Encruzilhados – entre a barbárie e o sonho

Críticas   |       |    29 de setembro de 2008    |    6 comentários

Como falar de teatro sem falar de teatro ou Escolhe você!

Fotos: Divulgação

Depois do convite enfático de um anfitrião cheio de gestos minuciosamente pensados, adentramos aquela tenda de maravilhas para assistir Encruzilhados… ou… para conhecer o tabalho da Pofessora da Luz (não, não digitei errado, é assim que é). Esta ressignificação do encontro teatral numa misteriosa tenda é o principal tema dessa crítica, embora não seja o principal tema desta peça.

Suando e com todo o exagero característico daquela figura que ele traz para o palco do Folias, Ésio Magalhães (que já apareceu aqui pela Bacante em A Julieta e o romeu, Freguesia da Fênix e WWW para Freedom) usa recursos de todos os tipos para nos convencer de que eles não estão ali para ganhar dinheiro, mas para fazer um trabalho de “elevação do pensamento”. O quê? Você se lembrou dos musicais do Teatro Abril? Ah, talvez tenha se lembrado de peças com estrelas da Globo no elenco. Ou outra opção? Tem mais alguém, algum grupo ou teatro que seja pra você um ícone de “elevação do pensamento” que, sem truques, pretenda somente te apontar caminhos e fazer um trabalho “honesto”, completamente desinteressado do seu dinheiro? Que nem liga se você tá pagando meia ou inteira, desde que você esteja lá se transformando com aquele encontro?

Ok, nos lembramos de tudo isso, mas pode parar que isso aqui não é teatro (quer dizer, é), isso é uma tenda em que a Pofessora da Luz (interpretada por Andrea Macera com todo o carisma indiferente de quem realmente tem poderes) se conecta com o mundo espiritual para dar as mais diversas respostas às muitas dúvidas que temos nas encruzilhadas da vida. E, para provar seu poder… ela monta Hamlet! Não, leitor viciado em teatro, isso aqui é uma tenda de maravilhas e a Pofessora faz muito mais: ela adivinha data de nascimento de uma pessoa da platéia! Palmas!

Então, a grande estrela deixa o palco e fica ali um pobre e suado assistente, buscando maneiras de ilustrar a idéia de encruzilhadas da vida e de nos mostrar que o invisível talvez esteja agindo também sobre as nossas escolhas. Opa. Era truque ou não era aquela brincadeira? Fui eu mesma que decidi escolher aquela direção ou fui levada a isso?

Somos então convidados a um momento da peça que talvez realize o desejo de muitos artistas: o desmanche das panelinhas! Passamos a experimentar a vivência do espetáculo sozinhos, sem ter com quem comentar os incômodos que se sucedem ou, pros mais sensíveis, sem o ombro do amigo pra chorar nos momentos mais dramáticos. Uma verdadeira revolução na platéia! E não parou por aí: ainda teve bailinho, pisão no pé, amuleto e até oportunidade de sair para comer pizza mais cedo.

A interação com a platéia promovida na peça ainda é limitada, uma vez que passa longe de alterar os rumos do espetáculo ou de permitir que o público seja, de fato, parte daquela criação. Por outro lado, supera diversas outras tentativas que já vi porque causa alterações reais no espectador, que vão além da vergonha pela superexposição ou da simpatia pela doçura do gesto do ator: vão para dentro.

Talvez o melhor exemplo do envolvimento do público seja a cena em que todos participam de um joguinho bobo, mas que requer a concentração de cada um para funcionar. Ou, talvez, mesmo que tenha efeito individual, o momento mais tocante, pelo menos para o espectador escolhido, tenha sido aquele em que ele precisou se negar a participar de um espancamento. Nesse momento, eu, que tenho ido muito à Praça da Sé, me lembrei de uma celebração recente em memória de oito moradores de rua que foram mortos por espancamento na praça. E, rapidamente, aquele travesseirão ganhou, pra mim, uma cara conhecida. É provável que o moço que foi convidado ao espancamento nem soubesse desses moradores, mas a atitude a que foi convidado já fez com que ele fosse tão tocado ou mais tocado do que eu pela proposta da cena.

Assim, sem clímax, sem catarse, sem história de amor, vivemos este momento esperando que alguma coisa definitiva aconteça. E não acontece. Não do jeito que esperamos. No entanto, saímos do teatro (ou da tenda de maravilhas) e o Ésio continua martelando nas nossas cabeças que as escolhas – quando encontramos as encruzilhadas – são nossas. São?

11 de abril de 1969 (era a data que estava no RG do moço da platéia)

'6 comentários para “Encruzilhados – entre a barbárie e o sonho”'
  1. Amanda França disse:

    achei a peça muito chata!

  2. Juli disse:

    Sério? Eu não achei, não.

  3. mario candido disse:

    eu achei uma experiencia bem interessante! bem diferente de tudo q ja vi em uma peça. Os tres atores mandam muuito bem, mas a energia do Esio é algo notável!

    Curti muito a peça!! Me diverti muito!! Recomendo!!

  4. Eduardo disse:

    O elenco tem um trabalho primoroso…
    Uma experiência inesquecível!

  5. Leonardo Almeida disse:

    Espetaculo MARAVILHOSO, misto de comedia e drama…Atores competentes e 100% entregues ao trabalho. Se você gosta de assistir peças de qualidade não perca esse espetaculo.

    Leonardo Almeida.

  6. Oi Leonardo

    Vc tem o link das peças de qualidade em cartaz? Queria assistir só peças de qualidade.
    Qualquer dica, me avisa.
    Valeu

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