Cypriano e Chan-ta-lan
Festa do Cabide
Já aviso de antemão que esta é uma crítica passional e subjetiva. Acredito que a peça em questão, Cypriano e Chan-ta-lan, justifica esta escolha. Digo isso porque havia quase um ano que eu não me dirigia ao Teatro Oficina pra conferir um trabalho de Zé Celso e de sua trupe do Uzyna Uzona. Eu, um assíduo freqüentador do Oficina nos idos de O Homem I, acompanhei os últimos trabalhos do grupo e estava curioso pra ver que novidades esta montagem poderia trazer.
A peça conta a história do Príncipe Cypriano que conhece a camponesa Chan-ta-lan e se apaixona por ela. Antes que eles possam ficar juntos, Chan-ta-lan é raptada por uma borboleta, e Cypriano irá procurá-la incansavelmente, pra que possam finalmente viver felizes pra sempre. Essa história é contada de maneira fantasiosa, com espaço pra muito carnaval (o que caracteriza o Uzyna Uzona) e com elenco extremamente numeroso (o que também caracteriza o Uzyna Uzona).
Neste elenco, percebo várias ausências de atores que foram a imagem do Oficina nos últimos anos. Isso permite que vários novos atores mostrem a cara (e o corpo) nesta nova montagem. Essa renovação é sempre boa, mas alguns dos intérpretes ainda carecem de experiência e o nível das cenas termina extremamente desigual. Se em alguns momentos a energia e a disposição do elenco é alta e contagiante, em outros, tudo parece muito adolescente, ainda em evolução e em transformação, o que numa peça de teatro não é sinônimo de qualidade quando o que se vê parece mal ensaiado, mal acabado e beirando o improviso. É gostoso ver que o elenco se diverte em cena (especialmente considerando-se que muita coisa parece ser piada interna ao grupo, pois diverte o elenco, mas não faz nenhum sentido para o público), mas é preocupante quando percebe-se que o elenco nitidamente se diverte mais do que a platéia.
Se o elenco tem sangue novo, o mesmo não pode ser dito de outros elementos da narrativa: novamente temos menções à Porta da Esperança de Sílvio Santos e atrizes são chamadas de Marta Suplicy (ou de Hillary Clinton). Já vimos isso em algum momento, não vimos? A metralhadora também atira pra tudo quanto é lado: num determinado momento, uma das personagens se lança em uma ofensiva feroz: “Sua bicha louca! Seu capitalista de merda! Seu filho de uma grande puta! Seu Crítico da Folha! Em outra cena, uma telefonista aparece com o intuito de completar uma ligação que uma personagem da selva de Maracangalha estava tentando fazer de um telefone do Batman (tudo isso porque, segundo a personagem, o novo iPhone 3G não estava disponível) e, quando a ligação não é completada, a telefonista leva um soco (no melhor estilo Batman e Robin) e ouve a seguinte frase: “Pau no Cu da Telefônica!”.
O humor juvenil está presente em toda a montagem e tem pérolas que serão difíceis de serem superadas: na cena em que o Príncipe Cypriano tenta adivinhar o conteúdo de um sanduíche ouvimos uma canção com versos curiosos, como “Quem és tu? / Peito de Peru? / Rabo de Tatu? / Asa de Angu?” ou “I Love You / Peito de Peru!”. Em outro momento, o Rei Sol (que está prestes a arrastar seu “brilho” pra cima de Cypriano) comenta sobre sua tarde prazeirosa na cidade de São Paulo: “Andei pelo Minhocão! Eu adoro Minhocão” pra depois dizer que passou por Cubatão e sair com o trocadilho “Batão no Cu”. Uma das canções é entitulada “Um xixi e um cocô” e versa, curiosamente, sobre um xixi e um cocô.
Quando eu acho que o humor da peça não pode se superar, eis que os habitantes da selva de Maracangalha resolvem fazer uma festa das 1001 noites. Todos começam então a cantar “Ya Habib! Ya Habib! / Vamos todos comer Kibe! / Festa de Alá é festa do cabide”. Pra minha surpresa entram em cena duas araras (pra evitar confusão: as araras a que me refiro eram dois daqueles cabideiros, e não duas araras azuis que seriam muito mais normais na selva de Maracangalha) e começa uma festa do cabide (mesmo!!), com parte do elenco se despindo e colocando as peças de roupa nos cabides. Alguns atores puxam pessoas da platéia, que timidamente tiram uma ou outra peça de roupa e rapidamente voltam pra seus lugares. Curioso, não é mesmo? É curioso também notar que um dos atores, ao ficar completamente nu, está “vestido” com uma camisinha. Fico contente por perceber que a cena é politicamente correta.
Em outro momento uma personagem diz que em determinado lugar existem muitos excessos, ao que o coro responde em uníssono: “Zé Celsos??” Trocadilhos à parte, esta é mesmo a impressão que fica ao término de Cypriano e Chan-ta-lan, a de que tudo é excesso: a duração (160 minutos), o elenco (contei 37 atores no agradecimento final), as canções (tive a impressão de ouvir umas 15 músicas bem parecidas, até porque havia certa dificuldade em entender as letras, uma vez que o coro era bem desigual) e até o humor juvenil, digno de um besteirol comercial desses que passam na Sessão da Tarde.
A duração do espetáculo chega realmente a incomodar. Se existem cenas bonitas e bem acabadas (e elas existem!) existem outras cenas que eu não consigo entender por que estão na versão final da montagem. Será pra que todos os atores tenham seu momento sob os holofotes? Será pra manter a tradição de montagens longuíssimas? Será que falta desapego e o grupo não consegue se desvencilhar de algumas cenas que surgem no processo coletivo da montagem? Parece-me inexplicável.
Em determinado momento eu começo realmente a ficar desesperado pra que Cypriano finalmente encontre Chan-ta-lan e a peça chegue a uma conclusão. Após mais de 150 minutos, minhas preces finalmente são atendidas: Chan-ta-lan reaparece e inicia uma corrida desenfreada para os braços de seu amado. A corrida é tão desenfreada que ela termina escorregando no piso molhado pela cena anterior e se esborracha no chão. Neste momento eu temo que o encontro deles possa ser atrasado para que ela receba cuidados médicos. Olho pra todos os lados pra ter certeza que nenhuma ambulância vai entrar em cena e torço pra que não comecem os acordes de uma música que fale sobre os prazeres de brincar de médico. Felizmente, a atriz e a personagem estão bem e a peça termina com final feliz. O elenco agradece ao público e um som de balada toma conta do teatro, fazendo com que o elenco e parte do público dancem freneticamente na pista do Oficina.
Eu saio do teatro pensativo: vemos hoje tantos grupos em evolução contínua, se superando a cada novo trabalho, buscando novas formas, linguagens e conteúdos e a impressão que fica é que o Oficina está parado no tempo, fazendo sempre a mesma peça. Quando eu entrei pela primeira vez no Teatro Oficina, fui envolvido pela temática e fiquei alucinado com o que via. Entretanto, com o passar do tempo, a temática de libertação adolescente deixa de fazer sentido. A impressão que eu tenho é a de que o público amadurece e supera as questões que o Oficina fica sempre discutindo.
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