob pro Brasil (haja imposto, né, contribuinte?).

Comentário de Astier Basílio:

(houve? Se sim, eu ficaria feliz com um link)

Resposta de Maurício Alcântara a Astier Basílio:

(houve, sim. vou procurar o link)

Aqui: http://sescsp.uol.com.br/sesc/revistas/subindex.cfm?paramend=1&IDCategoria=7815
Destaco:

“Depois do monólogo A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett, apresentado no Sesc Belenzinho, em abril deste ano, o Sesc dá continuidade ao projeto trienal (2012-2014) dedicado a Robert Wilson, realizado em parceria com a Change Performing Arts e Watermill Center.”

Os atores pra colocar um “bob wilson” no currículo. O Bob Wilson pra ganhar dinheiro (olha só: até Quartett (2009), a única montagem do diretor no Brasil havia sido nos anos 70. Desde então, nesses 4 anos, eu já vi por aqui, além de Quartett: Happy Days, Ópera dos Três Vintens (perdi Lulu, que veio na mesma época), Macbeth e esse A Dama do Mar. E parece que vem mais por aí. O SESC até reformou o teatro do SESC Pinheiros prareceber o Berliner Ensemble com os três vinténs.

Comentário de Astier Basílio:
( a grife de Brecht entrou na roda caça níquel? é isso?)

Resposta de Maurício Alcântara a Astier Basílio:
(exatamente isso. com A Ópera dos Três Vinténs e Lulu, ano passado. aqui, o comentário do Sergio de Carvalho, que comentei: http://www.sergiodecarvalho.com.br/?p=1750)

E, claro, esteticamente estamos falando da mesma peça, sempre. A luz é a mesma. Os efeitos sonoros são os mesmos. Os tiques são os mesmos. O registro de interpretação é o mesmo (ou seja, os atores são praticamente os mesmos também). O figurino é o mesmo. O cenário é o mesmo. A absoluta ausência de ousadia é a mesma. A música é a mesma. O diálogo com o que acontece com o mundo fora do palco italiano continua sendo nenhum. A maquiagem é a mesma. Mais um texto cuja raiz ou conteúdo não é revelada ou apropriada, cuja temática não é problematizada ou colocada em crise. Basta embrulhar bonito, e nisso ele capricha.

Comentário de Astier Basílio:
Lembrei metaforicamente de Niemeyer de novo

Assim, monta-se Ibsen igualzinho monta-se Beckett, Shakespeare, Heiner Müller e Brecht (aqui, se for escrever, colocarei o link para o comentário do Sergio de Carvalho comentando sobre a pasteurização de Brecht na montagem dos três vinténs). É tudo a mesma peça, com ligeiras mudanças.

Déjà vu embrulhado com um laço bem chique, mas não tem nada dentro.

Comentário de Astier Basílio:
Me lembrei desse poema, sobretudo, do fecho

Soneto de Natal
Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
(***)

Agora, Mau. Uma pergunta.
Vc fala que tudo é o mesmo.
Sei.
Compreendo e digo até que concordo.
Mas.
É uma avaliação que só pode ser feita a posteriori.
Para que eu não fique no óbvio, jogo a pergunta pra você: esse discurso seu não é um discurso velho? Imagino se você fosse ver pela primeira vez Bob Wilson – cenário possível para uma nova geração de críticos que nunca o viu antes – e se deparasse com um texto como esse?
Repare. Não tem como arrancarmos nossos olhos e ignorarmos o que vimos. Não, não tem. Mas, por outro lado, não é um discurso egoísta, centrado só em você? Como seria possível equacionar, a valoração, ou mais do que isso, o diálogo com um espetáculo, indo além do seu cansaço pessoal que, numa percepção mais tacanha minha, é nada mais do que apreciação de gosto – sim, pq o que se sobrepõe é a tua náusea; teu mal-estar nem se dá ao trabalho de argumentar inteligentemente, era como se você pressupusesse do seu leitor um pacto de recusa prévia – era como se você não precisasse assistir a este espetáculo pra fazer esse texto.
Lembro aqui de duas críticas sobre o armazém. Escritas, respectivas, por uma crítica veterana, Ivana Moura, q tinha visto tudo do grupo, e uma jovem, Polyana – o grupo dialogou de maneira diferente com que já tinha repertório, no caso da crítica velha, e de outro, de maneira deslumbrante, pra quem nunca houvera visto nada – segue o link aqui: http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/tag/armazem-companhia-de-teatro/ neste sentido acho no mínimo autoritário você dizer que o “diálogo (…) continua sendo nenhum” – é uma sentença que engloba, além da tua percepção, disposição, de dialogar; encerra TODA possibilidade de diálogo e se um polyana estivesse na plateia, o diálogo, algum, qualquer que seja, provavelmente, teria se efetivado.

Resposta de Maurício Alcântara a Astier Basílio

Astier, esse meu comentário parte justamente de impressões pessoais, e esses comentários que eu mandei pra lista foram absolutamente sem filtros, de propósito pra ter esse tipo de discussão. Quando digo que não sei se quero transformar numa crítica, é justamente porque não sei se vale a pena colocar mais um texto fazendo as mesmas críticas às mesmas coisas. Sim, é uma crítica velha. Eu realmente não consigo abstrair do como aquela peça chegou até aquele palco para aquela plateia. Quando o que está sendo dito me diz pouco, eu preciso tentar dialogar com aquilo que acho que ainda merece diálogo para mim. Aliás, é um pouco por isso que parei de escrever para a Bacante e reduzi muito as idas ao teatro, porque essa sensação se repete com muita coisa que vejo. E mesmo quando gosto das coisas, quando encontro algum diálogo, alguma reverberação, prefiro assistir como civil, não como crítico. Impossível não me lembrar do Guzik quando penso nisso, dizendo que crítica é igual exército: você serve um tempo e depois não quer mais saber.

Não quero falar da “fruição da obra” (separada do contexto de leitura amplo) porque essa fruição, pra mim, rolou lá em Quartett e Happy Days, e de lá pra cá tudo virou dejà vu. E a expectativa por um “qual é o próximo passo?” sempre aumenta a cada nova montagem – e logo vem a frustração e a implicância. Porque não há um próximo passo. Não mesmo.

No exemplo que você cita abaixo (não li os textos ainda), não invalido nem a leitura da crítica velha de guerra, nem da crítica recém-chegada. Prefiro que haja as duas do que apontar para a “mais correta” ou a “mais equivocada”. Inclusive, acho mais interessante esse conflito de visões do que qualquer uma delas isoladamente. Foi assim, inclusive, que a Bacante ganhou espaço, sendo a crítica recém-chegada que apontava para coisas que a velha crítica não apontava. Virei velha crítica? Em alguns aspectos, sim. Por isso mandei esse e-mail perguntando se vocês achavam que valia a pena ou se seria mais do mesmo.

Mas se há uma possibilidade de seguir adiante com o texto, não posso ignorar a caralhada de coisas que já vi na hora de escrever esse novo texto. O fato de ter visto um monte de coisa e já ter escrito um monte de coisa não me permite ignorar as maiores contradições dessa peça que não estão na peça, mas nos seus porquês.

Meu ponto é que minha crítica não seria para o espetáculo em si, mas ao processo produtivo dele (mas para isso, eu preciso evidenciar aspectos do que se vê em cena), às pequenas fortunas que o sesc gasta para ter uma temporada como essa cada vez que uma nova velha peça do bob vem. Eu não posso nem quero fazer uma ditadura do que deve-se sentir frente à peça, mas posso fazer um retrato do quanto essa peça dialoga com o contexto (é a sexta ou sétima montagem dele em 4 anos, todas elas financiadas com dinheiro público). A primeira vez que se vê bob wilson é um desbunde, eu mesmo, que gosto de fotografia, de design, sou muito visual, me encanto muito com o visual dele. Mas e o que vem além disso?

Aí vem o maior problema, para mim. Se o cara está fazendo uma franchising de seu jeito de fazer espetáculo e tá todo mundo comprando, sorte dele. Não tenho a pretensão de que esse texto chegue a ele dizendo “você tem que fazer alguma outra coisa”, não é para ele que estou escrevendo – mas para o público que consome esse espetáculo via sesc. Não sou contra que venham os bob wilsons, os théatres du soleil, os peter brooks da vida. E se não for pelo sesc, não viriam nunca, e eu mesmo jamais teria visto qualquer um deles. Minha maior crise é com relação a uma insistência com um único e mesmo nome, como se bob wilson fosse mais importante do que as muitas outras coisas que poderiam ser montadas com o mesmo dinheiro (ou com muito menos).

Comentário de Emilliano Freitas:

Nelson de Sá falando do xerox do xerox do xerox, um ismo de si mesmo.

http://cacilda.blogfolha.uol.com.br/2013/06/19/ligia-cortez-e-ondina-clais-castilho-damas-do-mar/

1 diretor, muitas montagens, a mesma peça

A peça foi vista em junho/2013 no teatro do Sesc Pinheiros. O valor pago pelo ingresso foi R$ 20 (meia entrada-estudante).

(Foto: Divulgação)

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