Pentágono

Críticas   |       |    4 de março de 2008    |    3 comentários

Muito sobre um festival, pouco sobre uma peça

pentagono.jpg

Foto: Divulgação. Aproveite, porque com essa proximidade, só de binóculo!

Quase preparando as sungas e biquínis para o Festival de Curitiba, fomos pegos de surpresa por um outro festival, e desta vez não precisaríamos nos preocupar com acomodação, e a única passagem a ser cogitada era a do metrô. Acontece até 9 de março, aqui em São Paulo, o I Festival Ibero-Americano de Teatro.

Domingo, a única informação de que eu dispunha era que naquela noite receberíamos na cidade um espetáculo uruguaio chamado Pentágono. Tentei descobrir um pouco sobre a peça, sua sinopse, diretor, autor… Nada. Nem o Google Uruguay ajudou, e fui mesmo às cegas conferir.

O festival ocorre no Auditório Simón Bolívar, espaço megaultragigantesco situado no Memorial da América Latina, aquele do Niemeyer. Cheguei, retirei meus ingressos – gratuitos – na bilheteria, e fiquei observando o espaço. A primeira impressão foi a de que estava um tanto vazio demais para um espaço tão grande, mas bastou terminar a apresentação do espetáculo anterior para que as escadas e rampas que dão acesso à sala se tornassem um fluxo infinito de gente vinda da primeira peça, que ficou por ali mesmo, já com os ingressos em mãos para a próxima sessão.

A arquitetura monumental dá ao festival uma característica que jamais vi em eventos do gênero: ingressos gratuitos praticamente inesgotáveis. Lindo, né? Por outro lado, a arquitetura megalomaníaca “comunista” de Niemeyer tem, no fim das contas, o mesmíssimo problema da megalomania capitalista do Teatro Abril ou do Cultura Artística: é tanta, mas tanta, mas tanta gente, que nem todos conseguem conferir o mesmo espetáculo. Quem se senta lá atrás sempre terá sérios prejuízos.

Mas como, na prática, clima de festival sempre acaba sendo o de abrir mão de alguns luxos pra que o máximo de gente possa conferir (ainda que uns confiram melhor que outros), acho até que todo festival poderia ter seu Auditório Simón Bolívar (mas nenhuma cidade merece, na opinião do morador que vos fala, um jardim tão concreto, tão esquisito e tão estéril como é o Memorial). E já que nunca é demais pedir, será que não daria pra fazer todos os festivais gratuitos ao público? Tá bom, não peço mais nada…

Agora, a peça (afinal, se não fosse por ela, essa crítica não existiria). Logo ao entrar naquele auditório imeeeenso com os painéis imeeeensos da Tomie Ohtake (sério, como eles limpam aquilo? vaporetto?), outro problema arquitetônico salta aos olhos: o palco maior e mais italiano do que qualquer qualquer palco em toda a Itália, logicamente, precisa ser reduzido para que qualquer montagem menor do que Os Sertões possa ser exibida. E como as encenações têm que se adaptar rapidamente ao espaço no curto intervalo entre uma apresentação e outra, tudo acaba ficando, invariavelmente, com cara de peça de colégio apresentada no ginásio para todos os pais de todos os alunos.

Tá, mas e a peça? Pois é. Conta a história de um aposentado, internado em uma espécie de asilo ou hospício, que se lembra de tudo o que passou em sua vida e reage a tudo o que ainda acontece no presente. Desse modo, mostra que a vida não é composta apenas do momento, mas também de lembranças – e por outro lado, que estas lembranças criam a personalidade e interferem no presente. Algo que facilmente a Globo divulgaria com um “Melhor-idade, a gente vê por aqui” seguido de um top de 5 segundos para o Vídeo Show. Lembrei-me, vagamente, de As Mulheres da Minha Vida, mas esta referência logo foi embora quando veio-me à mente a canastrice de Antônio Fagundes. Argh.

O elenco é encabeçado por Luis Lage, que pelo que entendi, é uma espécie de ator fodão do Uruguai (parentesco com Roberto Lage: desconhecido). A encenação é aquela coisa: realista e bem característica do drama burguês (com direito a marcações bem-definidas, falas com braços abertos e olhos perdidos no horizonte e tudo mais), mas o espetáculo possui autonomia – sobretudo pelas interpretações – para representar um país em um festival sem “fazer feio”.

Só é uma pena trazer de longe um teatro que já estou cansado de ver por aqui no Hotel Renaissance ou no Teatro Vivo – com vantagem de não ter o público saindo às hordas pela metade porque não foi avisado de que não haveria legendas em português, em um festival cujo mote, Teatro Ibero-Americano, pressupõe uma aproximação entre os países de origem Ibérica, inclusive se propondo a vencer barreiras lingüísticas. No final, saí com vontade de ter conhecido um teatro uruguaio que não trouxesse essa sensação de déjà-vu. E isso geralmente é mais chato que qualquer transtorno técnico.

7634785 passos da entrada do memorial até minha poltrona

'3 comentários para “Pentágono”'
  1. Putz Maurício! Não peça para fazer todos os festivais gratuitos ao público não! Em festivais de cidades médias pode-se chegar ao caso do público só frequentar o teatro uma vez por ano, e ainda dizer pra gente: “Pra que ir ao teatro hj, se eu posso ver de graça na época do festival?”. Será que os festivais assim estarão formando público ou só trazendo diversão de graça (ou a míseros R$2,50 como no cerrado)? Eu também não sei a resposta! Algo sério para se pensar.

  2. Emilliano, sei não… Vou pensar sobre o seu argumento… Eu sou meio adepto de, na dúvida, fazer de graça… Mas é uma polêmica eterna. Se eu chegar a uma conclusão (duvido, hehe) te falo!

    Abraço!

  3. Juli =) disse:

    Emiliano…

    O que aconteceria então se as “nossas” peças durante o ano (não só em festivais) também fossem de graça? As pessoas deixariam pra ver quando? Sempre? Não parece bom?

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