O Conto da Ilha Desconhecida

Críticas   |       |    29 de outubro de 2007    |    0 comentários

A matinê do portuga (não, não é piada)

Fazia tempo que eu não escolhia uma peça exclusivamente pelo horário em que ela era exibida – em geral, só faço isso em mostras e festivais. Mas essa foi a única peça que podia ver em uma ensolarada tarde de domingo (pra quem não me conhece, eu não sou lá o melhor amigo do calor). Na entrada do teatro, dei de cara com uma porção de crianças – e seus respectivos adultos responsáveis: tá certo, era o horário deles irem ao teatro, enquanto os sujinhos estão acordando com a ressaca da noitada anterior.

Fiquei aliviado quando percebi que ali haveria duas peças diferentes, e os pequeninos não estavam ali pra ver uma montagem do Saramago. No meio da gritaria, pus-me a ler o programa – assim como a Dani, também tenho um peculiar fetiche por programas de peças, sobretudo quando dá pra ler antes da peça começar, porque muitas vezes eles nos anestesiam para a paulada que pode vir, ou servem de aperitivo para um bom banquete. Neste caso, comecei a ficar com medo ao saber que o que eu veria seria o texto na íntegra, não adaptado à linguagem teatral.

Pra quem não conhece, O Conto da Ilha Desconhecida fala sobre um homem que bate à porta do palácio do rei para pedir-lhe um barco, para que possa ir em busca da ilha desconhecida. Lembro-me de ter lido o livro há muito tempo, no rápido trajeto entre umas dez estações de metrô, me deliciando com os ágeis diálogos que evidenciam burocracias obsoletas, racionalismos castradores e sonhos incorruptíveis. Nesta produção de estréia, a companhia Pé na Porta conseguiu enxergar muito bem a teatralidade dos escritos do portuga ranzinza de que tanto gosto. A proposta é bem-intencionada: estimular um público jovem (daí o horário de matinê) a gostar de teatro e de literatura. Se dá certo, não sei, só posso afirmar que a mim o espetáculo não decepcionou.

Em cena, dois atores, três atrizes e dois músicos, todos com aquele ar de recém-chegados (tipo a Bacante mesmo, sabe?), e demonstrando muita vontade de fazer aquilo tudo dar certo. Sabemos, pois, que querer não é necessariamente poder, mas neste caso os caras querem tanto, mas tanto, mas tanto, que acabam podendo. É com desenvoltura que eles alternam os personagens e ressignificam objetos para dar um tom mais lúdico e teatral à narrativa. Lembra aquela moça do Rá-tim-bum que contava historinhas com objetos? É quase aquilo. Percebe-se que ali há bons talentos a serem desenvolvidos com o tempo, e nenhuma das figuras que vemos em cena são destoantes do grupo.

O que eles fazem em cena é arrumadinho até demais: o cenário talvez não precisasse de delimitações, uma vez que o chão e o painel brancos, somados aos objetos de cena, são suficientes. O figurino poderia ousar mais do que o “cada um traz de casa o seu, de acordo com o combinado”, mas isso tudo é detalhe. O Pé na Porta acaba ficando só no nome do grupo, porque eles entram pedindo licença, e com toda educação apresentam um espetáculo comportado e bem-feito. Seria bem legal vê-los nas próximas produções retomando as desconstruções e ressignificações que eles começaram a propor aqui e levando-as a ilhas mais desconhecidas.

3 guarda-chuvas que viram gaivotas

O que você acha?

A Bacante é Creative Commons. Alguns direitos reservados. Movida a Wordpress.