A festa do Clap Clap
Hoje fui assistir ao musical MY Fair Lady (opinião na terça-feira, aqui na Bacante).
Não tem como não ver produções ultracomerciais sem observar o público que as assiste. Desta vez não vou falar sobre o champanhe e tampouco sobre as roupas de festa, como falei em alguns outros textos. No Alfa não é diferente dos outros teatrões, mas o que mais me chamou a atenção foi a obsessão das pessoas em aplaudir em cena aberta (ou fechada mesmo).
Terceiro sinal (que no Alfa não é sonoro, é luminoso), a orquestra toca o Overture com a cortina de veludo azul (adornada com bolotas douradas e franja) fechada. Ao final, com a abertura da cortina revelando o elenco, meia dúzia de alegres espectadores logo se empolgaram e começaram a aplaudir, possivelmente movidos pela emoção que o som da orquestra ao vivo induz indicando o início do espetáculo.
Neste caso, a platéia não aderiu aos aplausos, a curiosidade em ver cada um dos figurinos, personagens e coreografias era maior. Mas ao término de cada número musical, os aplausos eram longos e eufóricos, vindo de todos os lados do imenso teatro (até mesmo para os números musicais menores, de transição). Ao final do mais brega dos números (não tem como fazer musical sem fugir do brega, esse é um elemento importante de se relevar na hora de assistir a um), o senhor sentado atrás de mim começa a berrar “Bravo! Bravo!”.
Então a compulsão vai aumentando, aumentando, aumentando. Em um momento, Higgins dá o braço a Eliza convidando-a a sair (transição para outra cena, sem nada de especial). Os aplausos brotaram de algum ponto da platéia e se alastraram por todo o teatro. Com o passar do tempo a coisa piora, beirando a patologia: cada frase engraçada (ou nem tanto) que algum personagem pronuncia é motivo para grandes salvas de incontrolável histeria em forma de palmas.
Curioso. Passível de estudo psiquiátrico, sociológico ou antropológico.
Eu já quis estudar também os aplausos de cena aberta. Não consegui. Eu entendo os do começo, que dizem “estamos aqui… podem começar e façam o melhor!”. Os do final também, que dizem “Sim, nós continuamos aqui e gostamos… mas pouco. Ou gostamos MUITO. Ou gostamos muito mesmo!” dependendo da intensidade. Uma métrica que já não podemos usar há bastante tempo é o aplauso de pé. Se levantam pra qualquer merda hoje em dia. “me aplaudiram de pé! vocês viram!?!?” Grande BOsta, meu querido, tá banalizado.
Mas o aplauso de cena aberta eu to pra entender. Pro ator ele é um bálsamo. Um ser incontestável que diz “isso que você acabou de fzer, foi foda!”. O que coloca uma régua nas cenas… Aí, principalmente em comédia, o aplauso de cena aberta vira moeda. Passível até de troca. “Pô, não mexe nessa piada que semana passada teve aplauso, pô!”. E de fato, pro ator de comédia não há nada mais gratificante que um intruso aplauso que o faz parar a cena pra que a platéia manifeste sua constante necessidade de participar, de mostrar que não é só passivo num espetáculo. Aliás tem gente batendo palma até em cena de filme…
Mas como você bem disse, não tem como não observar a platéia, que neste caso aí é bem diferente do que eu chamaria de “público de teatro” em São Paulo… são bem diferentes, na verdade. Tanto pelas roupas, pelo champanhe, e pelas palmas.
Se alguém me grita Bravo!, eu rosno de volta.
ou, como gritaram numa apresentação de “a casa dos budas ditosos”: brava!