O Cavalo na Montanha
Sobre arte, dinheiro e demagogia
Teatro nas Universidades é um projeto que, desde 2005, busca estabelecer um vínculo maior entre os estudantes universitários brasileiros e o teatro. Por trás deste projeto há nomes e entidades de imensurável importância para a cultura brasileira, como Antônio Ermírio de Moraes, a Companhia Brasileira de Alumínio, a Associação Comercial de São Paulo, o patrocinador Santander e o casal global Paulo Goulart e Nicete Bruno (que, como comprova a foto escaneada do programa, formam um lindo casal feliz).
O projeto é bastante simples: apresentar espetáculos teatrais dentro das universidades. E não são quaisquer espetáculos. Entre as propostas, já houve espetáculos de altíssima qualidade, passando por grandes nomes como o dramaturgo Newton Moreno ou o ator e encenador Antônio Abujamra. Deixando de lado o oportunismo comercial que infelizmente é o maior impulsionador de cultura no país, é um projeto interessante.
No dia 14 de maio, através deste projeto, foi realizada mais uma apresentação do espetáculo O Cavalo na Montanha, desta vez na faculdade de comunicação Cásper Líbero. O espetáculo conta a história de amor entre uma mulher e o cavalo que ela tivera quando pequena e que havia fugido. O reencontro dos dois os leva a reflexões sobre suas identidades e relações. Como se trata de um espetáculo que mescla teatro e sobretudo dança, e eu não tenho absolutamente referencial algum para falar de dança, me limito a dizer que o espetáculo apresenta um trabalho corporal bastante intenso por parte dos atores (Paulo Goulart Filho e Vanessa Portugal), mas que não empolga (confesso que cochilei em alguns momentos).
Após a apresentação, é aberto um debate sobre o teatro na universidade, que na verdade não passa de uma estratégia para consolidar os nomes dos patrocinadores na cabeça das poucas pessoas que toparam ficar. O debate se extende por míseros quarenta minutos (afinal precisa mais do que isso pra discutir o teatro no meio acadêmico?) e as pouquíssimas manifestações polêmicas que surgem, promovidas pelo grupo de teatro nascido na faculdade (e que fora boicotado pela própria instituição que agora recebe de braços abertos uma iniciativa de objetivo questionável), são abafadas e incorporadas pelo discurso vendido, que na medida do possível finge que nada está acontecendo.
Dentro destes quarenta minutos, pérolas como “a arte não existe sem um respaldo financeiro grande”, “não vá me dizer que 35 reais por mês é caro [para ver uma única peça teatral]” e a onipresente e demagógica “nós estamos fazendo a nossa parte e cabe a vocês lutarem pela parte de vocês” são soltas no ar para uma platéia escassa que muitas vezes sequer tem noção da importância de uma discussão como essa. E algumas poucas pessoas saem do auditório onde outrora se gravava o programa de Sérgio Mallandro se questionando sobre o que foi mais fraco, o espetáculo ou o falso debate.
1 projeto da Nicete Bruno Produções Artísticas
não seria ´paulo´ no lugar de ´joão´? (se foi uma piada eu não entendi. desculpe minha ignorância.)
Obrigado, Maria Clara! Era Paulo Goulart mesmo (acredite, quase escrevi João aqui neste comment).
Tenho um sério problema com o nome deste ator, eu sempre o chamo de Jango, SEMPRE.
O que eu posso fazer se ele tem muito mais cara de João do que de Paulo, num é mesmo minha gente? Abraços.
gostei dessa foto da página inicial da ´bacante´. gosto do layout da revista. abraço mau! (adoro fotos de espetáculos.)
É isso aí, Mau. O espetáculo, na verdade, não achei tão fraco, embora com algumas coisas bizarras. Há imagens e coreografias bonitas. Mas a banalidade e o clichê do discurso são tristes. Aliás, faltou uma pérola, esta poética: “a arte é mais importante do que um prato de arroz e feijão”. Depende pra quem, né?
Beijo.