O Santo Parto
Quando a vagina faz a diferença
Em respeito à semana do Anônimo Feliz, não identificaremos o autor deste texto.
Fotos: Lenise Pinheiro.
Na sinopse de O Santo Parto estava escrito que a peça conta a história de um padre prestes a dar à luz seu próprio filho. Apesar da injustiça da comparação, é impossível não se lembrar daquele filme péssimo em que Arnold Schwarzenegger engravidava. E o espetáculo nos mostra exatamente aquilo que foi prometido: um padre, com um barrigão imenso, ciente da aberração de sua situação.
A montagem opta por uma linguagem realista. Logo no corredorzinho que dá acesso ao Espaço dos Satyros 1, a platéia já encontra algo diferente: uma porta, como se estivéssemos entrando em uma igreja. Passando pela porta, a impressão se concretiza com a presença de um altar, uma pia de água benta, um armarinho com uma bíblia, um crucifixo, um telefone e uma pequena bandeira do Brasil. Nem mesmo o chão do espaço escapou dessa avalanche realista, com um mosaico do começo da platéia até o altar. Só faltaram as beatas pra nos receber e, claro, a caixinha para jogar moedas. O figurino segue a mesma linha, com direito até mesmo a acessórios como o incensário que em determinado momento aparece sendo balançado pra lá e pra cá.
Nada contra produções ricas em detalhes, desde que esta proposta seja adotada de forma séria, como acontece com este espetáculo, mas não dá pra não comentar o quão desnecessário pode ser, por exemplo, um armário apenas para que o padre tenha onde colocar as roupas que tira. Assim como não parecem necessárias tantas roupas só pra mostrar que ele está alinhado com a moda padre primavera-verão 2008.
No elenco, Walter Breda interpreta um cardeal extremamente caricato que surge para dar lições de moral ao protagonista interpretado brilhantemente por Marco Antônio Pâmio. Há ainda o jovem “pai da criança” (que em alguns momentos aparece como São Jorge), interpretado com vontade por Raoni Carneiro, e um coro que, em suas poucas aparições, lembra – beeeem de leve – alguns rituais propostos por Zé Celso em Os Sertões.
A história lembra os romances de realismo fantástico, em que as situações – por mais absurdas que sejam – são contadas de uma forma que o leitor se convence e viaja na história sem sequer questionar sua veracidade. Mas neste caso, infelizmente, notamos no texto uma preocupação excessiva de explicar alguns porquês. Num texto em que um padre engravida após ter tido uma relação sexual e discute o tempo todo com um cardeal falecido que aparece para lhe dar sermão, quem diabos vai se preocupar se ele tem ou não uma vagina?
Com o levantamento de questões secundárias como esta, os questionamentos dos dogmas da igreja católica, o conflito com a realidade evangélica e o moralismo imposto pelo divertido cardeal acabam perdendo seu peso. Destas pequenas barrigas, a que mais se sobressai (talvez até mais do que aquela que o protagonista carrega) é a revelação ultra-realista quase no final, que acaba com todas as chances da platéia viajar na possibilidade fantástica.
Eu gostaria de ter acreditado mais nessa história esquisitíssima. O tempo todo fui envolvido por ótimos atores e pelo ambiente que foi criado, mas o texto fez questão de me mostrar em todos os momentos o quanto aquilo não era verdadeiro, apesar deste mesmo texto trazer questionamentos válidos, e de sugerir imagens e situações com bastante força cênica.
1 pai + 1 filho + 1 espírito santo = 3
O que você acha?