Nonada

Críticas   |       |    8 de abril de 2008    |    8 comentários

Dá pra definir a alma de um povo numa peça?

A Cia do Feijão está completando 10 anos e, com ajuda do Fomento, preparou sua Mostra de Repertório incluindo 5 dos 8 espetáculos realizados nesse tempo de estrada. Nos primeiros meses deste ano, (janeiro a março), a cia. apresentou Pálido Colosso, peça que discute, em formato de cabaré, o endireitamento da esquerda brasileira. De 7 de março até o próximo domingo, 13 de abril, está em cartaz Nonada, peça que procura aprofundar a investigação do grupo sobre o nosso país e esses seres estranhos que vivem nele – tipassim, nós. As seguintes serão Mire Veja, O Ó da Viagem e Reis de Fumaça.

Vamos ao que interessa, ou seja, às memórias das nossas tristes almas trazidas de lá da eternidade. Para organizá-las, um apresentador bizarro, tom de voz exagerado, muito alto, com o mesmo casaco usado no Pálido Colosso (economia com figurino?). Passamos, então, por algumas vidas intercaladas, algumas histórias perdidas de pessoas que representam extremos de um sociedade perdida: uma senhora abandonada pela família, uma mulher rica que é, ao mesmo tempo, mendiga do amor de seu marido, um senhor rico cujo sonho era ter um criado (não dos mudos, daqueles que falam mesmo). Os três personagens são acompanhados por um garoto perdidão e desmemoriado, que procura encaixar-se na história deles.

Essa alma desmemoriada terá sua história contada por último, quando os atores mudam de personagens e não narram mais suas próprias histórias, ficando a narração a cargo do apresentador altão e os atores limitados aos gestos correspondentes a fala deste. Este relato final une todas as demais histórias pela repetição de palavras, expressões e situações, criando uma sintonia entre as lembranças e, portanto, entre os brasileiros. Uma espécie de identidade nacional que independe da data de falecimento ou da classe social do fantasminha.

A repetição histórica que gera a unidade citada tem início – pelo menos na interpretação do pessoal da feijoada – na escravidão, trazida à cena por uma história toda contraditória e nada simplista que nos faz ficar a maior parte do tempo torcendo pro mocinho errado que, na verdade, era o bandido. Não vou desenvolver mais, senão conto o fim. Não que o fim tenha sido o que mais me chamou atenção – a citação de Machado de Assis, retomando as falas de Brás Cubas, o defunto-autor, não é das mais criativas, nem tampouco necessária. Me interessa muito mais a maneira como se mostra a construção das relações sociais estabelecidas pouco a pouco na sociedade, sem limitar-se aos conflitos-marxistas-entre-classes, mas expondo uma possível origem do típico levar-vantagem-em-tudo, da busca inescrupulosa por benefícios (quase sempre financeiros) que, desde os tempos em que capatazes ganhavam uma puta grana pegando negros fugidos, desconsidera os outos seres humanos.

A história que talvez mais caracterize a maneira como nos relacionamos é a do ricaço que quer ter um criado. E “tem que ser brasileiro e preto”. Quando consegue seu “tiziu” de estimação, Seu Belazarte (talvez não seja esse o nome correto, mas…) se apaixona por ele e redefine completamente o conceito de servidão em sua vida. Afinal, quem é a vítima na servidão, quem serve ou quem não sabe mais passar sem ser servido? É seguindo esta lógica que Seu Belazarte não consegue suportar o casamento de seu criado-falante e o conseqüente abandono. É como o dominante que não consegue sobreviver a qualquer sinal de independência do dominado. Conhece uma história parecida? Pois é, a platéia também. E ela é tão inclusa nessas memórias que até tem sua própria fichinha de falecimento (o ingresso), com nome e data da “passagem”.

3 almas penadas camaradas

'8 comentários para “Nonada”'
  1. Edu carvalho disse:

    assisti esse espetáculo e não gostei…
    não me disse nada, achei forçado, a cia é boa, mas…
    não curti

  2. Juli disse:

    Oi, Edu! Olha, a peça me disse muita coisa e achei coerente com a pesquisa deles, mas, por outro lado, também achei alguns momentos bastante forçados e alguma falas meio didáticas. Você se lembra do que achou forçado?

    Beijos,
    Juli.

  3. Edu carvalho disse:

    olha, achei forçado muitos momentos na interpretação,
    um figurino que ao meu ver não casava, saio me perguntando as vezes de alguns espetáculos, porque?posso não ter entendido a proposta, mas então como leigo não me comunicou, o que na minha opinião é fundamental, se pelo menos eu tivesse sentido algo, va lá…ah, não senti sim…sono!

  4. Pedro Pires disse:

    Oi Juli,
    só agora li o que vc escreveu sobre o NONADA. Sobre as outras também (Pálido e Mire Veja). Parabéns pela iniciativa de escrever sobre o teatro que se faz em São Paulo e pela provocação ao debate através do espaço para os “comentários”.
    Um ponto específico eu gostaria de comentar. O personagem Belazarte sua origem e desdobramento final de sua análize ( o que mais te interessou).
    Primeiro aponto um equívoco: o personagem Belazarte não é um ricaço. Ele está mais para um profissional de classe média de hoje. As pistas estão no texto e nas ações da peça.Ele diz “um dia andei endinheirado…” , sonha em ter um criado como dos filmes (sonhos de classe média), anda de bonde para ir ver uns terrenos longe, sonha em ir para a Europa e levar consigo Elis (o seu empregado) dar autonomia e fazer com que ele se desenvolva e progrida como ser humano, brasileiro e preto. Noção bem classe média liberal com alguns ares social-democrata (PSDB). Suas intenções são muito “humanas” mas como você mesmo aponta mudam quando ele é contrariado. Mas retomando ele não é um ricaço – o que muda tudo!
    Seguindo queria discutir a passagem onde você escreve “capatazes que ganhavam uma puta grana pegando negros fugidos”. Na parte correspondente da peça, quando Belazarte vira o caçador de escravos – e não é por acaso – e se torna o capataz que ganha uma puta grana aí está o nó e a questão fundamental do equívoco (o ricaço que não é ricaço). A identificação entre o capataz da época da escravidão e o classe média dos anos 30 e do século 21. Capatazes não ganhavam e continuam não ganhando uma puta grana pois eles servem aos que ganham. Logicamente faz parte da propaganda dos que ganham jogar a culpa em alguém e então a pancada desce pro capataz. Quem ganha na peça é o Sr Leal, o apresentador. Inspirado em Brás Cubas, legitimo representante de nossa classe dominante e que na peça manipula tudo e todos. Chegou até a manipular a sua crítica, sem que você percebesse é claro. Como manipulou? Você coloca a culpa no capataz, mas ele está no meio de uma sociedade injusta. Não é uma escravo (pobre de hoje) nem um proprietário de escravos (banqueiro de hoje) ele joga as regras do jogo e tenta sobreviver. Como dizem as frases finais do final proferidas pelo representante da classe dominante ” a ordem social e humana não se atingem sem o grotesco e algumas vezes o cruel” (que podem hoje ser atribuídas aos nossos presidentes – do banco central – legítimos representantes das nossas elites. aos quais os nossos presidentes da República dizem amém)
    Gostaria de recomendar uma leitura. O texto de Roberto schwatrz “as idéias fora do lugar” e o programa café filosófico de Chico de Oliveira da TV cultura.
    Obrigado pelo espaço de discução,
    Um abraço Pedro Pires

  5. Pedro Pires disse:

    Desculpem os errinhos de digitação.
    Gostaria de te ouvir a este respeito
    Pedro Pires

  6. Juli =) disse:

    Oi, Pedro! Bem-vindo!
    Você quer me ouvir sobre os errinhos de digitação? rs Fique à vontade pra cometê-los…

    Quanto ao Sr. Belazarte e o capataz, ao dizer “puta grana” e “ricaço” não pretendia colocá-los como elite, pois estava claro pra mim que ambos estão naquele meio termo perigoso de quem tenta tirar vantagem de tudo (como escrevi) porque está tentando jogar o jogo (como você escreveu).

    Não posso concordar, porém, que a sociedade injusta justifique as atitudes nem de um, nem de outro personagens/ tipos.

    Por outro lado, é um erro meu se ficou parecendo que atribuí a culpa ao capataz. Cheguei a dizer que a história dele é tão complexa e contraditória que torcemos pra ele como se fosse o “mocinho” da história, enquanto sua atividade é bastante cruel. O que quis destacar nesse ponto é o modo como vocês conseguiram relativizar as “culpas”. Culpas que eu pelo menos não consigo centralizar em ninguém (ou em nenhuma “classe”). As vejo divididas, compartilhadas por escravos, capatazes, banqueiros, sobreviventes, … Mas acho muito, muito relevante aprofundar o entendimento sobre essa classe-média-sobrevivente-conivente, bem representada nesses personagens. Tanto que foi, mesmo, o que mais me interessou na montagem.

    Devo admitir que talvez o Sr. Leal tenha me manipulado em alguns momentos. Essa coisa de “ordem social e humana não se atingem sem o grotesco e algumas vezes o cruel” é um discurso ditatorial horrível, assustador, mas me pareceu somente irônico, não me pareceu que ele assumia como verdade o que dizia, talvez pelo sorrisinho recorrente dele. Quem sabe ele não possa representar também aquela enorme parcela da imprensa literalmente comandada por políticos-coronéis que ficam ditando suas verdades nas entrelinhas?

    Já a respeito do espaço de discussão, agradeça à Internet-terrinha-de-ninguém.

    Estas referências que você indicou foram referências no processo da peça?

    No mais, nada a apontar sobre as outras críticas? Espero seus comentários.

    Reis de Fumaça, infelizmente, não vou conseguir ver. A temporada vai parar mesmo por aqui? Que pena… queria te ver atuando.

    Beijos e continue aparecendo.
    Juli =)

  7. Pedro Pires disse:

    Oi Juli,
    “Vortei”!
    Depois pretendo fazer outros comentários.
    A Referência ao Roberto Schwartz é de uma obra dele, artigo importante para se compreender o Brasil e sua formação. Uma expressão dele “modernização conservadora” é clássica e diz repeito de perto a nós e nossas criações – feijão. O Brasil se moderniza conservando desde que foi elevado a nação relativamente autônoma – 1808. Isto está no texto dele. É bom le-lo. Já o Chico de Oliveira anda tratando do nosso contexto atual.
    Por hoje é isso!
    Um grande abraço pra você e toda a moçada das Bacantes.

  8. Tiago Junqueira disse:

    Acabei de ver a peça no teatro popular do SESI, e como já comentaram aí em cima, a peça não me trouxe nada também, não me despertou nada, não me tocou, não senti a história em nenhum momento. Direção e marcações de cenas lindas, iluminação e sonoplástia linda, atores bons… Mas a forma que as histórias foram costuradas não me agradou em nada, achei muito cansativo e pedante, senti muito sono e vontade de ir embora. O cenário não achei nada funcional com a proposta também, senti que era apenas estética e não útil…

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