Umbral

Críticas   |       |    17 de junho de 2008    |    0 comentários

Manual de tietagem do FILO

Foto: Beatriz Rodrigues

Um dia depois de assistir Umbral, estava na entrada da peça Contêmpora, apresentada no mesmo Teatro Zaqueu de Melo de Londrina, quando identifiquei Cristina Castrillo (não que eu soubesse o nome dela naquela hora) – atriz argentina que ocupa o centro do palco na apresentação de Umbral (até porque só tem ela no palco). O povo que ganha “cortesia” – esse nome péssimo pros ingressos para convidados de peças teatrais, rodeios e shows decadentes – tinha que esperar as portas se fecharem para poder ocupar os lugares vagos. Como já tinha me proposto a dialogar com Umbral por meio de uma crítica, espreitava a moça para saber onde ela ia se sentar e poder me aproximar. Um misto de tiete com crítico interesseiro. Ao seu lado, brinquei que no dia anterior ela ocupava outro lugar do teatro. Não me lembro bem, mas acho que ela respondeu um “talvez” ou “é diferente”. Comentei então que Umbral se conectava, para mim, a três outras peças, tanto em temas discutidos, quanto nas formas finais apresentadas ao público.

Na noite anterior, no início de Umbral, ainda no breu, comprei um bombril – mentira, esquece o bombril – Cristina diz que não quer fazer um espetáculo, ou ao menos não um espetáculo comum. Ela lista vários nomes do que aquilo poderia ser, quase como se nenhum fosse suficiente para definir o que seria apresentado. Termina por escolher o termo “coisa”, prevendo que quem estava assistindo comentaria algo como “assisti uma ‘coisa’ ontem de noite…”. Tal e qual Tim Crouch em An Oak Tree, ela estabelece desde o princípio uma relação mais próxima com o público, quebrando em boa medida o que se estabelece na maior parte das peças em que o palco italiano é utilizado. A conversa com a platéia institui um tom de palestra e incompletude, que, por vezes, nos faz sentir vontade de levantar o dedo para sugerirmos um tema de diálogo.

Alternando entre conversa e cenas, ela troca de figurinos no próprio palco e nos conduz pelo seu raciocício por meio de cenas com diversas linguagens teatrais. Ou poderíamos dizer que ela nos conduz por suas cenas por meio de uma palestra que as intercala. Não há uma hierarquia entre o que é cena e o que é conversa, por isso o tom de “coisa”. Essa postura nos remete à Carta Aberta da Cia Kiwi, em que o ator do palco nos convidava a uma palestra, sem medo de estar fazendo o convite no lugar errado. Nas duas peças – Umbral e Carta Aberta – fica claro desde o princípio: o que será discutido é algo mais trivial, mas não por isso menos profundo. Ambos os personagens quase pegam o espectador pela mão para levá-lo até o final.

A trajetória dos personagens apresentados parece ser parte da história de Cristina (Alô Cristina? Ok, péssima piada) e esse plasmar de realidade com ficção ajuda a complementar a reflexão da moça sobre a memória. Em dado momento, ela propõe que a memória de um fato que vivemos é também uma conexão: o fato que vivemos + o que somos + o que passamos desde o momento do fato, até o dia em que o relatamos. Não há uma memória pura, portanto não há razão para a criação de espetáculos que procurem uma única imagem na memória do público. A memória coletiva completa tanto a obra, como qualquer fato cotidiano por que passamos. Curioso notar que sua peça me remeteu a outras três peças, quase como se minha memória as colocasse no mesmo canto do cérebro (ou do coração).

Essa memória afetiva é realçada pela cena em que Cristina, como clown (em total desrespeito bem-vindo à tradição do clown) coloca a máscara na nossa frente e começa a interpretar o encontro do palhaço com o revólver. Qualquer semelhança entre essa cena e a de Ésio Magalhães e sua bazuca de bombas de chocolate apontada para a platéia em WWW para Freedom não é mera coincidência.

Mas, como dizer naquele momento em que ela bateu a palma da mão na minha bochecha, dando tchau e deixando somente um e-mail, que havia na peça dela uma relação direta com os platôs que o Deleuze propõe nos seus textos e que a memória, aquela que é alterada “como as águas ao receber uma pedrada”, é pro Nietzsche um componente ativo, uma força produtiva que abala todas as outras estruturas cerebrais, mas que também é criativa, criadora, como ela sugere na peça. Talvez ela já saiba. Lógico que ela já sabe. Bem, de alguma maneira, conversamos. De algumas maneiras.

dsc_0019-copy.jpg

4 personagens tão relevantes quanto uma palestra

Ps: Se tivesse ficado só com os juízos que recebi de quem já tinha visto a peça no FILO, teria perdido uma pérola escondida. Grazzadeus quis andar pelas minhas própria pernas. Em festivais, recomendo.

Ps2: A semelhança do movimento das águas com os platôs de Deleuze foi sugerida pela nossa fotógrafa Beatriz Ferreira e vem muito a calhar.

O que você acha?

A Bacante é Creative Commons. Alguns direitos reservados. Movida a Wordpress.