A Humanidade da Gente

Críticas   |       |    4 de fevereiro de 2008    |    0 comentários

Pequeno ensaio “de Pesquisa”

Adoro ver grupos e espetáculos que se definem como “de pesquisa”, “experimental”, “alternativo”, além dos demodês “vanguardistas” e, claro, os da modinha: os “pós-dramáticos”. Gosto, porque sempre vou com a expectativa de ver algo que realmente faça jus aos adjetivos contestadores com que eles se auto-denominam – ainda que na (grande) maioria das vezes eu saia frustrado. Adoro uma porralouquice, mas é difícil ver uma que dialogue mais com os limites, fronteiras e tabus do teatro do que com os limites, fronteiras e tabus dos artistas. Invariavelmente saio destas montagens com dúvidas sobre o papel do jovem artista que quer mudar o mundo: que mundo, afinal, ele quer mudar? E se não quer mudar nada além do seu próprio mundo, pra quê dizer que vai mudar alguma coisa, cáspita? Muitas vezes, o mundo não tá aí pra ser mudado, mas interpretado, recriado, reciclado. E é bem legal conhecer gente que encontra novas formas de fazer isso – ainda que com limitações diversas. No entanto, é raro encontrar essa turma.

Outra coisa curiosa é a quantidade de montagens que aparecem por aí se vangloriando por serem assumidamente baseadas nas vivências pessoais dos atores. Curioso, porque tenho a impressão de que qualquer ator utiliza (ou deveria utilizar) suas experiências pessoais como estofo… Mas entendo que muitos queiram usar isso como material dramatúrgico – e não apenas como pano de fundo para a construção do personagem. O resultado é sempre uma caixinha de surpresas: pode tanto soar como algo verdadeiro, sincero e pertinente, como também pode ser uma egotrip coletivizada de pessoas que acham que a platéia realmente está interessada em ver a vida (desinteressante) de meia dúzia de atores traduzida no palco. Tipo Big Brother, mas sem câmeras e sem o Pedro Bial (graças a Dionísio nunca vi uma peça com Pedro Bial no elenco – ainda).

Foi exatamente por conta da mistura desses dois conceitos que eu decidi assistir ao espetáculo A Humanidade da Gente. No guia do jornal (sim, a Bacante lê jornal – ainda), a sinopse era a de que “o núcleo de pesquisa teatral do Tuca parte da subjetividade de seus integrantes, de improvisações e da narração de histórias pessoais para criar as cenas do espetáculo”. Ao entrar no espaço (uma sala de ensaio, sem cenografia, com luz fluorescente e com cadeiras de plástico, daquelas boas pra fazer churrasco) e ver os atores se preparando e colocando seus figurinos, meu palpite já era o de que veria mais um esboço do que uma obra fechada. Ponto negativo pro guia do jornal que anunciou como um espetáculo algo que era assumidamente uma “abertura de processo”.

Enfim, expectativas frustradas e definições preguiçosas à parte, tudo o que vi ainda estava muito cru – e não era um cru pronto, como o sushi. Ficou difícil enxergar o que exatamente esse grupo “de pesquisa” está pesquisando. É na linguagem? Na dramaturgia? Interpretação? Ou será na Wikipédia?

São três monólogos, daqueles em que o ator conversa com um interlocutor imaginário e o texto não o ajuda, fazendo com que o personagem pareça lerdo ou surdo, confirmando tudo o que o interlocutor teria dito pra poder ter uma deixa pra próxima fala (“O quê? Você me perguntou qual é o meu problema?”). Difícil de embarcar…

As histórias, como eu temia, não possuem argumento para compor um espetáculo: talvez a platéia não estivesse a fim de ouvir, por exemplo, uma discussão de relação de um casal gay em fim de namoro – não quando essa discussão não traz absolutamente nada além do que qualquer DR já tenha. A encenação também não ajuda – no caso deste monólogo, por exemplo, a metáfora visual usada para ilustrar o desmanche do namoro foi o despetalamento (eita palavra bonita) de duas rosas vermelhas. Original, né?

Os personagens são rasos, e as frágeis simbologias desenhadas por cada um deles não possuem força para significar mais do que o que é mostrado explicitamente. Texto e imagens são exageradamente ingênuos, e a platéia é obrigada a ir embora sem a lição de casa de pensar sobre o que viu. Saí daquela sala com a sensação de ter visto um trabalho extremamente embrionário que, mesmo numa proposta de abertura de processo, deveria ter passado por um refinamento maior, sobretudo na construção de uma dramaturgia que abrisse horizontes para que os atores conseguissem trabalhar além do óbvio. Quem sabe no próximo passo deste processo “de pesquisa”?

1 ensaio aberto

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