A Última Quimera

Críticas   |       |    29 de outubro de 2007    |    3 comentários

O que você vai dizer antes de morrer? E depois?

Foto: Will Mazzola

Analisar trabalhos teatrais sem uma perspectiva de trajetória do grupo, tipo de pesquisa e intenções, é como andar na corda bamba sem bastão e sem ser acrobata. Dificilmente chega-se ao outro lado. Tânia Brandão, ex-critica do Jornal do Brasil e historiadora do teatro ligada à Unirio, comentou uma vez que “teatro é quilometragem”. Acrescento que cinema, artes plásticas, literatura e até ovo frito só se aprende por quilometragem e reflexão. Essa introdução toda é para explicar de onde eu parto pra criticar o novo trabalho da Cia. Les Commediens Tropicales.

Aqui na Bacante, você encontra o meu segundo encontro com o trabalho dos caras. No “Engenho mostra um pouco do que gosta III” pude conferir Chalaça, a Peça. Fui descobrir muito depois da apresentação, que esse grupo é o mesmo que encenou o retumbante Terror e Miséria no 3º Reich, lá na casa das Caldeiras. Formado na Unicamp, o Les Commediens Tropicales apresenta trabalhos radicalmente diversos a cada novo espetáculo, conclusão a que chego depois de conferir A Última Quimera, quarto trabalho do grupo (e aqui corro o risco de falar merda, pois não fui assistir Galvez, Imperador do Acre, o segundo trabalho da Cia).

Diferente dos anteriores, esse aqui não tem alguém que “assine a direção”. Há duas “provocadoras cênicas” (Verônica Fabrini e Georgette Fadel) que fazem o papel mais próximo do que poderíamos chamar de dirigir, mas lá no final das contas, pelo que chega nas cenas, afirma-se a idéia de uma direção coletiva. Isso muda substancialmente a produção e, obviamente, a forma de criticar o espetáculo. Aqui em A Última Quimera vemos muito mais excesso. Muito menos uma história (ou várias histórias, como era em Terror e Miséria no 3º Reich), e a afirmação do simbólico em detrimento do real.

Descemos até a marcenaria do teatro Sérgio Cardoso. Lá, os atores, logo na chegada, não têm medo de receber a platéia com olhares de quem está se preparando prum encontro. A disposição das cadeiras, metade de frente pra outra metade, formando um corredor central, facilita uma relação mais próxima do público e isso será explorado ao longo do espetáculo. Neste local que mais parece um porão de pé direito alto, será criada a atmosfera dos poemas e da obra de Augusto dos Anjos, autor “protagonista” dessa peça sem história (aqui vale ser anacrônico, e dizer sem “estória”, porque “história” tem, inclusive uma das questões centrais é “qual a contribuição do artista no processo histórico?”).

Como tenho feito em algumas críticas, sobretudo naquelas de peças que precisam ser vistas mais de uma vez, vou fazer um recorte: fico com duas cenas. Na primeira, pra resolver a questão: “os artistas mortos têm ou não muito a nos dizer?”, são colocados muitos aparelhos fora de sintonia no centro do corredor e somente esperamos que os sinais venham em meio ao ruído, do além. A tensão bem humorada dessa cena me fez pensar na produção que encontramos na cena teatral paulistana, principalmente com relação à quantidade de vezes que foram encenados Nelson Rodrigues, Shakespeare e tragédias gregas. É como se o excesso de vozes sobre os mesmos mortos fosse tal que dele saísse um ruído capaz de tornar tudo sem sentido (ou somente com o sentido do próprio ruído). A segunda cena é a posterior a essa, em que os atores repetem frases que artistas famosos teriam dito antes de morrer. Não se sabe se são todas verdadeiras ou não, e não importa. Vale, mais uma vez com bom-humor, pensar na forma como todos os artistas encaram a morte como algo concreto.

A Última Quimera não pode ser reduzida a ismos, nem pode ser vista como um todo bem acabado. Não me pareceu a idéia do grupo. Vejo tudo como uma colagem de temas que vêm de provocações. Primeiro de Augusto dos Anjos, depois de Olavo Bilac e sobretudo provocações de um processo difícil, como é relatado na publicação A Última Quimera – Uma Necrofagia Teatral lançada pelo Les Commediens, e vendida à R$5,00 na saída da peça. O teatro de grupo de São Paulo chega em um novo momento e nessa peça começamos a senti-lo.

15 minutos num caixão. Não eu, claro, o ator.

PS: Programa e publicação sobre o espetáculo são primorosos. O programa porque não nos responde questão alguma, apresenta somente uma carta. A publicação porque expande a idéia do blog, que o grupo já mantém pra cada montagem, mas que nessa versão impressa apresenta uma contextualização mais ampla de tudo que se comenta na internet. Mostra, principalmente, que uma cia. não precisa completar 20, 30 anos de história pra fazer sua própria publicação. Nem que seja sem capa dura e em papel sulfite reciclado.

'3 comentários para “A Última Quimera”'
  1. . disse:

    A gente acha q o teatro está cansado de ismos! Mas a gente mesmo não sabe muito bem como fazer… Então, vamos fazendo.
    Valeu pelo texto…
    O Caderno até ia ser com capa dura, mas a Imprensa Oficial errou nessa remessa… Mas é só embrulho!
    O Galvez foi nosso primeiro livro em cena… Acho q só isso que se assemelha a Quimera e ao Chalaça… Um dia, talvez, ele volte!
    Há braços.

  2. Fabrício Muriana disse:

    Vocês sabem que essa parte dos ismos eu roubei sem dar créditos da publicação de vocês. Mas realmente não dá pra definir. E o eterno “não saber fazer” demonstra uma redaptação constante, o que pode fazer vocês não pararem no tempo. Vou conferindo o trabalho de vocês. Avisem quando a nova provocação sair do forno.
    Abraço.

  3. naty disse:

    eu estou procuranduu outra quimera naum essa !!!!

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