Cachorro
Quando a inspiração da inspiração da inspiração dá certo
Primeiro veio o escultor suíço Alberto Giacometti, cujo trabalho inspirou o escritor francês Jean Genet a escrever um livro sobre sua obra. Aí veio a dramaturga alemã Dea Loher que, com base no livro de Genet, escreveu a peça Cachorro, sobre dois personagens excluídos da sociedade e a relação pessoal de cada um com a obra de Giacometti. Então vieram o Roberto Lage e o Juca Rodrigues, que decidiram fazer uma montagem brasileira para o texto, e para finalizar, a concepção cenográfica do espetáculo foi realizada pelo coletivo venezuelano La Tintota, radicado no Brasil. Depois dessa longa versão internacional da canção “estava a velha no seu lugar, veio a mosca lhe fazer mal (…)” (ou “a velha debaixo da cama”, para os mais sapecas), vamos à crítica.
Analisar uma montagem de um texto de Dea Loher que não seja encenada por Rodolfo García Vázquez é uma ótima oportunidade para identificar o que é do texto da dramaturga e o que é incorporação de linguagem cênica realizada por Rodolfo, Ivam Cabral e companhia em suas famosas montagens de A Vida na Praça Roosevelt e Inocência. Em Cachorro, o universo lúdico e colorido construído pelos Satyros é substituído por um austero cenário marrom, preto e branco, composto por caixas de papelão e uma porção de móveis fora do lugar. As paredes são pichadas e sujas, assim como os dois personagens em cena – uma velha puta cega, que supostamente teria tido uma relação com o escultor e espera seu retorno, e um ladrão coxo interessado em roubar as estátuas que ela mantém em sua casa.
O texto oscila entre a dramaturgia e a poesia, projetando na cabeça do espectador imagens que a direção e a cenografia tiveram a delicadeza de não tornar óbvias na realização. Porque é chato pra dedéu ver as palavras se materializando exatamente naquilo que conseguimos imaginar sozinhos. Em alguns momentos confesso que me senti um pouco entediado com o texto, sobretudo no início, mas rapidamente a história ganha uma dinâmica mais envolvente: a narrativa traz grandes surpresas, com diálogos que imprimem o tempo todo novos significados para a cenografia, para as esculturas, para a memória e aspirações de cada personagem e até mesmo para eles próprios .
As imagens que surgem são caprichadas: a iluminação é feita na medida certa para o espaço e para as situações, e a cenografia a cada instante mostra que nada está ali por acaso. Até mesmo as imensas réplicas das esculturas de Giacometti presentes em cena se fundem na narrativa, num raro caso em que tudo conversa, formando uma única paisagem (a ressalva é o uso do vídeo, que projetado sobre um pedaço sujo do cenário nos impede de enxergar as imagens). Os atores Edson D’Santana e Irene Stefania não só se fundem inteiramente com esta paisagem construída, como são os maiores responsáveis por garantir que o espetáculo tenha muito mais cores do que os tons marrons e negros da cenografia.
4 peças excelentes vistas nos últimos meses no Ágora
O que você acha?